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Atracção pelo abismo [pub]

por Diogo Noivo, em 30.09.19

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"A tendência europeia tem sido de fragmentação eleitoral. Os partidos tradicionais perdem preponderância, surgem novas forças políticas e os eleitores dispersam-se pela oferta disponível. Espanha não é excepção: Podemos e Ciudadanos irromperam na arena política em 2015 e alteraram profundamente o panorama partidário.

Por isso, é curioso que estas duas forças políticas pareçam interessadas num regresso ao bipartidarismo dominado pelo Partido Popular (PP) e pelo Partido Socialista Obreiro Espanhol (PSOE), que governaram em alternância o país praticamente desde a transição para a democracia.

A aritmética saída das mais recentes eleições legislativas, realizadas a 28 de Abril deste ano, sugeria duas soluções de Governo possíveis. O PSOE de Pedro Sánchez, com mais votos e mandatos, podia aliar-se à esquerda, com o Podemos, ou ao centro-direita, com o Ciudadanos. Mas nestes cinco meses os novos partidos renunciaram, na prática, à hipótese de se tornarem decisivos na formação de um Executivo.

De um lado, sem perceber a correlação de forças, o líder do Podemos, Pablo Iglesias, exigiu do PSOE pastas e influência muito superiores ao seu peso eleitoral. Chegou até a reclamar a vice-presidência do Governo e cinco ministérios, isto após ter reivindicado o controlo dos serviços de informações no período que antecedeu as eleições de Abril. As sondagens mostravam um PSOE sólido e um Podemos em queda, o que levou Iglesias a suavizar as exigências, mas foi tarde. O líder do Podemos apercebeu-se do erro, o que se tornou evidente quando solicitou a intervenção do rei Filipe VI. Suprema ironia: o Iglesias republicano, que em 2015 considerava a monarquia tão ilegítima quanto anacrónica, acabou a requerer do monarca um exercício de funções que não está respaldado pela Constituição de 1978.

Do outro lado, o Ciudadanos foi vítima de si próprio. Radicalizou a campanha para as eleições de Abril pedindo aos eleitores um veto ao PSOE. Para Albert Rivera, presidente do Ciudadanos, a contemporização socialista com o separatismo catalão era imperdoável não só no plano político, mas também no plano ético. Mais do que um adversário, Sánchez era o anti-Cristo. Conhecidos os resultados, que possibilitavam uma maioria absoluta entre PSOE e Ciudadanos, Rivera ficou com pouca margem de recuo. Havia uma saída estreita, a de inverter o discurso argumentando ser menos mau um PSOE apoiado pelo Ciudadanos do que entregar os socialistas nos braços radicais do Podemos e de pequenos partidos nacionalistas catalães e bascos. Porém, Rivera manteve-se firme na intransigência. Quando tomou consciência da impopularidade da sua conduta, ensaiou uma solução de recurso, igualmente tardia.

Em consequência, as lideranças de Podemos e Ciudadanos estão cada vez mais isoladas. Perderam popularidade junto das bases e afastaram-se de muitas personalidades que contribuíram para a fundação de ambos partidos, dando-lhes consistência política e intelectual. Sem surpresa, as sondagens mostram que estão em queda, enquanto PSOE e PP recuperam parte do espaço perdido nos últimos anos. Em suma, os partidos que nasceram para mudar o cenário político acabaram por revelar alguns dos vícios e das insuficiências que se propuseram combater.”

 

Excerto de artigo de opinião publicado na passada sexta-feira no Jornal Económico (texto completo apenas para assinantes).


4 comentários

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De Luís Lavoura a 30.09.2019 às 10:53

os partidos que nasceram para mudar o cenário político acabaram por revelar alguns dos vícios e das insuficiências que se propuseram combater

Eu diria que acabaram por revelar a tendência espanhola para o radicalismo e a dificuldade espanhola com o compromisso e a negociação.

O povo português é muito mais pragmático do que o espanhol, que tem uma tendência lamentável para o fanatismo.
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De Vorph Valknut a 30.09.2019 às 12:08

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De PNFerreira a 30.09.2019 às 16:51

Texto muito interessante.
A tendência para a fragmentação eleitoral que se verifica na Europa é um fenómeno que merece reflexão. Há um evidente ressurgimento de radicalismos de direita que dão voz a um conjunto de problemas e receios dos cidadãos mais pobres e que se percepcionam como mais desprotegidos (muitas vezes com razão, embora nem sempre assim seja), o que sobra do velho proletariado abandonado pela esquerda perdida no labirinto do politicamente correcto e das micro-minorias. Além disso, em alguns países, fenómenos sessecionistas parecem renascer ou, onde já existiam, reforçar-se. E depois há partidos de causa única que, pela diferença relativamente aos partidos tradicionais e pelas certeza absolutas de discursos lineares e fundamentalistas, alcançam sectores da população habitualmente arredados da política (veja-se entre nós o PAN).
Para além disto, não considero despiciendo o número de eleitores que, cansados e descrentes dos partidos habituais, optam por novas alternativas em protesto. Foi o que aconteceu em Espanha, sobretudo à direita onde o discurso do Ciudadanos se diferencia do PP sobretudo no combate à corrupção, mas também à esquerda.
Entre nós, veja-se como as sondagens, para além do eventual crescimento do PAN, alvitram a eleição de deputados para o Livre, Aliança, IL, ou Basta. Não quer dizer que aconteça, aliás, as subidas do PSD que vêm sendo sucessivamente indicadas poderão prejudicar os pequenos partidos de direita. Mas é sem dúvida uma tendência que parece querer afirmar-se também entre nós.
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De Luís Lavoura a 30.09.2019 às 17:49

a eleição de deputados para o Livre, Aliança, IL, ou Basta

Seria muito interessante, mas não acredito que vá ocorrer. O povo português já por várias vezes mostrou ser muito conservador nas suas opções de voto. Já houve montes de novos partidos em Portugal, mas só dois (o antigo PRD e o PAN) vingaram (o BE não foi um novo partido, foi a junção de dois partidos já antigos e bem estabelecidos).

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