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Ba e os outros

por jpt, em 25.03.19

Ba.jpg

Ao invés de muita gente cada vez mais gosto do Dr. Ba (líder da secção do BE chamada SOS Racismo). Digo-o sem ironia (ou sarcasmo): é um tipo atrevido, e isso é de louvar (ainda para mais no país do respeitinho). Imigrante, oriundo de África (não sei se já é português, mas isso para o caso é irrelevante) atreve-se a botar o que pensa, não se coíbe. Muito saúdo isso. Discordo do que o homem pensa? Pelo que vou lendo vou discordando, mas isso nem é importante. O que é relevante são dois corolários que retiro do que dele vou lendo:

1) O dr. Ba,  tornado "figura pública", deslumbrou-se, pois está há tempo demais perto do poder (trabalha na AR; é sufragado pelo poder mediático lisboeta - o eixo socratista, perene, exemplificado pelo bloco ex-blog Jugular/painel Eixo do Mal). Como qualquer indivíduo ("sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação"), ao deslumbrar-se borrega.

Este breve texto, algo alarmista mas talvez não totalmente infundado, é mais do que exemplo de despiste pessoal. Mas também do ambiente geral entre os "beaux esprits" lisboetas. Em Portugal já se é olhado com rancor ao dizer-se "preto" e mesmo "negro"; os mais patetas dos patetas já se ufanam ao escrever Car@s ou Prezad@s, e pessoas medianamente inteligentes até lhes respondem; termos como "mariquice" ou "prostituta" são vetados; é-se apupado se se trata uma conviva por "querida" (de facto quer dizer "quero-te", é um bocadinho exagerado assim dito em público, temos que convir ...); e agora importou-se o termo "mansplaining" para invectivar a simpática complacência com a parvoíce, quando esta emanada por uma mulher: ou seja, pode-se ser condescendente com um estúpido mas não com uma estúpida, o que não deixa de ser uma discriminação. E neste ambiente geral, cioso da correcção, o dr. Ba avança, atrevido como já disse, e chama-nos "tugas". Termo que, como sabe qualquer tipo que já tenha saído das ruas da Atalaia e da Rosa, anos 1980s, é amplamente pejorativo. Mas, como é o Ba, fica bem.

Mais notório ainda é a bojarda sobre os ucranianos. O dr. Ba celebrizou-se por defender imigrantes ou descendentes de imigrantes de origem africana. Meto as mãos no fogo que os adeptos da selecção ucraniana que foram ao jogo terão sido, na sua maioria, os imigrantes daquele país que ficaram em Portugal. Para o dr. Ba, paladino de determinadas "comunidades" imigradas, os imigrados com diferentes origens são generalizáveis, discriminalizáveis, invectiváveis (nazis, pronto). Este afrontar entre imigrantes de diferentes origens é típico, tradicional (olhem eu aqui na Bélgica a poder comprovar isso). Ou seja, Ba não só reproduz o eixo Bloco/PS Bairro Alto na sua recente invectiva aos imigrantes brasileiros, como reproduz a velha rivalidade sociológica entre os imigrantes de diferentes origens. Ba é um eco da história, e é um eco das suas limitações pessoais? Como todos nós o somos. Mas é também um eco da mediocridade hipócrita "lisboeta" - e isso já é uma opção pessoal. Será o tal deslumbramento, talvez. Mas é mais do que isso, é uma reaccionária mundividência, ignorante e ... atrevida.

2) O outro corolário é mais curto: tem alguma "piada" (de facto é tétrico) ver como um meio que vive do seu capital cultural, profissionais intelectuais com formação em ciências sociais (sociologia, antropologia, estudos culturais, coisas mais humanísticas), não só é permeável a este tipo de elaborações medíocres como as defende e ecoa. Refutar Ba e seus apoiantes e/ou paladinos convoca invectivas oriundas desse meio socioprofissional: somos logo ditos "lusotropicalistas" (entenda-se, salazaristas, fascistas) ou, num ou outro de intelecto mais refinado, "universalistas neo-liberais" (ou seja, o mesmo).

Há algum tempo li umas citações de textos de Ba: defende para os "nossos bairros" ("deles", presumo. Ou então "todos", se pensar como um "universalista neo-liberal") algo definível como "sovietes de bairro", policiamento comunitário, vistorias, etc. Aquilo que em Moçambique ficou conhecido por "grupos dinamizadores", sem tirar nem por. O que me é notório é ver como (principalmente) antropólogos - alguns dos quais minhas ligações-FB, ainda que o Algoritmo nos aparte - que viveram e/ou trabalharam em Moçambique muito são críticos da I República (onde aqueles vigoraram, no seu início). Muito mais críticos do que eu (que sou um dos tais torpes fascistas, neo-liberais, lusotropicalistas). Mas depois deliciam-se com esta conversa, ombreiam, defendem. Querem-no para o país. E até o escrevem. Isto seria risível. Se não fosse abjecto. "Mil vezes antes o dr. Ba do que estes doutores", afianço. A minha sorte é que não os encontro em Schaerbeek.

Adenda: O muito útil Polígrafo alerta para o facto do texto de Ba ter sido manipulado, tendo-lhe sido malevolamente amputada a referência a "skinheads" ("ucranianos e tugas"), potenciando o tom generalizador. Seja, lamentável que aconteça isto. Que efeitos sobre o postal? Nenhuns. O dr. Ba, a propósito de um jogo de futebol com uma equipa ucraniana convoca a ideia de "cabeças rapadas nazis" ucranianos e tugas. Fá-lo em todos os jogos de futebol? Não, apenas aqui diante da presença desse tipo de estrangeiros, promove uma generalização (abusiva, discriminatória) originada em campanhas russas anti-ucranianas (como Milhazes nos lembra) - mostrando que o vínculo moral dos simpatizantes do PCP com a autocracia russa actual também se alarga do BE. Quanto aos nacionais tudo na mesma, já éramos e continuamos "tugas".


