Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Delito de Opinião

Blogue da semana

Sérgio de Almeida Correia, 25.10.25

capa - Biografia 01.jpeg

"Ó vós, que sois secretários
das consciências reais, 
que entre os homens estais
por senhores ordinários;
porque não pondes um freio
ao roubar que vai sem meio,
debaixo do bom governo?"
 
Tenho para mim que as escolhas que faço devem ser úteis, seja no sentido prático das coisas ou como fonte de conhecimento e enriquecimento pessoal. Se em causa estiver um exercício lúdico, então este comportar-se-á como transmissor de prazer, bem-estar, conforto para qualquer sistema de recepção sensorial.
A beleza, a harmonia, o equilíbrio, o sentido estético das coisas, são fundamentais no nosso quotidiano.
E foi isto que encontrei quando há pouco mais de quatro meses, aproveitando "Junho, mês de Portugal na RAEM", uma iniciativa do Consulado Geral de Portugal em Macau e Hong Kong, IPOR, AICEP, Casa de Portugal e Fundação Oriente, tive o privilégio de assistir à apresentação de um livro e acompanhar um interessante diálogo entre Isabel Rio Novo, autora do incontornável "Fortuna, Caso, Tempo e Sorte - Biografia de Luiz Vaz de Camões", e José Carlos Canoa, professor de português no Instituto Português do Oriente, em Macau, estando então longe de pensar na escolha que hoje faria para vos propor nesta rubrica delituosa.
Para além de me ter sido dado nesse dia o gozo, é disso que se trata, de ler uma investigação a todos os títulos notável, pela profundidade da empreitada empreendida, o manancial de informação que a autora disponibilizou a todos os portugueses, o visível gosto com que foi escrito, a paixão e humildade com que falou sobre o seu trabalho - definições de um espírito superior -, a vida e obra do biografado, um português como os outros nos seus defeitos e nas suas virtudes, mas de um carácter absolutamente excepcional, espécie de semideus do sentimento, da honra e da dignidade, aconteceu ter ficado a conhecer o endereço de um blogue como nenhum outro em língua portuguesa sobre as temáticas camonianas.
Uma larga e prazerosa alameda que ilumina Camões e a obra maior aos olhos dos pagãos, cépticos e curiosos. 
Deixando-vos o prazer da descoberta, cometerei o pecado da gula, que nestas coisas sou pouco cristão e é-me penoso o arrependimento, de vos recomendar tanto a leitura da obra de Isabel Rio Novo como o sempre actual e incansável trabalho, só possível em professores empenhados que gostam do que fazem e dos seus alunos, que se revela em Luís de Camões – Directório de Camonística, "o grande guia para os Estudos Camonianos, editado por José Carlos Canoa". 
Estou certo que os leitores me perdoarão, por esta vez, a barrigada de prazer. 
O livro que acima referi e a minha escolha para o blogue da semana complementam-se, e seguramente que não serão indigestos para os estômagos mais sensíveis. Autora e autor estão de parabéns. 
Num país em que alguns dos seus principais governantes, legisladores e figuras públicas são estruturalmente iliteratos, têm dificuldade em distinguir o verbo da preposição, pensam mal e escrevem com os pés, é usar e abusar durante horas, dias e meses do que nos foi oferecido, e degustar um prato que combina a história, a erudição, a elegância intemporal da boa escrita, pese embora – heresia que por hoje farão o favor de me perdoar – seguir o português pós-Acordo Ortográfico de 1990, com a melhor investigação; bebendo do fino. 
Abençoado Camões. Abençoada leitura.

3 comentários

Comentar post