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"Barco Negro"

por Cristina Torrão, em 31.10.19

Barco Negro.jpg

 

Depois de ter postado aqui sobre os “Portugal-Krimis”, ou seja, livros policiais situados em território português, mas escritos por alemães, houve um escritor, com pseudónimo Mario Lima, que se manifestou nos comentários. Este autor alemão vive há vários anos no Minho com a mulher e três gatos e dedica-se à produção (em pequena escala) de vinho verde tinto.

Fiquei curiosa quanto aos seus livros, não só por ter trocado impressões com ele, como por ele os situar no Porto, uma cidade que me diz muito. Nasci em Castelo de Paiva, vivi muitos anos em Vila Nova de Gaia e licenciei-me na Universidade do Porto. A personagem principal dos dois livros de Mario Lima é o inspector Fonseca, da PJ do Porto.

Li o primeiro, Barco Negro, inspirado no lindíssimo fado homónimo de Amália Rodrigues (no link indicado, pode ouvir-se a versão original e a cantada por Mariza). Trata-se de um enredo bem construído e uma leitura que entretém, mantendo o leitor em suspense. Não há dúvida de que Mario Lima conhece bem o Porto e Matosinhos e consegue transmitir a atmosfera dessas duas cidades, pelo menos, no Inverno. Este foi um aspecto que apreciei particularmente. Ainda não li mais nenhum destes “Portugal-Krimis”, mas sempre imaginei que os autores falassem muito do sol e das praias.

Pois bem, a acção de Barco Negro decorre de início de Novembro até Janeiro do ano seguinte, ou seja, em plena estação fria e cheia da chuva. A história inicia-se debaixo de uma chuva torrencial, que atrapalha o trabalho dos investigadores da PJ, quando surgem dois cadáveres em Perafita, Matosinhos. Embora haja dias de sol pelo meio, o frio não deixa de nos perseguir durante todo o livro, havendo inclusive uma cena passada perto de uma casa de montanha, na zona de Montalegre, com temperaturas abaixo de zero. Pois, isto também é Portugal! Achei igualmente interessante alguma referência ao tempo da ditadura e à PIDE.

Entre os investigadores da PJ, encontra-se uma jovem estagiária, psicóloga, que, na verdade, chega a roubar protagonismo ao inspector Fonseca, perguntando-se o leitor quem será, afinal, a personagem principal. Enfim, o inspector Fonseca é o único que vem mencionado na capa dos dois livros. Não sei como é no segundo, Tod in Porto (Morte no Porto), mas, na minha opinião, se Mario Lima pretende criar um inspector carismático para a sua série de policiais, vai ter de se dedicar mais ao Fonseca e refrear a sua “paixão” pela bonita e sexy Ana Cristina.

Infelizmente, o livro só existe em língua alemã e eu recomendaria a sua tradução. Se há algo que aprecio em obras destas, é a nossa imagem vista por alguém de fora. Por isso, não resisto a traduzir uma pequena passagem da página 265. O cenário é um hipermercado em vésperas de consoada natalícia:

«Na secção do peixe, encontravam-se quantidades extra de bacalhaus empilhados sobre mesas. Escolher o bacalhau certo para a consoada não era resolução para tomar de ânimo leve. Todos se aglomeravam à volta das mesas, cada qual o melhor especialista na matéria. Um bacalhau assim, salgado e seco, não devia ter uma cor muito esbranquiçada e também a consistência era importante: fosse ele mole demais, não servia. As pessoas pegavam nos bacalhaus e vergavam-nos, de olhar crítico. Era aquele o certo? A maior parte dos peixes acabava por ser novamente atirada para a pilha. Não haveria melhor? Casais mais velhos entreolhavam-se preocupados, abanando a cabeça. “Não valem nada”. Uma velhota baixinha desconfiava que os melhores estavam escondidos bem lá no fundo. Resoluta, arrancava um bacalhau a seguir ao outro do fundo da pilha, atirando-os para cima do monte, examinando cada um deles de testa franzida. Nada, mais uma vez. Venha o próximo!»