16 comentários

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De jo a 25.03.2019 às 10:19

Uma caixa dentro de uma caixa. O "antirracista" que se considera pertencer a uma raça superior.

Já agora, dentro do mesmo assunto:
Nasci vivo e trabalho em Lisboa com muita honra, e medíocre e hipócrita é quem classifica os outros por grupos.
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De Luís Lavoura a 25.03.2019 às 10:24

jpt leu mal.

A expressão "nazis ucranianos" significa "pessoas nazis que são de nacionalidade ucraniana". É equivalente à expressão "ucranianos nazis", que significa "pessoas de nacionalidade ucraniana que são nazis".

Nenhuma dessas expressões significa "todos os ucranianos são nazis" nem "todos os nazis são ucranianos".
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De jpt a 25.03.2019 às 10:27

Camarada coordenador Pedro Correia, anda cá, sff
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De Pedro Correia a 25.03.2019 às 11:09

Ele habilita-se já com isto. Mas acredito que continuará a esforçar-se ao longo da semana.
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De Luís Lavoura a 25.03.2019 às 10:33

Se o jpt ler o livro "Treblinka", baseado em entrevistas com os sobreviventes desse campo de extermínio nazi, verá que os guardas desse campo são sempre designados por "ucranianos". Parece que os prisioneiros eram unânimes em que os guardas de Treblinka eram de nacionalidade ucraniana, em vez de serem polacos como seria normal (dado Treblinka situar-se no norte da Polónia, bem longe da Ucrânia).

Ou então era o autor do livro (Jean-François Steiner) que tinha nojo a ucranianos em geral.
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De Vorph Valknut a 25.03.2019 às 13:33

É relevante ,no contexto da ciência histórica, a referência à nacionalidade, mas num post escrito por um individuo que tem como última missão, último objectivo, que nos avaliemos,apenas, como individuos a referência à nacionalidade/etnia dos "nazis" é paradoxal . Bastava dizer que Lisboa estaria infestada de nazis.(imaginemos que num noticiário a noticia de um assalto referia-se ao criminoso como, o assaltante negro)

Quanto aos guardas ucranianos étnicos descritos no livro é interessante a sua referência, pois muitos deles foram aliados dos nazis na guerra contra os russos, por quem tinham uma inimizade figadal ( a rivalidade Kiev-Moscovo é milenar)

https://pt.m.wikipedia.org/wiki/14.ª_Divisão_de_Granadeiros_da_Waffen_SS_Galizien_(1.ª_Ucraniana)
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De Vorph Valknut a 25.03.2019 às 13:16

Aquilo que eu vejo como criticável no comentáro de ba é a referência da nacionalidade dos supostos nazis. Bastava referir que em virtude do jogo haveria em Lisboa grupos de "nazis" (?), racistas, não particularizando a sua nacionalidade/etnia. Tal como no noticiário não vejo relevância nenhuma sabermos que um individuo que assaltou um banco,matou a mulher,etc é desempregado, ou cigano,ou branco ou preto...foi um tipo que cometeu um crime, ponto.

E ba ao referir-se à nacionalidade dos supostos "nazis" encaixa um vinculo subliminar na mensagem, que pode conduzir a uma associação entre ser-se nazi e ucraniano, ou "tuga".... Já agora ser-se racista não é o mesmo que ser-se nazi....racista implica uma associação de determinadas caracteristicas , positivas, ou negativas, a uma" raça". NAZI é algo muito diferente. Ou seja todos os nazistas são racistas, mas nem todos os racistas são nazistas.....os pretos dançam melhor que os brancos...estarei aqui a ser racista? Haverá nesta constatação algo de criticável?
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De Antonio Maria Lamas a 25.03.2019 às 13:30

Que me deculpem os ilustres comentadores, mas isto não vai lá com falinhas mansas e análises mais ao menos filosóficas.
Para quem é, aqui vai: Mamadou, Ba à merda.
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De Descohecido Alfacinha a 25.03.2019 às 15:25

Ninguém em Portugal tem a menor noção do que actualmente é e do que foi Schaerbeek. Ou de problemas de imigração sérios.

Gostei muito dos anos em que vivi em Etterbeek.

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De Anónimo a 25.03.2019 às 16:33

Já valeu a pena passar por DO hoje.
Um consolo.

Fico à espera da próxima tese de doutoramento no âmbito dessas ciências ocultas: a da irrefutabilidade do carácter fascista de todo e qualquer ser humano que não ajoelhe perante a luz e a evidência da robustez física, intelectual e moral da moderna e atraente esquerda. Tese com base na qual, se há-de defender uma vacina universal e obrigatória contra e fealdade dos 'laivos de direita'.

Isabel
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De Anónimo a 25.03.2019 às 21:11

O Dr. Ba tem uma grande qualidade: ao contrário de muitas virgens ofendidas de todos os espectros da política (com maior incidência na direita), não é politicamente correcto. E isso sim é um português digno.
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De Anonimus a 25.03.2019 às 21:48

Pergunto-me como Bá terá acesso à informação de que nazis (que os há) ucranianos acompanhariam a sua selecção. Poderia dizer o mesmo viesse cá jogar Holanda, Inglaterra, Hungria, Áustria, Polónia ou Itália. Mas diria?
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De Anónimo a 25.03.2019 às 23:08

António Maria Lamas , o seu comentário é o único que está à altura da "redacçãozinha" do preto.
Os meus cumprimentos.


JSP
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De Anónimo a 25.03.2019 às 23:39

Só uma pergunta: O JSP escreveu "redacçãozinha" de preto ou de branco?

Pedro Vorph

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