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Até o Deutsche Bank já vê os riscos da política do BCE

por José António Abreu, em 13.06.16

Mas a resposta do BCE é extremar ainda mais esta política. Isto causa alocações de recursos erradas na economia real que ficam cada mais difíceis de reverter sem dores ainda maiores. Quem tem poupanças perde enquanto proprietários de acções e apartamentos rejubilam.

Pior, ao auto-nomear-se o salvador de último recurso da Eurozona («tudo o que seja necessário fazer»), o BCE permitiu aos políticos sentarem-se sobre as mãos no que respeita a reformas incentivadoras do crescimento e à necessária consolidação fiscal.

Por isto, a política do BCE ameaça o projecto europeu como um todo em nome da estabilidade financeira de curto-prazo. Quanto mais tempo esta política impedir a catarse necessária, mais contribuirá para o crescimento dos populismos e das forças extremistas.

(...)

Quando a redução das taxas de juro para níveis nunca vistos em vinte gerações falhou no estímulo à inflação e ao crescimento, o BCE embarcou num programa massivo de compra de dívida dos membros da Eurozona - o quantitative easing. Mas quem vendeu dívida soberana ao BCE não gastou nem investiu os lucros e o dinheiro acabou apenas de volta ao Banco Central.

Por isso o BCE seguiu até ao extremo lógico: impôs taxas negativas aos depósitos. Actualmente quase metade da dívida pública da Eurozona negoceia com rendimentos negativos. Ao mesmo tempo, o BCE assegura a solvência dos seus membros como comprador de último recurso - o chamado programa OMT.

(...)

Para além disso, os governos já não receiam que o falhanço na reforma das suas economias ou na redução da dívida faça subir o custo de pedir dinheiro emprestado. Na realidade, o nível total de endividamento na Eurozona tem crescido, com o reformado e reinterpretado Pacto de Estabilidade e Crescimento 3 tão desdentado como sempre. Diferenciais de risco praticamente desapareceram dos mercados de títulos do tesouro. Urgentes reformas nos campos do trabalho, da banca, da política, da educação e da governação foram adiadas ou deixadas cair. E as mãos-largas e o risco moral são jogos difíceis de abandonar. 

(...)

Enquanto é difícil provar que os aspectos positivos não são assim tão positivos (embora pareçam não ser), os efeitos negativos das políticas do BCE são mais visíveis. Por exemplo, empréstimos ultra-baratos providenciam suporte de vida para empresas que não seriam viáveis em condições mais normais. Isto levou a sobrecapacidade - para não mencionar deflação - em muitas indústrias europeias, com as receitas caindo em relação aos activos. No ano passado, 40% das empresas não tiveram aumentos de receitas. É irónico que muitos pensem que aumentos de produtividade podem ser despoletados através de taxas ainda mais baixas.

(...)

A mais longo prazo, as consequências negativas de taxas ultra-baixas e compra de títulos públicos surgem de uma falta de reformas económicas. Não era suposto ser desta maneira. Imediatamente após a crise, o contrato implícito era que os políticos reduziriam os níveis de dívida pública e implementariam as reformas estruturais necessárias enquanto o BCE lhes providenciaria tempo e dinheiro. 

(...)

Provavelmente com boas intenções, o BCE colocou-se numa posição em que as suas decisões são cada vez mais influenciadas pelos mercados.

(...)

Mario Draghi, o presidente do BCE, tem dito repetidamente que não pode tornar o cumprimento da sua missão dependente do facto de outros agentes (ou seja, os políticos) cumprirem a deles. Mas o mundo é o que é - ignorar as consequências mais vastas da política monetária conduziu à última crise.

 

Excertos de uma análise do Deutsche Bank (tradução minha, um pouco apressada mas espero que sem erros significativos). Três notas:

1. Há anos que Mario Draghi apela a reformas estruturais. Não apenas os políticos o ignoram como aproveitam a acção do BCE para as adiar. Entretanto, não obstante as taxas de juros reduzidas, o castelo de cartas da dívida pública vai aumentando de tamanho  (ver gráfico na página 7 do relatório) e a economia definha. Mergulhados numa convalescença eterna, os cidadãos viram-se para os populismos. Não creio que o plano fosse este.

2. Apesar de ter vindo a reduzir a exposição, o Deutsche Bank está «pendurado» numa montanha de produtos derivados. As medidas do BCE deveriam pois ser-lhe benéficas (e têm sido). Ainda assim, lança o alerta.

(Reconheça-se: há quem diga que terá problemas graves em qualquer dos cenários.)

3. Enquanto o Deutsche Bank se mostra preocupado, o Commerzbank pondera fazer bypass ao BCE.


5 comentários

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De ariam a 13.06.2016 às 20:38

Já viu como assuntos importantes não interessam a ninguém? Ouve alguma coisa, deste tipo, nos noticiários? Pensa que é por acaso?

