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As outras mulheres...

por Alexandre Guerra, em 08.03.18

A determinadas horas nas quotidianas viagens de comboio que faço na linha de Sintra (coisa que desconfio que uma certa elite pensante lisboeta desconheça em absoluto), dou por mim a observar algumas mulheres, não aquelas que entusiasticamente metem likes em tudo o que tenha a hashtag “MeToo”, ou aquelas que, histericamente, reiventaram uma versão mais fundamentalista da queima dos soutiens dos anos 60, mas antes aquelas que se levantam às 5 ou 6 da manhã para irem trabalhar nas limpezas das empresas ou para entrar na caixa de um supermercado. Muitas delas, provenientes das antigas colónias e que residem naqueles subúrbios que tanta alergia causam a algumas almas que comentam euforicamente nas televisões e twittam ruidosamente, é como se ficassem com o refugo que a sociedade não quer. Ainda esta manhã, uma delas, ao frio e a apanhar com os pingos da chuva, esvaziava os caixotes de lixo na estação do Cacém. Por vezes, estas mulheres carregam aos ombros o sustento de uma família inteira. Os miúdos estudam (quando estudam) e o homem da família há muito que, cobardemente, se meteu ao largo. Olho para os rostos destas mulheres e não consigo descortinar as suas emoções. Não consigo perceber se estão tristes, felizes, angustiadas... Certamente estarão a fazer contas à vida. Cumprem as suas obrigações… Quando precisam, têm que esperar horas numa urgência, meses para uma consulta, ou fazer sacrifícios imensos naqueles dias caóticos de greves de transportes públicos porque não têm outra forma de chegar ao trabalho. E nestes casos, os patrões quase nunca são benevolente. São mulheres sofridas, mas as suas vozes são silenciosas. Não se queixam, ninguém lhes mete um microfone à frente e seguramente os seus temas não são suficientemente sexy para fazer a tendência do dia nas redes sociais. Estas mulheres são, de certa forma, vítimas de um certo tipo de exclusão social ou, talvez melhor dito, de uma apatia social.

 

Confesso que acho pouco interessante a discussão primária quando o assunto se coloca ao nível de feminino vs machismo, dos livros cor-de-rosa vs livros azuis, se as mulheres voluptuosas devem ou não estar na grelha de partida na Fórmula1 ou dar beijinhos aos vencedores das etapas em bicicleta (eu acho que devem, mas isso é outra questão). E mais, pouca credibilidade dou àquilo que saia do circo chamado Hollywood "embrulhado" em assunto sério (aliás, é de uma hipocrisia enorme que na cerimónia dos Óscares se fale dos previsíveis e populares temas e se "bata" (e bem) no Weinstein e Damon, mas nem uma palavra sobre o massacre de mulheres e crianças em Ghouta oriental). Naquilo que deve ser uma abordagem séria e intelectualmente consistente, prefiro a linha de raciocínio de António Guterres, secretário-geral da ONU, quando hoje em Nairobi disse que as mulheres são as principais vítimas da pobreza, dos conflitos e da violação dos direitos humanos. Porque, e de acordo com os indicadores da Organização Internacional de Trabalho, divulgados ontem, verificaram-se progressos substanciais nos últimos 20 anos, sobretudo nas sociedades ocidentais, em termos de desigualdade de género, embora haja muito caminho para percorrer até ser alcançada uma igualdade justa. No entanto, o problema continua particularmente acentuado em regiões como África ou Ásia. Ou seja, em situações limite, seja de abuso de poder governamental ou laboral, de conflito social ou militar, são as mulheres quem mais sofre.

 

E isto é tão válido para a mulher que percorre quilómetros para ir buscar água para a família algures na Etiópia, para a estudante em Riade que não pode ir ao cinema de mão dada com o namorado ou para a operária explorada por um chefe sem escrúpulos numa qualquer empresa do Vale do Ave. Mas não só. Essas situações limite podem assumir, por vezes, formas bem mais subtis e que levam as mulheres ao sofrimento, muitas vezes silencioso, mesmo no nosso quotidiano mais cosmopolita.

 

Veja-se aquela mulher que se levanta todos os dias, sozinha, trazendo às costas os problemas do dia anterior, que veste, alimenta e leva à escola os filhos. Após o tormento dos transportes públicos ou do trânsito, chega ao emprego e já está preocupada se sairá a horas para ir buscar os filhos e passar algum tempo de qualidade com eles, educá-los, mimá-los. Muitas vezes, o apoio é pouco ou nulo, estando entregues a si próprias. No trabalho, por vezes, as proclamações de boas práticas empresariais e os afectos públicos demonstrados pelos chefes não casam com aquilo que é, efectivamente, praticado. Tudo lhes é dificultado, os horários são inflexíveis, e quando é preciso compreensão, ela não existe. Com sensibilidade e bom senso, algumas destas angústias seriam facilmente resolvidas e contribuiria, seguramente, para um maior conforto da mulher. No final do dia, é o regresso de um longo calvário, com paragem obrigatória na escola para ir buscar os filhos, talvez também no supermercado e, finalmente, fazer o jantar. Por fim, a responsabilidade maternal desencanta tempo e paciência (sabe-se lá onde) para a educação e algum tempo de lazer com os filhos. Deitadas as crianças, é preciso ainda rever uma proposta do trabalho que o "chefe" pediu para ser enviado ainda nesse dia. E já no limiar das suas forças, uma zona onde normalmente os comuns mortais caem por terra, a mulher revela todo o seu esplendor, e ainda arranja tempo e disposição para ser fascinante. 


