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A política e a economia encontravam-se profundamente ligadas. A crise de confiança provocada pela revolta de Kronstadt contribuiu sem dúvida para a aceitação relativamente fácil pelo congresso de importantes cedências económicas. O cerne da mudança foi a abolição das requisições e a sua substituição por um imposto em géneros. Este imposto permaneceu em vigor até 1924, quando, em resultado da estabilização da moeda, foi substituído por um imposto em dinheiro. A medida parece bastante simples, mas as suas consequências foram importantes. Significava que os camponeses podiam vender os seus excedentes, e implicava a legalização do comércio e dos comerciantes, grupo social contra o qual os bolcheviques sentiam grande animosidade. Lenine, em particular, temia a influência corruptora do pequeno comerciante mais ainda do que a do capitalista. Não admira pois que os bolcheviques tivessem aprovado as reformas com grandes reservas e receios. No entanto, a crise era tão grave que não tinham outra alternativa.

A substituição da requisição por um imposto foi acompanhada de outras reformas que desmantelaram o sistema económico do comunismo de guerra e introduziram uma nova ordem. Em Maio de 1921, o governo revogou a lei que nacionalizara todos os ramos da indústria. O sistema económico que sucedeu ao comunismo de guerra pode ser descrito como uma economia mista. Os particulares tinham autorização para constituir pequenas empresas ou tomá-las de arrendamento ao Estado. O governo, porém, continuava a controlar o que se chamava na altura os «altos comandos», isto é, as altas empresas, a indústria mineira, a banca e o comércio externo.

Em última análise, a NEP tornou possível a reconstrução. Contudo, a maior liberalização não podia acabar imediatamente com a crise. Em 1920 e 1921 algumas das regiões mais férteis do país foram atingidas pela seca. O desastre natural e a desordem artificial conduziram à fome generalizada, sobretudo na região do Volga. Milhões de pessoas morreram de fome e outros milhões correram grandes riscos. Debilitadas pela fome, as pessoas sucumbiram às epidemias. Mais pessoas morreram nestes anos terríveis do que na Primeira Guerra Mundial, na revolução e na guerra civil. Sem a assistência em grande escala organizada pelos Americanos, muitos mais teriam morrido.

Os bolcheviques debateram-se com constantes faltas de alimentos e de combustíveis. O regresso a princípios de economia mais ou menos ortodoxos foi difícil, e a recuperação penosamente lenta. Para poupar dinheiro o governo foi obrigado a cancelar vários projectos que havia fomentado por razões ideológicas. Sob a economia de guerra, as fábricas tinham funcionado sem olhar a custos, mas agora as empresas do governo tinham de fazer lucro. Num esforço para estabilizar a moeda, foi introduzido o cálculo do custo de produção, o que entre outras coisas implicava despedir trabalhadores.

Peter Kenez, História da União Soviética. Edições 70 (2007), pp. 71 e 72. Tradução de Jaime Araújo.

 

Evidentemente, «austeridade» é exagero meu. Todos sabemos que tal coisa resulta sempre de (ilógica) opção ideológica, jamais de necessidade.


13 comentários

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De jo a 17.12.2015 às 16:22

Chama-se a isto o argumento "ad stalinium" quando se quer provar que a nossa política económica é a correta dizemos que Stalin só fez asneiras, logo, a nossa política é a correta.

É parente do argumento "ad hitelerum" em que se prova que uma determinada política não é contrária aos direitos humanos porque Hitler fez pior.
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De Depurativo ML a 17.12.2015 às 16:53

Estaline vela,mesmo por aqui.Ajuda aos crentes saudosos.
Beria.
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De Iletrado a 18.12.2015 às 01:10

Caro Jo
"Correta"? Isso rima com marreta, anacoreta e corneta? Porque razão "chama-se"? Não é penoso ter de escrever "ch"? Coitadas das crianças, terem de empinar tal uso! Seria mais natural escrever "xama-se". Pensando bem, porquê o -? Xama se é mais de acôrdo com a oralidade. Já para não referir o facto de escreveres bastos "o" em sons "u". "Xama ça istu u argumentu" é, sem dúvida, o mais cu réto nu ke tocà òrto grafia subordi nada à ora lidade. Mas, se queremos mesmo respeitar a ora lidade, temos de cortar os espaços. Acaso alguém diz "espaço" quando fala? Logo, a frase certa fica: "Xamaçaist'uargumentu". Vistemuitu+fácil
Boas pedaladas.
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De jo a 18.12.2015 às 11:21

Tu escreves "correcta", eu escrevo correta, vamos desistir da discussão.

