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Delito de Opinião

Béu-béus em vez de bebés

Pedro Correia, 03.12.25

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Cada vez mais me acontece. Saio à rua e observo senhoras com falsos bebés ao colo, agarradas ao "rebento" com o maior desvelo.

Falsos por não serem bebés: são cães.

Lá vão elas passeio fora, com aparente receio de que o bicho lhes tombe para o chão. 

Algumas, em vez de levarem o béu-béu nos braços, preferem transportá-lo em carrinhos de bebé. Vi há dias algo do género em estreia absoluta para mim: em vez de um rosto humano, arredondado e bochechudo, espreitava-me um focinho comprido e peludo debaixo da manta.

 

Permanecem por estudar com exactidão os efeitos devastadores do coronavírus em matéria comportamental. Mas há um ponto inquestionável: a relação das pessoas com o espaço urbano alterou-se muito desde a pandemia. Foi então que começaram a proliferar os estafetas - novo lúmpen citadino, oriundo do subcontinente indiano - devido ao pânico de muita gente perante o risco de contaminação em locais públicos: em vez de saírem, pagam para lhes levarem quase tudo à porta de casa.

Foi também então que cães e gatos reforçaram o seu estatuto como elementos fundamentais de companhia: ao contrário dos seres humanos, eles não eram transmissores de covid-19.

 

No contacto entre pessoas e animais, já vi de tudo um pouco e surpreendo-me com quase nada. Um colega de profissão - também meu bom amigo - levou certo dia uma atónita raposa para a redacção do jornal onde ambos trabalhávamos. Outro apresentou-nos um camaleão, seu animal doméstico preferido, orgulhosamente poisado no ombro do dono. No bairro onde vivo, passou por mim esbelta donzela levando um furão pela trela - rima e é verdade. Em Macau era frequente os velhotes passearem os passarinhos nas gaiolas, indiferentes ao olhar de espanto dos forasteiros recém-chegados da Europa. Eu próprio tive um periquito azul celeste que andava solto pela casa e se tornou atracção junto de quem nos visitava: era o Pavarotti, que ainda recordo com um rasto de nostalgia.

Mas confesso: faz-me confusão este recente hábito de transportar cães ao colo. Terão os animais perdido capacidade de locomoção também por efeito da pandemia?

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