14 comentários

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De Vlad a 08.03.2018 às 12:42

Está tudo dito!

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De Luís Lavoura a 08.03.2018 às 12:50

A imagem que o Alexandre dá da vida das mulheres que fazem limpezas é um bocado estereotipada.
A mulher que limpa o meu gabinete mora a dezenas de quilómetros de Lisboa e todos os dias vem de comboio, muito cedo, para Lisboa. Mas para ir de casa até à estação de comboio (11 quilómetros) usa o seu carro. E, embora aufira o salário mínimo, não é pobre, porque o marido trabalho como camionista internacional (viagens entre Portugal e outros países da Europa) e traz bom dinheiro para casa.
Uma prima minha também trabalha como faz-tudo num lar. Também ganha o salário mínimo mas não é nada pobre, porque o marido, emigrado em França (mas vindo visitá-la regularmente), também traz bom dinheiro para casa. Vive numa moradia e tem um filho na universidade.
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De Alexandre Guerra a 08.03.2018 às 13:00

Caro Luís,

faço o seguinte exercício teórico, claro está...imagine que os dois respectivos maridos que trazem "bom dinheiro para casa" iam à sua vida e deixavam as mulheres abandonados à sua sorte com os seus ordenados mínimos... Percebe a lógica da coisa?

Cumprimentos,
Akexandre
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De Luís Lavoura a 08.03.2018 às 15:23

Alexandre, o que eu disse é que o exercício teórico que você faz é um bocado estereotipado. Há neste mundo muitos maridos que não vão à sua vida e deixam as mulheres abandonadas à sua sorte. Eu diria mesmo mais: a maior parte dos maridos não faz isso. A maior parte dos maridos acompanha as suas mulheres e ajuda-as, pelo menos financeiramente.
Só que, lá está, dá muito mais nas vistas um marido infiel do que um marido cumpridor.
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De Vlad, o Emborcador a 08.03.2018 às 18:05

"maior parte dos maridos acompanha as suas mulheres e ajuda-as, pelo menos financeiramente."



Luís está a ser emitida na RTP Memória a Chuva na Areia....
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De Vlad a 08.03.2018 às 13:04

Uma mão com 5 dedos, é uma mão estereotipada, pois existem quirodáctilos.


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De Cristina M. a 08.03.2018 às 13:31

nada como um marido emigrado ou um noivo camionista... estimêmo-los.
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De Luís Lavoura a 08.03.2018 às 15:24

Ora bem. Um marido camionista é um marido que vem de 7 em 7 dias, cumpre a sua obrigação marital e depois vai-se embora e não chateia a mulher durante os outros 6 dias...
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De Vlad, o Emborcador a 08.03.2018 às 16:37

Isso da obrigação marital ser semanal leu no Monopólio?
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De Luís Lavoura a 08.03.2018 às 12:54

a estudante em Riade que não pode ir ao cinema de mão dada com o namorado

1) Não podem ir ao cinema. Porque em Riade o cinema é proibido.

2) Tão mal está ela como o namorado, que também não pode andar de mão dada com ela.
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De António a 08.03.2018 às 12:59

Como “single father” sinto muitas afinidades com a descrição. E é pela mesma razão que não sinto afinidade nenhuma com “movimentos” que me querem estereotipar.
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De João André a 08.03.2018 às 13:21

Discordo essencialmente num aspecto: quando referes que Hollywood é um circo. Eu vejo o #metto hollywoodiano menos como um circo e mais como um exemplo sob a lupa e que chama atenção para o assunto. Talvez seja um circo, mas em vez de mostrar leões, mostra uma situação de abuso.

Claro que nunca o saberemos, mas é fácil imaginar que os abusos que têm vindo a lume nas Nações Unidas e muitas outras organizações não teriam sido conhecidos tão cedo sem o #metoo.

E também é perfeitamente argumentável que o debate que existe hoje foi iniciado graças a esse movimento. É um bocado circense, mas tem tido um grande mérito.

Claro, nada disto invalida nos casos que referiste. Apenas faço a rectificação (que sabes melhor que eu, imagino): em Riade a mulher tem que andar na companhia de um membro masculino da família, mesmo que filho, para poder sair à rua. Isto tem vindo a mudar lentamente, mas conta-me uma amiga que mora no país que ainda é assim.
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De marta a 08.03.2018 às 17:17

Hm... imaginar que os abusos na UN não teriam sido conhecidos tão cedo sem o #metoo é forçar um bocadinho a barra.

Desde 2015/16 que têm aparecido mais nas notícias, é verdade, mas os abusos no contexto UN são conhecidos há muito tempo. Há milhares de notícias sobre desde 2006 e a referência mais antiga que encontrei online é um relatório de 2002 (ACNUR/Save the Children UK). Que não tenham tido muito eco, é toda uma outra discussão...


PS: Reconheço as limitações do meu método: ir seguindo as notícias + interesse pela ONU + google.
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De Beatriz Santos a 08.03.2018 às 14:40

De forma geral, Guterres tem razão, a corda rebenta sempre para o lado do mais fraco. Talvez a coisa mais difícil seja mudar a mentalidade dos povos. Porque toda a gente diz sim senhor, a igualdade das mulheres é um direito. E tal, e tal. Mas a verdade é que, infelizmente, não é um direito de facto adquirido. Existe no papel. E países há em que nem no papel. Portanto, há muito ainda por fazer na prática quotidiana. E, embora as mulheres das classes mais desfavorecidas sejam mais sacrificadas, não se pense que as restantes usufruam da apregoada igualdade.

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