Se eu fosse a si não escrevia neste blogue. O corretor ortográfico já é pós acordo ortográfico. Cruz! Credo!

Agora a sério! Sabe com certeza que pode escrever com a ortografia que quiser que não é crime. Esta é uma lei que não é crime desrespeitar.

Quando não concordamos com a lei podemos fazer várias coisas:
Podemos protestar barulhentamente. Essa parte já percebeu.
Podemos votar em quem se proponha mudar a lei. É pena que os políticos não tenham reservado uma parte dos programas eleitorais para este candente assunto.
Podemos fazer campanha pela mudança da lei.
Podemos invocar o direito de resistir, mesmo sob a força das armas, mas parece um pouco melodramático para proteger as consoantes oclusivas.

Há também várias coisas que não podemos fazer:
Não podemos agir como se a lei não existisse. É pena, dava muito jeito para as leis fiscais.
Não podemos querer substituirmo-nos ao legislador e usar só as leis de que gostamos.
Não podemos andar a chatear quem cumpre a lei. Tenha paciência, mas nem todos são zelotas dos cês mudos.

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De Costa a 18.12.2015 às 13:37

"Se eu fosse a si não escrevia neste blogue. O corretor ortográfico já é pós acordo ortográfico. Cruz! Credo!"

Felizmente não é obrigatório seguir aqui qualquer corrector ortográfico (coisa que você lamentará). E alguns por aqui ainda têm na cabecita e não renegaram os, certamente pérfidos, pois claro (mas burro velho não aprende, deve ser isso), ensinamentos do ensino fascizante. Aquele com exames e tudo.

Preservam esses ensinamentos, não encontram vantagem em modernizar só por modernizar (imbecis conservadores, está visto), respeitam e pretendem preservar valores culturais, históricos, etimológicos (pior que conservadores: reaccionários sem salvação), entendem que uma mudança deve também observar o rigor científico (bizantinismo inútil, decerto) e encontram no AO90 um gigantesco logro que não serve nenhum dos valores que afirma pretender consagrar - alguns insusceptíveis desse serviço, outros irrelevantes quando servidos, outros humilhantes se servidos -, acarretando sim custos materiais e não só repugnantes (coisas como o puro interesse de alguns intervenientes na indústria livreira e gráfica; mas suponho que esse deva ser um caso de feliz conjugação de interesses do capital e do povo).

Costa
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De jo a 18.12.2015 às 15:38

Não concordo com a suas ideias da ortografia, não daria a minha vida para defendê-las, mas escreva correcta, farmácia, pae e mãi à sua vontade.

Está a ficar um pouco paranóico. Não é por serem uns perigosos antifascistas e uns comunistas empedernidos que as pessoas escrevem sem cês. É porque isso é uma questão que não lhes interessa minimamente.

Salazar morreu em 1970, o seu regime caiu em 1974, e ainda há gente a rezar ao santinho.
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De Costa a 18.12.2015 às 17:20

Você quer mesmo ir por aí? 1883, 1924, 1953, 1994, 2005 - e ficarei por estes - são anos da morte de outros santinhos, com devoção mais que estabelecida e bem mais complexa, estruturada e dogmática liturgia. Dotada, aliás, onde impere, de bem mais poderosa, disciplinada e zelosa Santa Inquisição.

Quanto ao "paranóico" com que me presenteia, agradeço-lho. É, vindo de si, sinal de (minha) sanidade mental. Se a alguém não interessa como se escreve, tomando por certo tudo e o seu contrário, e mesmo o indefensável, eu perante essa gente quero ser mesmo (não um pouco) completamente paranóico.

É uma questão de higiene mental, bem vê (ênbora reconhessa que a lójika ivulussão dece pençamento deverah dar um geitão pás eshtatisticas do suceço escular).

Mas divagamos face ao exposto no "post". A cuja substância você não opõe, convém notar, qualquer objecção minimamente sólida...

Costa



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De jo a 18.12.2015 às 20:28

Mas o "post" tinha qualquer substância minimamente sólida?

Descrever a economia da URSS pós revolução de outubro (com letra pequena, o mês, não a revolução) e falar numa política económica da UE atual?

