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As "folhas secas" de Caracas

por Pedro Correia, em 01.05.19

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É, desde já, uma das imagens do ano. E também uma das mais chocantes. Um blindado antimotim da Guarda Nacional Bolivariana salta um separador numa larga via circular de Caracas e arremete a toda a velocidade rumo à faixa contrária, onde se agrupam largas dezenas de manifestantes desarmados, atropelando-os sem piedade, como quem esmaga folhas secas no alcatrão. Logo alguns ficam estendidos no solo, ignorando-se o que lhes sucedeu.

O mundo inteiro viu: esta é a verdadeira face da ditadura de Nicolás Maduro. Um regime que apregoa o socialismo revolucionário enquanto reprime, esmaga e tortura os humildes que ousam contestá-lo. Um regime que encerra órgãos de informação, censura vozes livres, aprisiona deputados e autarcas, silencia cadeias de televisão internacionais e suprime comunicações telefónicas, asfixiando a liberdade. Um regime que condena a população à penúria, à desnutrição e ao desabastecimento dos bens essenciais. Nos últimos oito anos, os venezuelanos perderam em média oito quilos por efeito da fome endémica e da falta de proteínas. Enquanto o ditador, encerrado no palácio, vai engordando.

 

Falta tudo em Caracas: luz, água, alimentos e medicamentos. Só não faltam os crimes: é a capital onde se regista a maior taxa de homicídios do planeta, quase todos permanecendo impunes, grande parte deles cometidos pelos chamados "colectivos", gangues armados até aos dentes por Maduro para esmagar focos oposicionistas nos bairros populares, funcionando como a face mais negra e sangrenta do regime.

A Venezuela é também o país com a maior taxa de inflação a nível mundial: 10.000.000% ao ano, algo impensável para os nossos padrões europeus. Nada se consegue pagar com o dinheiro da treta, que não vale sequer o papel em que é impresso, no país que possui as maiores reservas de petróleo do hemisfério ocidental. Enquanto o caudilho se entrincheira num bunker palaciano, vigiado a todo o momento pela guarda pretoriana que Cuba lhe forneceu, totalmente isolado do povo, há largos meses sem descer à rua. Transformado num títere de Havana.

 

O mundo inteiro viu o Golias blindado, ao serviço da revolução falhada, esmagar os Davids civis que se atreveram a protestar contra a tirania. O mundo inteiro indignou-se. Todo? Não, todo não. Para Catarina Martins, coordenadora do BE, a culpa da fome, da miséria e da repressão armada na Venezuela socialista resulta da «ingerência máxima» dos Estados Unidos. Debitando a vulgata pró-soviética dos tempos da Guerra Fria. Evitando cuidadosamente pronunciar uma só palavra de crítica a Maduro.

Como se não tivesse observado as imagens de Caracas. Ou - pior ainda - como se as tivesse visto e ficasse indiferente a elas.


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