11 comentários

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De Luís Lavoura a 31.10.2019 às 12:27

dedica-se à produção (em pequena escala) de vinho verde tinto

Hmmm, eu gosto disso. A Cristina sabe se ele tem forma de mandar uma caixa de vinho para Lisboa? E qual é o contacto dele?
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De Cristina Torrão a 31.10.2019 às 12:37

Não sei, eu só contactei com ele aqui nos comentários. E na homepage do escritor não tem endereço email.

Mas o Luís pode talvez deixar uma mensagem aqui:

https://www.mario-lima.com/kontakt/

Está tudo em alemão, mas ele entende português. Ponha o seu nome, escreva a mensagem e depois clique em "senden".

Eu já lá deixei este link, pode ser que ele ainda aqui venha.
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De Vorph Valknut a 31.10.2019 às 13:48

Eu também me dedico à venda de vinho biológico. Verde, tinto, ou branco, Morangueiro, tinto, ou branco, Maduro, tinto, ou branco e se quiser até lhe arranjo garrafões de Receita.

Preço entre os 3-5€/litro. Se encomendar acima dos 10 litros faço-lhe uma atençãozita, e até lhe ofereço 1 embalagem de Loperamida 2mg.Com recibo acresce 23 %.

pedro_mao@sapo.pt
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De V. a 31.10.2019 às 21:01

Morangueiro loool. Isso é tipo o ácido que dá para fazer vitrais
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De Cristina Torrão a 01.11.2019 às 18:44

Luís Lavoura, fui informada de que a produção de vinho não passa de um hobby para Mario Lima, ele não vende.
De qualquer maneira, se quiser que ele o contacte, pode deixar aqui o seu email. Ou envie-me um para andancas@t-online.de
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De o cunhado do acutilante a 31.10.2019 às 12:51

Essa velhota baixinha desconfiada que atirava bacalhaus para todos os lados, não seria familiar do Sérgio Conceição?
É que pela elegância de ímpetos aplicada na tarefa seria muita coincidência não o ser.
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De V. a 01.11.2019 às 10:23

Por acaso acho a passagem bastante folclórica — e provém do misto de espanto e horror que os estrangeiros sentem pela falta de educação das camadas populares a mexer à balda nas coisas nos supermercados. Foi processado pela simpatia mas está lá.
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De Cristina Torrão a 01.11.2019 às 11:53

Caro V., eu não leio esta passagem dessa maneira. Penso que ele descreve uma cena que só se podia mesmo passar em Portugal. Não deve haver mais nenhum sítio no mundo, onde se come bacalhau na consoada. E em muitos poucos sítios se encontra bacalhau seco e salgado à venda. Nunca vi, na Alemanha, onde também se come bacalhau, mas fresco.

Penso que o autor não sentiu horror. Não há mal nenhum em mexer no bacalhau seco, que vai ser demolhado e, ainda, cozinhado. Acho que ele achou piada à maneira como as pessoas examinam cada peça, porque, para ele, calculo que todos os bacalhaus naquele estado serão iguais. Mas os portugueses, especialistas em bacalhau, sabem escolher. E, no que toca à consoada, são muito exigentes.

Achei piada à cena, porque, para nós é tão banal, que nem notamos. Mas, assim descrita, é muito interessante. Na Alemanha, um português pode ficar admirado, por exemplo, ao ver alemães, num churrasco, a preferir certas salsichas, em detrimento de outras, que nos parecem todas iguais. No início, perante tantas qualidades diferentes, perguntavam-me qual eu preferia e eu nunca sabia responder. Agora, passados quase trinta anos, também já sou quase uma especialista.

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De V. a 01.11.2019 às 12:32

OK. Confesso que para mim os bacalhaus também são todos iguais. As salsichas também. E de facto, as manias também me começam a parecer bastante idênticas
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De João Silva a 01.11.2019 às 18:22

Não conhecia, mas fico com a pulga atrás da orelha para ler esses romances, seja em alemão, seja em português. Obrigado pela sugestão.
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De Cristina Torrão a 01.11.2019 às 18:46

De nada.

Vai ter de ser em alemão, João, eles não estão traduzidos em português e é difícil que tal venha a acontecer (digo eu).

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