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assim vale a pena ser deputado

por Patrícia Reis, em 08.06.18

No início de maio, a RTP, numa reportagem exclusiva, confrontou alguns deputados (de partidos à esquerda e à direita) sobre o facto de terem residência em Lisboa, viverem na capital, mas terem como morada oficial uma outra, longe bem longe de Lisboa, possibilitando incorporar no seu rendimento um subsídio de deslocação. Pese o escândalo da situação e da pouca ética demonstrada, a verdade é que não se ouviu dizer mais nada sobre o assunto. Esta questão dos deputados e das respectivas deslocações já tinha estado em debate por causa de viagens de avião.

O que a reportagem da RTP provou é que existem 159 deputados com subsídios de deslocação e, muitos deles, moram em Lisboa. Há mesmo quem more a 500 metros da Assembleia da República. Os subsídios dão, nos casos abordados pela reportagem, uns confortáveis, decerto bem vindos, dois mil e tal euros de acréscimo ao salário. Portanto, os deputados, com esta manobra, ganham mais, muito mais, do que seria de esperar e, pior ainda, os ditos subsídios não estão sujeitos a tributação.

Sempre defendi que os deputados, como representantes eleitos, deveriam ganhar o melhor possível. Uma das razões que leva a que algumas pessoas se afastem da política é precisamente a questão financeira. Mudei de ideias. Porque uma coisa são os salários e outra, completamente diferente, é a realidade que se reflecte em cada recibo de vencimento do deputado ou deputada que considera que ainda vive no norte do país, porque tem aí uma mãe com 95 anos e é aí que se desloca quando a agenda permite.

Qual é ordenado de um deputado? Tomem nota: 3.624, 42 euros. A este valor acresce uma maquia se não trabalharem em mais lado algum, outra por serem deputados, só porque sim, e ainda o tal subsídio de deslocação se, claro, tiverem mandado dizer que moram em Viseu, em Braga, em Faro e outro abono ainda por estarem eventualmente longe de casa, da família.

 

 

O subsídio de deslocação não é igual, calcula-se ao quilómetro. São 69,19 euros por dia para quem more fora de Lisboa; 23,05 euros para quem more na capital. A mim não me pagam para ir da minha residência para o meu emprego, mas claro que eu não fui eleita e tal e não conto para este campeonato.

Além da remuneração principal que recebem por serem eleitos, os deputados recebem também uma quantia para exercerem essa função na Assembleia da República, em Lisboa (a ver se não desmoralizam, coitados, um incentivo para um entusiasmo extra, será?); recebem outra parcela caso não trabalhem em mais nenhum sítio (o regime de exclusividade vale um abono fixo de 370,32 euros mensais) e ainda recebem outra parcela fixa simplesmente por serem deputados da Nação e “representarem todo o país”. A tudo isto acrescem subsídios com deslocações que variam consoante o local de residência e a sua distância até ao Parlamento e por se deslocarem ao respectivo círculo eleitoral. Estes valores somados estão isentos de impostos. Um deputado ou deputada, assim, pode ter um salário e cinco abonos? Pois pode.

Querem-me explicar como se fosse mesmo muito burra ou temos aqui um problema? Talvez seja de pedir ao Presidente da Assembleia da República que tome os deputados como alunos na escola e faça o favor de fiscalizar quem é que tem mais dinheiro por mês por morar ficcionalmente numa outra ponta do país, embora mantenha residência em Lisboa, faça aqui a sua vida, tenha família com vínculos vários a empresas, a escolas, a instituições. De resto, lamento, um esquema é um esquema, a falta de ética comportamental não atinge apenas o comum dos mortais, é praticada pelos grandes da nação.


11 comentários

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De Vítor Augusto a 08.06.2018 às 10:06

Minha cara, pedir ao presidente da assembleia da república para fiscalizar a ética? Olhe, já agora peça-lhe também para ser assessorado pelo sr. César, que no que toca a questões éticas ele é o especialista (a César o que é de César!)
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De Anónimo a 08.06.2018 às 10:25

" De resto, lamento, um esquema é um esquema, a falta de ética comportamental não atinge apenas o comum dos mortais, é praticada pelos grandes da nação."

Por que continuamos a ser ingénuos?!
Se todos os dias, desde há muito, diria até desde sempre, temos provas de que os "grandes da nação" são, de facto, dos mais pequeninos...
Vamos lá chamar os bois pelos nomes.
João de Brito
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De Anónimo a 08.06.2018 às 11:40

Bom dia minha Senhora.
O seu post tem toda a razão de ser, do meu ponto de vista, naturalmente. Mas, respeitosamente, perguntar ao presidente da AR?
Pensa que é avisado? Ou está convencida que ele, como todos os interessados, como todos os titulares de todos os orgãos de soberania, não sabem perfeitamente disto e de muito mais da mesma natureza? Repare que digo - todos os orgãos de soberania, TODOS.
António Cabral
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De Luís Lavoura a 08.06.2018 às 11:53

Além de tudo o mais isto constitui uma forma encapotada de os partidos pagarem alguns dos seus dirigentes: colocam-nos como candidatos a deputados pelos círculos eleitorais onde eles têm as suas casas de férias ou residências secundárias. Se, por exemplo, houver um político que more em Lisboa mas tenha casa de férias em Aveiro, então ele será colocado como candidato a deputado por Aveiro e terá como deputado por esse distrito direito a um bónus adicional no seu salário. É uma forma catita de os partidos beneficiarem alguns dos seus dirigentes a expensas do erário público.
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De Sarin a 08.06.2018 às 13:22

Subscrevo na íntegra.

Mas sabe o que me aflige verdadeiramente? É que estes cúmulos já existem desde os anos 90, ou seja, mais de metade da nossa Democracia!
De tempos a tempos ouve-se alguém falar no assunto, mas a coisa segue... até entre beijinhos e abraços, que as filiações podem ser diferentes mas a famiglia é a mesma.

Ou, como cantava Chico Buarque na Canção do Malandro em tempos de ditadura:
"O usineiro, nessa luta,
grita 'ponte' que o 'partiu'"

Temos é que partir e reconstruir o sistema eleitoral e os regulamentos que gerem os eleitos - por nós.
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De Psicogata a 08.06.2018 às 15:06

A falta de ética é clara, mas o mais desconcertante é que não há nenhum partido, nenhum deputado que se revolte com esta forma descarada de retirar dinheiro ao Estado.
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De Meister Von Kälhau a 08.06.2018 às 19:16

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De Maria Dulce Fernandes a 08.06.2018 às 21:28

Subscrevo na totalidade.
Acrescento ainda, que segundo consta, os serviços de Bar/Restaurante da Assembleia da República podendo ser equiparados à oferta de uma unidade hoteleira de luxo, custam a módica quantia de 5,80€ por refeição, quando o valor de uma refeição escolar se mantém inalterado nos 1,46€ e do menu não consta perdiz, porco preto alimentado a bolota e lebre ...
Tudo isto é moralmente ofensivo e nós, que pactuamos com a situação placidamente há mais de 20 anos, independentemente de quem esteja ao leme do barco Luso, tão fustigado por tanta tormenta, deveríamos bater três vezes no peito ou então tentar mudar as coisas... que lírica, Maria Dulce...

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De Cristina M. a 08.06.2018 às 21:35

a desfaçatez... a soberba com que se sentem ofendidos quando confrontados com isto... é chocante, desgosta...
penso que estamos a viver um final. achamos que não porque isso é próprio de quem se encontra no centro do furacão.
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De Bea a 08.06.2018 às 23:06

Absolutamente de acordo. Um esquema é um esquema. Para qualquer pessoa.

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