No poste do Luís Naves de 10/06- "Andamos muito distraídos" deixei um comentário sobre o BCE e o Deutsch Bank, precisamente, assuntos a que ninguém dá importância mas que são de extrema gravidade, no entanto, parecem zombies que só pensam em futebol.
Mario Draghi quer lá saber dos Bancos, nem sequer do Deutsch Bank, o caminho é um Governo Global, com um só Banco e o World Bank com aquela de querer ID com foto de toda a população mundial, como outras coisas igualmente perigosas como a privatização da água... pense na finalidade do Global e vai entendendo tudo, até o que vai sendo aprovado. O pior... a maioria de Tratados assinados, nem passam pelo nosso Parlamento, nem dos países que fazem parte da UE, eles estão a decidir o Futuro por nós todos. Alguns desses Tratados, se fossem assim tão bons, porque só entram em funcionamento daqui a 3 ou 5 anos e estão rodeados de secretismo que nem quem os assina pode tirar cópias.
Ninguém ligou à entrada da moeda chinesa "no saco de moedas" do FMI que se vai efetivar a 1 de Outubro deste ano ("The Chinese currency renminbi (RMB) is to be included in the basket of currencies which make up the IMF’s Special Drawing Right, or SDR.). Ninguém fala de quererem unir Canadá, EUA e México, concentrar o poder como na Europa e com outra moeda única. De degrau em degrau vão conseguir esse governo totalitário global e nem falo da tecnologia que já andam a testar, fica difícil, tentar digerir Tanta informação, ficar calmo e não nos dar um nó no cérebro.
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De Luís Lavoura a 14.06.2016 às 10:35

É normalíssimo que o Deutsche Bank (ou qualquer outro banco) critique a política do BCE, na medida em que essa política prejudica o Deutsche Bank (e todos os outros bancos da Zona Euro). Portanto, nada há neste post que seja fora do normal e do expetável. Trata-se apenas de uma instituição a criticar uma política que a prejudica.
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De Luís Lavoura a 14.06.2016 às 10:39

o Deutsche Bank está «pendurado» numa montanha de produtos derivados. As medidas do BCE deveriam pois ser-lhe benéficas (e têm sido)

Como sabe o José António que as medidas do BCE têm sido benéficas ao Deutsche Bank? Que provas tem desse facto?

Os producos derivados, como o José António deve saber, "derivam" em geral para muitos lados diversos. Uns especulam com a subida do dólar e outros com a sua descida, uns especulam com ações e outro com obrigações, uns especulam com as ações de umas empresas e outros com as ações de outras... Em geral, é difícil dizer que os produtos derivados em geral irão ser beneficiados por uma qualquer política.
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De José António Abreu a 14.06.2016 às 12:52

O Deutsche Bank perde com as taxas de juro negativas impostas pelo BCE. O Deutsche Bank ganha com a manutenção do castelo de cartas por parte do BCE, que vai disfarçando as imparidades (como o próprio DB refere, há muitas empresas - e projectos de investimento e projectos governativos - que só vão tendo viabilidade por causa das políticas do BCE) e mantendo artificialmente as cotações (incluindo a do DB).

O Zero Hedge será frequentemente excessivo mas os números relacionados com a exposição ao risco do DB são preocupantes (siga os links para os artigos dos anos anteriores):
http://www.zerohedge.com/news/2016-02-03/it-time-panic-about-deutsche-bank
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De Manuel a 14.06.2016 às 15:48

O Deutsche bank tem um portfolio acima de 600% do PIB da zona euro. Boa parte dele sustentada em operações que vão ligando a derivados.
Tem razão quando diz que estas operações são de variadas naturezas, só que as taxas que são usadas, costumam estar ligadas às interbancárias (que o DB também manipulou entre 2006 e 2011 para seu proveito) através de mecanismos externos.
Ao terem as taxas negativas, a maioria dos rácios sofrem danos, pois o lucro dessas operações não são baseados em spreads, como acontece no crédito ao consumo ou habitação.
É aqui que o banco alemão está desesperado, pois as carteiras de títulos próprios, estão a dar prejuízos, graças ás taxas estarem negativas.
O que o relatório quer dizer é que o BCE devia optar por colocar a barreira nas taxas a 0% e usar o quantitative easing para ajudar as empresas que tenham dificuldades financeiras. Assim, os bancos eram ajudados, indirectamente.

Por outro lado, o parlamento europeu tem criado obrigações legais que vão entrando pelos subterrâneos das milhentas operações financeiras... que é algo que a grande finança não quer que aconteça. Actualmente, a banca consegue criar dinheiro na casa dos quadriliões de euros por cada operação de depósito bancário. Uma das maneiras é usar as operações com sucursais, que lhes permite optimizar os resultados, sem que exista verificação se aquilo é mesmo uma operação ou não passa de uma manobra para valorizar algo.
O BCE tem andado atrás dessas coisas, daí ser o alvo dos bancos alemães e ingleses, porque são dos mais usam essas operações para se valorizar e obterem dinheiro para as operações que realizam.

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