As reacções às JMJ
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Missa de terça-feira 1 Agosto no Parque Eduardo VII
As JMJ em curso têm conseguido desencadear uma série de reacções transbordantes de significado e que permitem interessantes interpretações.
Muito para além da questão dos custos, gostaria de aqui abordar algumas dessas reacções.
Seria demasiado simplista dizer que é a esquerda que está mais irritada com tudo isto. É imenso o que existe em comum entre a doutrina social da Igreja e parte significativa dos programas dos partidos de esquerda. Os mais lunáticos extremistas dirão, sem qualquer pejo, que terá sido a Igreja a copiar-lhe as ideias. Eu, sorridente, aprecio o debate do “eu é que disse primeiro” a que a Igreja, inteligentemente, não dá seguimento.
O humanismo das correntes políticas, mais ou menos progressistas, tem uma génese judaico-cristã e o resto é foguetório.
Sobre os custos do acontecimento, aprecei uma comparação de João Marques de Almeida no seu texto de ontem no Observador. Segundo ele, “o dinheiro injectado na TAP pelo Estado chegava para organizar mais de 100 JMJ, uma todos os anos no próximo século."
A esquerda tuga, que rejubilou com o “há mais vida para além do défice”, que depois arrepiou caminho tentando parecer que gosta de contas certas, embora com orçamentos fictícios assentes em cativações massivas e impostos recorde, vem agora vociferar, com veias do pescoço infladas e tudo, contra o desperdício de receber em Portugal centenas de milhar de jovens, que regressarão a casa com uma imagem positiva do nosso país. Defendem uma austeridade que não permitiria a realização do evento, mesmo quando estamos a falar de um centésimo do que foi gasto na TAP, o que me leva a concluir que a questão dos custos não é mais do que um argumento circunstancial.
Mais do que qualquer outra coisa, estas reacções baseiam-se exclusivamente numa atitude de oposição. Eles são anti-clericais, porque associam a Igreja ao conservadorismo de alguma direita. Eles são contra o catolicismo, porque este não se ajusta às suas reivindicações progressistas, reivindicações essas que no fundo não são mais do que uma tentativa gramsciana de corrosão das instituições. Eles exigem uma discriminação positiva a todos que não se inscrevam no que designam como sendo cisgénero, mas não vacilam em vandalizar o Bar Finalmente, se os seus proprietários se atreverem a abrir as portas a uma festa LGBT organizada pela Embaixada de Israel. E porquê? Porque Israel é apoiado pelos EUA, o grande Satã do capitalismo e do liberalismo. Os talibãs, que professam uma versão radicalizada de uma outra religião, matam mulheres que tentem ir à escola? Sim e depois … eles são contra os EUA… “e, para já, não houve atrocidades”.
Todas estas incoerências não passam de diferentes formas de estar simplesmente contra. Conheço um anarca tardio, que nem sabe que o é, que quando se fala de política, sempre repete a sua visão do mundo. Há governo? Então sou contra! Não é mais do que uma rebeldia anti-sistema. A civilização ocidental tem uma matriz judaico-cristã? Então sou contra a Igreja e também antissemita! O capitalismo cria riqueza e por isso existem pessoas mais ricas do que eu? Então sou contra o capitalismo! Confirmam que as causas ditas fracturantes não são mais do que instrumentais de uma pura visão anti-sistema, cujos protagonistas agora se incomodam com as JMJ, pela constatação de que existe uma imensa multidão, muito maior do que eles todos juntos, que vive serenamente num quase silêncio mediático e que não podia ser mais contrastante com os activismos histriónicos que lhes servem de pedestal, que enchem os noticiários e marcam as agendas políticas.
Tudo isto está à vista regularmente, mas assumiu uma nova dimensão nestas JMJ e isso tem sido extremamente interessante. Continuarei a tirar notas.

