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As palavras também têm história

por Pedro Correia, em 19.04.14

Palácio Quintela, em Lisboa, onde Junot instalou o seu quartel-general em 1807

 

Muitas vezes não fazemos a menor ideia da origem de algumas das expressões coloquiais que usamos. Mas vale a pena investigar de onde vêm e como se foram generalizando.

Várias remontam ao tempo das invasões francesas, na primeira década do século XIX. Uma das mais frequentes relaciona-se com a chegada do general Jean-Andoche Junot a Lisboa, à frente do exército napoleónico, quando ainda se avistavam no horizonte as velas da frota que conduzia a família real portuguesa ao Rio de Janeiro, em 30 Novembro de 1807. Ficou, portanto, a ver navios.

Portugal acabou por ser devastado pelas tropas gaulesas, que aqui praticaram as maiores atrocidades. Mas Junot, indiferente às situações de penúria e de miséria provocadas pelos invasores também em Lisboa, instalou-se no Palácio Quintela, na Rua do Alecrim, com despudorada ostentação, vivendo à grande e à francesa.

Um dos generais que o acompanharam na invasão, Louis Henri Loison, tornou-se tristemente célebre pela ferocidade com que tratava os portugueses que tinham o azar de lhe surgir ao caminho. Por ter perdido o braço esquerdo numa batalha, logo recebeu a alcunha de Maneta. A partir daí, quando alguém se envolvia numa situação complicada ou perigosa, passou-se a dizer que iria pr'ò Maneta.

Derrotados na batalha do Vimeiro em Agosto de 1808, após o desembarque de forças britânicas em Portugal, Junot e as suas tropas retiraram-se para França após encherem navios de tudo quanto puderam na sequência de incontáveis actos de pilhagem em igrejas, palácios e bibliotecas - num dos maiores atentados desde sempre cometidos ao património nacional. Zarparam assim, de armas e bagagens.

 

Duzentos anos depois, os ecos das invasões francesas perduram no nosso vocabulário corrente. Porque também as palavras têm história.

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16 comentários

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De Anónimo a 19.04.2014 às 14:47

"Tudo como dantes, quartel-general em Abrantes"
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De Pedro Correia a 19.04.2014 às 15:36

Sim, faltou-me essa. Também poderia aqui estar.
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De da Maia a 19.04.2014 às 16:21

A principal, que falta, é:
"Tudo como dantes, quartel-general em Abrantes"

Quanto ao Maneta... confirma-se a referência a Loison.
Sobre "à grande e à francesa" também se pode ajustar, ainda que já se justificasse na inspiração de D. João V ao estilo de Luís XIV.

Quanto a:
"Ficar a ver navios do Alto de Santa Catarina."
Pode ajustar-se, mas esta frase está mais associada ao sebastianismo, e reporta-se a eventual tradição de esperar o navio que trouxesse D. Sebastião, que juntava populares no Alto de Santa Catarina do Monte Sinai, em Lisboa.
http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Miradouro_de_Santa_Catarina.jpg
(Esta freguesia foi uma que viu o seu nome extinto, numa das purgas habituais da memória.)

Discordo sobre a menção a "armas e bagagens".
É expressão militar e anterior à presença francesa:
"... e fugiram do Exército com armas e bagagens."
A expressão pode ler-se na Gazeta de Lisboa, de Março de 1800, sobre um levantamento de tropas francesas em Nice em Janeiro de 1800, muito antes da invasão francesa.

Já agora, uma caricatura inglesa é muito instrutiva sobre o acordo britânico que permitiu aos franceses sair, não só com a bagagem, mas sobretudo com o ouro:
John Bull, in great dismay, at the sight of the Ships which carried away the gold and silver and all the spoil, the French had plundered with so much toil, after the Convention which Nobody owns, that saved old Junots Baggage and Bones, altho Sir Arthur (whose Valour and skill, began so well but ended so ill) had beaten the French, who took the Gold, that lay in the City of Lisbon.

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De Pedro Correia a 19.04.2014 às 18:44

Agradeço-lhe as achegas ao meu despretensioso texto de fim de semana que de forma alguma pretendia ser exaustivo.
Agradeço-lhe sobretudo o esclarecimento acerca da origem da expressão 'de armas e bagagens', ainda tão usual entre nós. Sem pôr em dúvida o que refere, como é óbvio, julgo que a sua generalização no nosso vocabulário comum começou de facto ao tempo das invasões francesas. Um tempo que nos marcou de diversas formas - também ao nível do português falado com o aparecimento destas (e de várias outras) expressões coloquiais. Muitas delas chegaram incólumes aos nossos dias.
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De da Maia a 19.04.2014 às 21:22

Caro Pedro,

achei por bem deixar algumas dicas em sentido diverso, porque é habitual o esquecimento trazer também lembranças incertas, por vezes erróneas, que por serem repetidas começam a ganhar o estatuto de certas.

Há muitas expressões que vêm do sebastianismo e há uma confusão estranha com as invasões francesas.
A expressão "amigos de Peniche" refere-se ao desembarque inglês para repor o Prior do Crato... e não se aplica aos franceses, mas sim ingleses. Ou melhor, seria mais desculpa lisboeta por nada terem feito contra os espanhóis. Os lisboetas ergueram dezenas de arcos de triunfo celebrando Filipe II, e estiveram longe de apoiar D. António. Apesar de ter a esquadra de Drake em Cascais, não houve sublevação lisboeta, e os ingleses vindos de Peniche não seriam suficientes sem apoio de alguma nobreza nacional.

Quanto a "armas e bagagens" creio ser um termo que começou a ser usado quando os exércitos passaram a ser regulares, e não meros recrutamentos ocasionais.
Encontra essa referência em textos do Séc. XVIII. Por exemplo, a Gazeta de 1728 fala em "... grande quantidade de armas, e bagagem", numa notícia sobre a Rússia.
Como é óbvio, limitei-me a googlar... mas nos textos antigos.

De qualquer forma, o episódio em causa pode prestar-se a esse entendimento posterior, por não se ter em conta a habitual bagagem que os soldados transportavam. A logística passou a ser importante nos exércitos regulares.

Sobre o episódio há a expressão "sair à francesa", mas é menos comum.

Boa Páscoa.
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De Pedro Correia a 19.04.2014 às 22:37

Sim, a expressão "sair à francesa" também se relaciona com este contexto.
Gosto sempre de ver as marcas que os acontecimento históricos deixam no nosso idioma, escrito e falado. Em breve tenciono iniciar uma série aqui no DELITO sobre este tema.
Agradeço-lhe novamente o seu contributo.
E daqui lhe envio um abraço com votos de Páscoa feliz.
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De José Catarino a 20.04.2014 às 09:43

Filler à l'anglaise.
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De Vento a 19.04.2014 às 16:53

É caso para falar sobre os amigos de Peniche, Pedro.
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De Pedro Correia a 19.04.2014 às 18:39

Sem dúvida, meu caro. E eles não faltam por aí.
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De Anónimo a 19.04.2014 às 17:40

Amigos de Peniche
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De Pedro Correia a 19.04.2014 às 18:39

Grato pela dica.
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De Ivone Gravato a 20.04.2014 às 19:55

E a expressão "Para inglês ver" vem da mesma época, quando as tropas portuguesas se aprumavam para fazer boa figura face ao exército de Wellington
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De Pedro Correia a 20.04.2014 às 20:41

Tens razão, Ivone. E essa é uma das que mais perduram na nossa linguagem quotidiana.
(Gosto muito de te ver por cá)
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De Ivone Gravato a 21.04.2014 às 16:25

Sou assídua na leitura, Pedro. Beijos e saudades

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