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Assentar praça em general

por Pedro Correia, em 07.05.15

SAMPAIO[1].jpg

 

A entrevista de António Sampaio da Nóvoa à RTP Informação - muito bem conduzida por Vítor Gonçalves, um dos melhores entrevistadores actuais da televisão portuguesa - permitiu mostrar enfim ao País o candidato presidencial apoiado por uma parte do PS.

Confirma-se: é uma solene vacuidade.

Sampaio da Nóvoa surge como emanação directa do brilhante "laboratório de ideias" pessoais de Mário Soares, de onde na última década já haviam saído o próprio Soares, em marcação cerrada a Manuel Alegre (o que entregou a Presidência de bandeja a Cavaco Silva em 2006), e Fernando Nobre (novamente para travar o passo a Alegre). Mas Alegre e Nobre - como Almeida Santos, que Soares em vão planeou lançar, como sucessor de si próprio, nas presidenciais de 1996 - tinham percurso e biografia. Nóvoa, pelo contrário, nada tem para exibir além das suas respeitáveis credenciais académicas e de umas quantas frases grandiloquentes mas vazias de conteúdo político, como a que rematou a entrevista de ontem: «Os livros são a vida, está lá tudo.»

 

A frase, de algum modo, revela o candidato. Até ao momento em que decidiu apresentar-se na corrida a Belém, após conversar com «milhares de pessoas» (das quais apenas menciona Soares), Nóvoa notabilizou-se na vida pública por dois discursos: um pronunciado no 10 de Junho de 2012, a convite de Cavaco, e outro em Novembro de 2014, no congresso do PS, a convite de António Costa.

Tinha 19 anos quando aconteceu o 25 de Abril: o que fez na altura? O mesmo que já fazia na véspera da revolução: estudava e jogava futebol em Coimbra. E durante o febril processo revolucionário? E na ressaca do PREC? E militou antes, de algum modo, contra a ditadura?

Tudo na mesma linha, tão vaga como nevoeiro.

 

Durante décadas, nada dele transpareceu fora das opacas paredes da Academia. É especialista em História (como Pinheiro Chagas, vergastado por Eça numa das mais célebres polémicas de que há memória cá na terra) e sempre foi «de esquerda». Sem no entanto revelar aos compatriotas que ignoram tudo sobre ele quais foram as suas opções de voto nestas quatro décadas.

Entende que «há uma democracia que vai para além dos partidos», frase que já Otelo proclamava em 1975 e pouco grata vinda de um candidato que se prepara para ter um aparelho partidário a fazer-lhe a campanha.

Só por insistência do entrevistador, já no final, introduziu na sua prédica a necessidade de combater a corrupção - matéria essencial na política portuguesa. E jura que, se fosse Presidente da República, teria dissolvido a Assembleia da República em Julho de 2013, a pretexto da saída de Vítor Gaspar e do momentâneo arrufo de Paulo Portas - apesar de haver uma sólida maioria parlamentar e o País, sem acesso aos mercados financeiros, se encontrar então sob assistência externa de emergência. Transformando assim, por contraste e certamente sem intenção, Cavaco Silva num estadista.

 

Ao escutar Sampaio da Nóvoa, dei por mim a lembrar uma expressão que ouvia muito quando era miúdo: «Este quer assentar praça em general.»

Envolto em névoa, é mesmo isso que pretende Nóvoa: assentar praça em general. Sem tirocínio político, sem percurso cívico conhecido dos eleitores que serão convocados às urnas em Janeiro, chega aos 60 anos confessando que tremeria perante a primeira crise séria se estivesse em Belém, lançando o País numa aventura irresponsável.

É pouco como cartão de visita. E, francamente, não se recomenda.

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51 comentários

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De José Gonçalves a 07.05.2015 às 09:51

Intriga-me a razão por que o Sampaio da Nóvoa é o candidato do PS. A sério que não percebo esta estratégia. As perguntas são inevitáveis: será que, no Largo do Rato, alguém acredita que o homem é mesmo o melhor para o lugar, ou sequer que tem hipóteses? Existem sondagens ou estudos de opinião a fundamentar esta opção? Perguntaram a alguém de fora do aparelho: "Olha lá, sabes quem é este senhor, tu ou alguém das tuas relações?" Ninguém por aqueles lados tem consciência de que poderão estar a dar de bandeja a presidência à direita? Depois de um presidente como Cavaco Silva, o PS parece estar deliberadamente a prescindir de um golo de baliza aberta...
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De Pedro Correia a 07.05.2015 às 22:56

Do "laboratório de ideias" do PS (vulgo, Mário Soares) a direita só pode esperar o melhor. Daí as vitórias oferecidas de bandeja a Cavaco Silva em 2006 e 2011.
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De da Maia a 07.05.2015 às 10:51

E planeia a RTP Informação fazer entrevistas aos outros que já formalizaram também a sua candidatura, alguns dos quais como maior intervenção pública e política nos últimos anos, como Paulo Morais ou Henrique Neto?

Caso contrário, irá a CNE impor à RTP que o faça, conforme é sua obrigação legal, ou vamos apenas considerar que a RTP decidiu fazer uma entrevista a um antigo reitor, e que só acidentalmente a entrevista estava relacionada com as futuras eleições.

