Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Delito de Opinião

Assédio?

jpt, 15.01.18

Fui professor durante quinze anos em Moçambique. Onde o problema do assédio sexual dos professores homens às suas alunas teve dimensões demográficas: num país que triplicou a população nos últimos quarenta anos, que herdou uma paupérrima rede escolar, e que teve as escolas e os professores dizimados, pois alvos preferenciais da guerra civil (1976-1992), a paz veio exigir um desenvolvimento apressado dessa rede escolar e, como tal, da formação de docentes. A qual se deparou, nos anos 90s e na década subsequente, com um problema tétrico: os professores eram uma das profissões mais devastadas pelo Sida - o qual, grosso modo, afectou 20% da população nacional. Foi uma hecatombe. Duas razões para isso: os professores primários e secundários, ao longo do país, e por mais mal remunerados que fossem (e são), eram dos raros assalariados, com acesso à moeda, e usavam-na para alcançar relações sexuais; os professores tinham múltiplas parceiras sexuais entre as suas alunas, dado que o exigiam em troca do tal dinheiro, da sua posição social reforçada, e para darem as suas avaliações positivas. Sobre esta temática não me vou por com exemplos, que conheço imensos, tão dramática, sociológica e ... demográfica é. Incontornável. Também na universidade, onde fui professor, isso acontecia, ainda que em menor grau. Pois, de alguma forma, no país ainda pertence a alguma elite (num sentido muito amplo) quem chega à universidade, não estando assim tão desapoiado. Mas é uma realidade, e soube de vários casos, murmurados ou anunciados - o professor que não "lança" a nota, que "chumba" a aluna, pais de alunas que se vão queixar, etc. Assisti e saudei a criação do gabinete universitário de luta contra o assédio, interno à universidade, instaurado face à consciência do alastrar desse problema. O qual, evidentemente, emanava não só das concepções geralmente aceites sobre o "poder dos homens" mas também da continuidade das concepções (e práticas) existentes no ensino dos níveis anteriores. 

Ponho este arrazoado por causa do que vem sendo para aqui (e não só) dito sobre o "assédio sexual". E sobre o "fundamentalismo". Abaixo leio que os homens têm que assediar as mulheres para que haja reprodução. É uma patetice iletrada. Não há nada de animal nisto: as gatas têm cio e "assediam" os gatos. Dizer isso é apenas ignorância, remeter a questão para a léria de que os homens precisam das parceiras para se reproduzir. O corolário dessa ignorância é a naturalização da poliginia e a imoralização da poliandria. O que nós estamos treinados (cada vez menos, diga-se) é que sejam os homens a cortejar as mulheres e não o oposto, a nós homens o explícito, a elas mulheres o implícito. São códigos, muito do seu tempo, e em desaparecimento. O assédio não é explicitação do desejo, nem corte amorosa. É poder exercido: físico, económico, patronal, cultural, psicológico. Quem não percebe isso não estudou português, não aprendeu bem a língua,  não tem dicionários em casa, e não tem nos seus favoritos um qualquer dicionário informatizado. E perora. E qualquer tipo que tenha aprendido que não se vai para a cama com uma mulher (algo) inconsciente - aquela miserável cena do "só mais um copo" à rapariga -, com o livre-arbítrio reduzido, só pode desprezar quem assim pensa.

Debater isto não implica qualquer fundamentalismo, não há "fundamentalismos inevitáveis", como Teresa Ribeiro defende. Há tempos escrevi aqui sobre o Spacey, que é inserível neste eixo. E este moralismo - de facto, a "contra-reforma" da revolução sexual de há décadas - instala-se a torto e a direito. Sob um ideal de justiça popular, que transformou este movimento num verdadeiro #you too. Isto não é um "fundamentalismo inevitável", é uma justiça  popular perfidamente moralista.  A leitura do documento das "100 europeias", por tantas energúmenas torpemente reduzido a um lamento da "velha" e "reaccionária" Deneuve - a "estrela" que deu a cara ao manifesto pelo direito à interrupção voluntária da gravidez, encabeçado por Beauvoir, e agora tratada como uma machista misógina caduca - é exemplo disso. É o corolário do mero radicalismo, confusionista. Porque, no seu moralismo pacóvio, censor, retira a questão do poder do centro da questão. Não há nada inevitável (a não a ser a morte ... e os impostos). Muito menos o fundamentalismo. Recusar e combater o assédio sexual é uma obrigação. Mas o assédio não é "roubar um beijo" (como até a esta velha carcaça bloguista ainda por vezes fazem), "encostar suavemente a mama ao antebraço alheio" (idem) - isso é explicitação da disponibilidade. Gestos que nós, homens, estamos treinados a saudar positivamente, mesmo que desinteressados ("he pá, ainda mexo", comenta para si-mesma a tal carcaça bloguista cinquentona). Um âmbito de gestos que, porventura, muitas mulheres entendem como prenúncio de outra agressividade, treinadas (socializadas) que foram de outra forma, e assim tornando-os incómodos. 

E o que muita gente diz, e o tal "manifesto das 100" explicita, é que o assédio não é isso, não é a mais ou menos desbragada corte, o "incómodo" acusável pela "justiça popular". E as fundamentalistas (e os fundamentalistas também) que tudo confundem, para se fazerem soar, não merecendo levar com "panos encharcados" merecem, com toda a certeza, oposição. 

18 comentários

Comentar post