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As vozes moderadas

por Luís Naves, em 03.02.15

Livros como Os Sonâmbulos, de Christopher Clark, ou The War that Ended Peace, de Margaret MacMillan, mostram que no período anterior ao início da Primeira Guerra Mundial foram criados climas beligerantes que tornaram difícil a tarefa dos governos. Políticos demagogos e movimentos nacionalistas agitaram a opinião pública, atribuindo todos os males da sociedade a questões territoriais ou à competição com potências vizinhas. Lentamente, foi subindo o tom dos insultos e houve uma corrida aos armamentos. A retórica racista e patriótica conduziu à mentalidade de tudo ou nada. Antes de 1914 houve várias crises, nomeadamente nos Balcãs, mas sempre por razões que hoje nos parecem irrelevantes. Em certa medida e com temas alternativos, a situação parece hoje repetir-se: num ambiente de histeria que se torna mais intenso, as vozes da moderação são abafadas pela gritaria dos radicais, levando o discurso moderado a adoptar a própria linguagem extremista.

Tal como aconteceu no período que levou ao suicídio da Europa, os agitadores das consciências e os autores mais indignados tentam convencer a opinião pública de que os problemas só podem ser solucionados por uma ruptura da ordem estabelecida. As sociedades contemporâneas não são imunes a vagas de mudança impostas por grupos radicais, mas o sistema democrático é resistente e a retórica nacionalista não cabe num contexto de integração europeia. No entanto, em muitos comentários sobre a crise do euro, é espantoso verificar que a ideia do combate até à última gota de sangue está bem viva. Nos últimos dias, os argumentos extremaram-se. Defender, por exemplo como propõe a Alemanha, que a Grécia deve cumprir as regras da zona euro e as promessas anteriores de continuar as reformas, merece textos indignados, com críticas semelhantes aos apelos patrióticos de recuperação imediata da Alsácia-Lorena.

Começam a ser raros os autores que defendem a União Europeia ou a estratégia de permanência na moeda única. Em breve, haverá quem afirme que todos os problemas são criados pela Alemanha e que esta deve ser a primeira a sair da Europa. O facto é que, na crise das dívidas soberanas, Berlim cedeu em todas as suas linhas vermelhas e, desta vez, a pressão parece de novo irresistível. A reestruturação da dívida grega já atingiu os limites e não parece possível um novo perdão sem união política. Provavelmente, os gregos querem mesmo sair do euro e culpar a Alemanha pelo desenlace. Essa será a única forma de cumprirem o programa radical de nacionalizações e aumento da despesa, mas o jogo de culpas só pode dividir irremediavelmente o bloco europeu. Rússia e EUA não desejam outra coisa, sobretudo Moscovo, que continua a transformar o leste ucraniano numa espécie de balcânia sem solução.


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