Jogar com as regras do Casino, favorece sempre o Casino, mas ainda assim nenhum Casino se atreve a deturpar tão estrondosamente as desvantagens dos participantes.
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De Helena Sacadura Cabral a 07.05.2015 às 12:56

Eu faria exactamente as mesmas perguntas do comentador De da Maia. Veremos as respostas...
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De Marquês Barão a 07.05.2015 às 13:51

Ainda nada foi comunicado nem á CNE nem ao Magno regulador.
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De Pedro Correia a 07.05.2015 às 23:00

Ao Corpo Nacional de Escutas?
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De Pedro Correia a 07.05.2015 às 22:57

Obrigação de serviço público não permite outro cenário, Helena. Por mim, estarei atento.
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De Helena Sacadura Cabral a 17.08.2015 às 22:33

E eu também, já que estou muito interessada em saber como se comporta a novel estação pública!
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De Pedro Correia a 07.05.2015 às 22:59

Esta entrevista ao candidato Pinheiro Chagas surgiu por lapso na RTPi. Devia ter sido exibida no Canal História.
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De Marquês Barão a 07.05.2015 às 10:55

Para quem não viu a entrevista ficou aqui clara a revelação do escuro negativo de laboratório.
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De Pedro Correia a 07.05.2015 às 23:02

Confesso que a entrevista me deixou algo enevoado.
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De Octávio dos Santos a 07.05.2015 às 11:07

«E jura que, se fosse Presidente da República, teria dissolvido a Assembleia da República em Julho de 2013, a pretexto da saída de Vítor Gaspar e do momentâneo arrufo de Paulo Portas.»

Ou seja, Sampaio da Nóvoa seria outro... Sampaio.
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De Marquês Barão a 07.05.2015 às 11:45

Um contrafeito a impingir requentados fora de prazo sanitário.
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De Helena Sacadura Cabral a 07.05.2015 às 12:59

Nem mais!
Tem toda a razão!
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De Luís Lavoura a 07.05.2015 às 11:15

é uma solene vacuidade

Não pondo isto em causa, questiono:

(1) E alguns outros candidatos pré-anunciados, não o são também? Por exemplo, Marcelo Rebelo de Sousa - não é também ele uma vacuidade, um indivíduo que só fala, fala, caga sentenças sobre tudo e mais alguma coisa, mas nada de útil faz? Porque acusa o Pedro Nóvoa de ser vácuo, mas não faz a mesma acusação a outros?

(2) Para que necessita o Presidente da República de ser algo mais do que vácuo? Ele não tem poderes basicamente nenhuns. É uma figura vazia de poder, portanto não faz mal nenhum que seja também vazio de tudo o resto.
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De Maria Dulce Fernandes a 08.05.2015 às 12:15

O Luis Lavoura refere-se aos PR portugueses em geral, ou a este último em particular, que por não estar vinculado " à esquerda" é uma figura vazia de poder ?
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De Luís Lavoura a 08.05.2015 às 13:52

Refiro-me à figura do Presidente da República tal como ela existe na Constituição. Afirmo que o PR em Portugal, de acordo com a nossa Constituição, praticamente não tem qualquer poder efetivo.
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De Luís Lavoura a 07.05.2015 às 11:36

Só por insistência do entrevistador, já no final, introduziu na sua prédica a necessidade de combater a corrupção - matéria essencial na política portuguesa.

Sim, mas, afirmar essa necessidade é completamente vazio de sentido se não se disser como é que se pode fazer isso.

Ou seja, afirmar que se deve combater a corrupção é parte desse mesmo vácuo que o Pedro condena.

Ainda não vi ninguém a fazer propostas concretas (e legalmente e constitucionalmente válidas) para combater a corrupção.
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De João Sousa a 07.05.2015 às 11:47

Numa breve passagem que fiz pela última emissão d'O Eixo Do Mal, ouvi Daniel Oliveira dizer (sem sequer corar) algo como "quer queiramos quer não, Sampaio da Nóvoa tem um percurso político". Felizmente, todos os seus companheiros de painel desataram a rir-se na sua cara.
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De Pedro Correia a 07.05.2015 às 23:02

As coisas que eu perco por não acompanhar esses programas humorísticos...
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De ze luis a 07.05.2015 às 15:07

Não vi, nunca vejo ao não perceber o "motivo". E, claro, não gostei.
Obrigado ao Pedro Correia por este... serviço público.
Agora, cuidado com os sms :)
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De Pedro Correia a 07.05.2015 às 23:06

Confesso ter gostado muito mais do programa anterior, Zé Luís. Refiro-me ao Barcelona-Bayern (3-0).
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De ze luis a 08.05.2015 às 10:15

eheh, deve ser por isso que não vi a entrevista, anzi, nem sabia dela :)
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De Pedro Correia a 08.05.2015 às 22:02

Passar de Messi para Nóvoa é um choque.
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De cristof a 07.05.2015 às 15:36

Trazer uma academico que sempre lidou com a confortavel teoria para a vida prática e com consequencias por vezes graves pode ser arriscado. Temos visto exemplos ultimamente que nos ajuda a ser cautelosos.
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De Pedro Correia a 07.05.2015 às 23:07

Como cantava Sérgio Godinho em 1974, "só quer a vida cheia quem teve a vida parada".
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De Eduardo Saraiva a 07.05.2015 às 15:43

Na mouche, meu caro Pedro.
À medida que a "procissão" começar a andar, estou seguro que outras facetas do CV se conhecerão.
Abraço
ES
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De Pedro Correia a 07.05.2015 às 23:11

Espero que este seja o primeiro de muitos comentários a pretexto das presidenciais, meu caro Eduardo. Mantendo uma tradição do DELITO.
Um forte abraço, esperando rever-te em breve, agora no tempo das cerejas.

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