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Até já

por Sérgio de Almeida Correia, em 01.12.17

614882.JPG

 (créditos: Raquel Wise)

 

Um após outro. Este ano tem sido assim. Vendo-os partir.

Foi assim com o Rui, com o Luís, com o Pedro, agora com o Zé Pedro, que não sendo meu amigo era amigo do Paulo e por isso também meu amigo.

Nós sabemos que ela anda por aí, que está sempre presente, mesmo nas manhãs mais cristalinas quando os primeiros raios cortam o azul penetrante do céu. Rondando como uma repugnante e irritante varejeira que, por vezes, atordoada pelo jornal se esconde para logo de seguida reaparecer e nos irritar. Ou entrando pé ante pé, como se fosse uma fada, sem que nada nem ninguém se aperceba da sua presença, impondo-se de repente, sem aviso prévio, destroçando sonhos, corações, vidas. Muitas.

Ultimamente tem-se feito sentir com mais intensidade e cada vez mais perto de mim. Todas as esperanças depositadas num brinde de ano novo vão-se esvaindo com o correr dos meses, à medida que o ciclo se fecha e, impotente, vejo este carrossel que sem parar, em cada volta que dá, vai ficando mais vazio, até ficar quase sem ninguém, mas continuando a rodar, rodando, embalado por aquela música monótona e repetitiva que não pára e pelas luzes que não se apagam depois de todos partirem.

O mais estranho de tudo isto é que tudo se passa cada vez mais perto de mim. Com quem de um modo ou de outro me acompanhou ao longo de décadas, e que ao seu jeito ajudou a moldar a minha forma de ver o mundo. Mas também com quem fazendo parte de nós à distância foi comigo comunicando até ao fim, deixando aquele rastilho que me acaricia todas as manhãs e me faz sentir que vale a pena, que vale sempre a pena ser um homem livre. 

Uma palavra, um gesto, um sorriso, sempre um estímulo e uma dignidade imensa na forma como iam acomodando os dias à sua dor, no seu combate, na sua liberdade, sem esmorecer, sublinhando aquilo que de mais belo existe na simplicidade de um olhar, na cumplicidade de um cumprimento, na ternura de um aceno.

E, é claro, com aquele "pouco de fé" que nunca fez mal a ninguém e se torna imenso quando o dia chega ao fim e se sabe que há mais uma noite esquinada para dobrar. Ainda que não raro saibamos que não somos únicos porque somos todos feitos da mesma massa e da mesma matéria, e que de cada vez que olhamos o céu e vemos os sonhos partirem irremediáveis a nossa raiva é igual, e se despeja sabendo que o sol voltará a brilhar.

Quem faz a estrada acaba sempre por conhecer o caminho. E sabe que é por ali que se deve seguir, com energia, com convicção, com carácter, sem olhar para trás, mantendo a constância e o ritmo. Com ternura, sem pieguices. Porque tudo valeu a pena. E nunca foi de mais.


4 comentários

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De Beatriz Santos a 01.12.2017 às 07:59

Parabéns por, como diz, expressar aquilo que todos sentimos. Creio ser esta uma nobreza da escrita: unir os homens na comunhão de ideias e sentimentos. Talvez as nossas pessoas não sejam as mesmas, mas é igual o rasto que deixam. Um natural despovoamento de mundo a que não nos habituamos.
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De Maria Dulce Fernandes a 01.12.2017 às 12:18

Eu digo sempre que chorar faz bem. Homens e mulheres com sentimentos deviam chorá-los sem vergonha. Chorar é catártico.
Chorei a ler. Muito bom.

E eis que chega
O amanhã
É levantar
Seguir viagem
Adeus adeus
Toma coragem
P'ro teu destino
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De Pedro Correia a 01.12.2017 às 12:18

Excelente texto, Sérgio. Palavras certeiras do princípio ao fim.
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De Vento a 01.12.2017 às 12:37

Compreendo seus sentimentos na forma como se expressa. Sabe, Sérgio, o verdadeiro atributo democrático, que nos é oferecido de forma natural e nos faz sentir que somos mesmo iguais, é a morte.
Ninguém pode acrescentar um só côvado à sua estatura e, em outras traduções, ninguém pode acrescentar um só côvado a sua vida. A primeira aponta para que seja a mais acertada. Ainda que ambas expressem verdades inegáveis, a não compreensão da primeira tem oferecido permanentes tribulações na vida de todos nós comuns mortais.

A filosofia não explica - já lá vou acima comentar as citações de Patten - que nós não Somos uma condição, Estamos numa condição. E estou em crer que é esta a descoberta a fazer.

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