Porque não a crise do Mercantilismo do Séc. XVII?
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De Costa a 18.12.2015 às 23:09

Ah... Nada como desconsiderar taxativamente o opositor, reduzi-lo ao ridículo, à indigência intelectual. Descontextualizar descaradamente.

Aliás, do vosso lado, a prática de apagar gente nas fotografias - de apagar gente, opiniões, factos; apagar tudo em todo o lado -, sempre que isso facilite a vida, é grande. Digamos, numa analogia: os verdadeiros pioneiros do Photoshop.

Tenha uma boa noite,
Costa
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De José António Abreu a 19.12.2015 às 09:35

O post só mostra que:
1. Às vezes a austeridade é inevitável, não uma opção ideológica;
2. Liberalizar a economia dá muito jeito para a recuperar (depois de razoavelmente recuperada, podem aplicar-se princípios mais retóricos - durante uns tempos).
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De Iletrado a 19.12.2015 às 00:26

Caro Jo
Lamento que não tenhas percebido o remoque. Repara que começaste por fazer um comentário irónico e insidioso sobre o conteúdo deste artigo de José António Abreu. Tentaste, com isso, demonstrar que consegues pensar pela tua cabeça e és - ou tentas ser - independente no teu pensar. Mas, ao aderires à mychoordia horto graphica de 1990 só depois de o Pinto de Sousa o impôr ditatorialmente a estes restos de Nação, demonstras ser uma "maria-vai-com-as-outras", no sentido em que obedeces caninamente ao poder. E, respondendo-me da maneira como o fizeste, só demonstra que não tens pensar. O teu comentário final dos "cês mudos" denuncia precisamente o que enuncio: não leste o texto do AO90 nem leste a nota explicativa. Nisso dou razão ao babaca marteleiro: se as pessoas lessem a nota explicativa do AO90 deixariam de ter dúvidas... Se a tivesses lido, percebias que, com a história dos "cês mudos", o babaca apoda os portugueses de incultos. Resumindo: és um inculto e por isso é que aderiste ao AO90.
Boas pedaladas.

(Uma nota a todos os outros leitores deste espaço e também aos que nele escrevem: porque motivo têm medo de empregar palavras ou expressões portuguesas que traduzam as palavras inglesas? Acaso têm vergonha de ser portugueses? Acaso têm vergonha da Língua Portuguesa? No início da era informática, ninguém teve dúvidas em nomear o "mouse" por... rato. Seriam portugueses de outra cêpa? "Post" é aquilo que os cães utilizam para marcar o território. Artigo é aquilo que o escriba escreveu. Se não gostam de "artigo", então usem "verbete", termo do Bic Laranja. Ou proponham outro que realce aquilo que somos: portugueses.
Esta vergonhosa submissão canina ao que vem de fora é a principal causa da nossa ruína e servidão.)
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De Costa a 19.12.2015 às 12:01

Post é, desde logo, creio, no contexto em que estamos, a palavra inglesa em regra empregue para designar os textos apresentados nos blogues. Sem dúvida que "artigo" ou "verbete" poderão - diria o meu caro: deverão - perfeitamente ser aplicados.

Post ", todavia, parece ser de uso generalizado (de novo: neste contexto e atendendo ao carácter informal, suponho, com que aqui trocamos impressões) e, com o cuidado de aplicar o termo entre aspas, assinalando assim expressamente o uso de palavra estrangeira, e sem incorrer no disparate de inventar por exemplo verbos ou tempos verbais (eu, bem vê, não "posto" nem digo que fulano "postou"), não me parece despropositado o seu uso.

Sou leitor diário dos textos de Bic Laranja e admirador de muito do que escreve. Desde logo da exemplar - exemplarmente fundamentada - demonstração do absurdo do AO9O . Dele me afasto, um afastamento absolutamente pacífico, cordato, em outros assuntos. Não tomo, por exemplo, o que venha do estrangeiro como um necessário barbarismo, nem vejo como intocavelmente boa toda e qualquer prática, tradição ou norma portuguesa, apenas por sê-lo (e aqui tenho a presunção de ser acompanhado por B. L., será uma diferença de grau).

Submissão ao estrangeiro, concordará, existe (também existe) e de que maneira nos defensores do AO90. Não em quem, no humilde limite das suas faculdades e sem formação como filólogo, procura cultivar a sua língua-mãe sem, dentro do bom senso, fechar as portas ao mundo.

Quanto ao sr . Casteleiro, tudo o que dele se disser, perante a dimensão do desastre, será sempre pouco.

Costa

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