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Aventuras de Uma Livreira Acidental

por Francisca Prieto, em 29.01.16

Há dias em que o coração de uma livreira acidental fica à beira de um enfarte de felicidade.

Hoje, a equipa da caixotaria começou a jornada num dos nossos pontos de entrega de livros, com a missão de se lançar ao desbaste. Isto quer dizer que nos atiramos aos sacos e caixotes que os doadores por lá vão deixando e vamos separando a mercadoria por temas, títulos para seguirem directamente para a livraria, outros para armazém, outros ainda para restauro ou para serem vendidos na internet. Uma trabalheira dos diabos, mas que alguém tem de fazer.

Para o final restavam três enormes caixotes em que ainda não tínhamos tido coragem de pegar, pelo tamanho e pelo peso.

Abrimos à cautela e fomos retirando o espólio. À primeira remessa, o meu coração começou a palpitar: saltaram-me logo para as mãos uns quantos José Régio antigos, aos quais se seguiram Stau Monteiros de que nunca tinha ouvido falar, mais umas quantas primeiras edições de poesia de primeira.

Ao segundo caixote estava perto da taquicardia quando começaram a aparecer Luiz Pachecos, um Ary dos Santos autografado, mais um Herberto Hélder muito antigo e mais uma data de volumes de Brecht iguais aos que existiam em casa dos meus pais.

O nível dos livros era de primeiríssima e, para além da alegria, a raiar a comoção, de os ter a passar pelas mãos, não nos foi alheio o sentimento de que serão certamente uma excelente fonte de angariação de fundos para a nossa causa.

Depois desta trabalheira, e com o coração em transe de gratidão por quem lá deixou os caixotes, venho para casa. Sabia que tinham passado por cá a deixar uns quantos livros provenientes do Porto.

É quando olho para o primeiro saco que o coração me cai aos pés. Não era nenhum Herberto Hélder, nem tão pouco um Luiz Pacheco. Era uma colectânea de peças de teatro infantil, compilada em 1948, onde constam duas peças escritas pelo meu pai, que foram levadas a cena vezes sem conta, mas de cujo livro original só temos um exemplar na família.

Não sei qual é o valor de mercado. Baixo, provavelmente. Mas no rating do meu coração, foi a melhor surpresa do dia. Foi a única que me levou às lágrimas.

 

livro pai.jpg

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8 comentários

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De Pedro Correia a 29.01.2016 às 21:14

Que bela história, Francisca. Com final feliz. Tu mereces.
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De Francisca Prieto a 30.01.2016 às 00:02

Obrigada, Pedro.
Mas sabes lá o que eu gosto de fazer isto. Dá-me cá um gozo quando apanho um dia como o de hoje.
Beijinhos
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De Anónimo a 30.01.2016 às 19:01

Que maravilhosa coincidência, Francisca, mesmo à Paul Auster.
Imagino a sua felicidade.
Sabe que de quando em vez - quando estou mais triste - leio 'aquele' poema do seu pai?
E ajuda mesmo.
:-) Antonieta
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De Francisca Prieto a 30.01.2016 às 19:39

Que giro, Antonieta.
Está a falar do poema que nos manda "varrer as lágrimas caídas"?
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De Anónimo a 30.01.2016 às 20:18

Esse mesmo!
Foi em Junho do ano passado. Disse-lhe num comentário que ia guardá-lo e assim fiz: está na minha agenda junto a outros poemas de que também gosto muito (do Pessoa, do Eugénio, da Sophia).
:-) Antonieta
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De Francisca Prieto a 02.02.2016 às 00:20

Agora até fiquei comovida. Vai daqui um grande beijinho.
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De Teresa Ribeiro a 02.02.2016 às 12:24

E vão duas. Transcrevi o poema do teu pai e tenho-o à mão, para qualquer eventualidade. Beijo
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De Francisca Prieto a 02.02.2016 às 18:46

Que giro, Teresa.
Tenho de ir à arqueologia dos armários de casa dos meus pais vasculhar mais um ou outro de que gosto muito mas não sei de cor.
Beijinhos e obrigada

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