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Bafio

por José António Abreu, em 25.04.16

Alexandre Homem Cristo tem razão. Quarenta e dois anos depois, o 25 de Abril corporiza a resistência à mudança. Transformado em dogma, não apenas constitui pecado mortal equacionar hipóteses que lhe possam diminuir o simbolismo – p. ex., que parte das conquistas obtidas desde então se devem a factores apenas indirectamente com ele relacionados: o acesso aos fundos europeus possibilitado pela adesão à UE, a irresponsabilidade orçamental permitida pela adesão ao euro – mas, acima de tudo, evoca-se para defender o status quo. Os portugueses podem estar mais viajados e ter acesso aos mesmos livros e às mesmas séries que se lêem e vêem no exterior mas, tirando meia dúzia de jovens – especialmente empresários –, o Portugal de hoje permanece o Portugal de 1973: conservador, assustado, fechado à realidade e à mudança. Um país onde se trocaram ilusões de grandeza imperial por ilusões de riqueza imediata e sem esforço. Um país que (à imagem da época pós-Marquês de Pombal) trocou a falta de democracia pela falta de rigor. (Como é possível que apenas sob dois déspotas Portugal tenha crescido de forma sustentada?) As grandes diferenças entre 1973 e 2016 não se encontram pois na mentalidade. Encontram-se no número – hoje muito superior – dos que se alimentam do poder ainda e sempre sufocante do Estado (agradeçam-no aos fundos comunitários e à dívida) e na identidade dos respectivos parceiros ideológicos: antes, uma direita bafienta; hoje, uma esquerda que – apesar de todas as «causas fracturantes» – não o é menos.

Dir-me-ão que posso escrever textos como este. Sim, resta a liberdade. É a liberdade que eu agradeço ao 25 de Abril. Ciente de que muitos dos que o fizeram – ou dele se apropriaram – não a tinham como objectivo. Ciente de que, assentes no poder da captação e alocação dos recursos e das noções do politicamente correcto – como antes o Estado Novo se servia da Igreja, da noção de moral e do conceito de Pátria –, os seus descendentes agem para que seja cada vez mais difícil escrevê-los.


12 comentários

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De do norte e do país a 25.04.2016 às 18:55

A verdade nua e crua!

Mas ainda não é tarde para mudar mentalidades. Hoje em dia, coragem já não é sinónimo de ser da esquerda mais ou menos contestatária, porque estes estão em grupos e corporações bem defendidas e que apesar do discurso de contestação vivem do estado e do status quo que conseguiram e não largam. Ser reivindicativo hoje é contestar esses grupos. Ser conservador é ser dessa esquerda.
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De José António Abreu a 26.04.2016 às 08:05

Não estou tão optimista. Mas concordo que, entrincheirada nas corporações, nos grupos de «amigos» e numa comunicação social formatada para a espuma dos dias, a esquerda é hoje a força mais conservadora.
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De WW a 25.04.2016 às 22:38

O Estado cada vez mais tem MENOS poder.

O pretenso PODER do Estado está esfrangalhado entre quintas e quintinhas que usam o Estado como garante do seu enriquecimento e expansão sendo que o crescimento sustentado é e sempre será uma miragem como se comprova facilmente desde a adesão á CEE (fundos estruturais) e ao EURO (crédito fácil) que agora estamos a pagar desde 2008 e iremos CONTINUAR a pagar de várias formas, que ninguém pense o contrário.

Salazar foi um Nacionalista convicto e sobretudo ciente das dificuldades da NAÇÃO e dos Portugueses.

" É necessária a política no governo das nações mas fazer política não é governar. "
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De José António Abreu a 26.04.2016 às 08:10

Claro que continuaremos. Enquanto o Estado não souber fazer contas.

A evolução económica de Portugal durante o Salazarismo (ou durante o período do Marquês de Pombal) diz muito: o rendimento dos portugueses era 30% da média europeia quando ele chegou ao poder e, depois de anos para equilibrar as contas (numa época em que o Estado representava muito menos), começou a subir. No final da década de 60 ultrapassara 50% da média europeia. Na democracia, subiu depressa por causa dos fundos e do crédito - mas de forma insustentável. Não há paciência para esperar, para o fazer da forma correcta - sendo que tem vindo a ficar cada vez mais difícil.
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De José António Abreu a 26.04.2016 às 08:27

Mais uma nota: o crescimento durante o tempo do Estado Novo até podia ter sido superior - sem o custo de uma guerra em África (embora também viessem de lá alguns recursos) e de uma economia fechada, mantida na mão de meia dúzia de empresários amigos do governo (há coisas que nunca mudam).
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De lucklucky a 26.04.2016 às 18:06

"O Estado cada vez mais tem MENOS poder."

Por isso é que o estado consegue cobrar 40% de impostos contra 10% há 40 anos.

Por isso é que faz lista de devedores publicas quando há 40 anos seria considerado inconstitucional

Por isso é que várias entidades do estado foram elevadas á condição de "Autoridade" onde se é culpado até prova em contrário.


Sim tão pouco poder...
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De jo a 26.04.2016 às 00:35

Por vezes convém resistir à mudança. Se a mudança que nos dão é para pior.

Claro que há quem diga que o país só avança se os salários descerem 30%, e se um Estado Social muito caro for privatizado. Aí o país estará melhor, os portugueses não terão salários ou proteção social, mas as empresas trabalharão bem e darão lucros aos seus acionistas que, não sendo de cá, sempre poderão chamar a isto uma piolheira.

Sei que gosta da liberdade, mas parece-me que é da liberdade dos tempos em que o governo era livre de dar "uns quantos abanões" aos delinquentes (todos os opositores eram delinquentes).



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De José António Abreu a 26.04.2016 às 08:11

Os salários continuarão a cair em termos relativos. Precisamente por causa do peso do Estado, que exige cada vez mais recursos e asfixia as empresas.
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De Luís Lavoura a 26.04.2016 às 09:25

o Portugal de hoje permanece o Portugal de 1973: conservador, assustado, fechado à realidade e à mudança

É verdade. Continua a proibir a reprodução medicamente assistida, os bordeis, o suicídio assistido, o jogo a dinheiro, as drogas mais banais. É isso mesmo: conservador e fechado à mudança. Que diferença em relação a Espanha!
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De do norte e do país a 26.04.2016 às 21:10

continua a sugar o dinheiro de quem trabalha.
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De do norte e do país a 26.04.2016 às 21:17

resistente à mudança de depender em quase tudo do estado, continua à espera que o estado faça. O preço são 40% de impostos, dinheiro das reformas para pagar imobiliário, etc.
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De do norte e do país a 26.04.2016 às 21:18

resistente à mudança ao depender em quase tudo do estado, continua à espera que o estado faça. O preço são 40% de impostos, dinheiro das reformas para pagar imobiliário, etc. É preciso mudar essa mentalidade. Mas o estado não deixa, porque quer manter o poder sobre as pessoas.

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