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As casas da minha vida

por Teresa Ribeiro, em 25.06.19

96872151.jpg

 

As casas que me tiveram, nunca me pertenceram. Na geração dos meus pais, tal como no tempo dos meus avós, as pessoas, nas zonas urbanas, viviam sobretudo em andares alugados. Apesar de serem propriedade dos senhorios, havia, porém, um forte sentido de pertença. Esses apartamentos eram, enquanto lá vivêssemos, a nossa casa.

Mas a primeira que habitei foi bem longe das grandes urbes, em Mondim de Basto, Trás-os-Montes. Também não pertencia à família. O meu pai tinha sido lá colocado em serviço do Estado, como administrador florestal. Nessa qualidade liderou o combate a grandes incêndios, mas isso foi  no tempo em que a floresta não ardia como se houvesse amanhã, por existir uma gestão florestal que funcionava. 

Saí de Mondim com cerca de dois anos e nunca mais voltei. Durante a vida toda, regressar à minha primeira morada tem sido um programa adiado. Pergunto-me se por razões que são realmente alheias à minha vontade, ou se essa impossibilidade resulta afinal de uma teia que fui tecendo só para manter aquele lugar alinhado com a amnésia dos meus inexpugnáveis primeiros anos de vida.

Dessa casa tenho uma imagem feita a partir dos ângulos que descortino em fotos antigas e das descrições que ouvi, repetidas, sobretudo à minha mãe. Foram elementos mais que suficientes para a ter construído à medida. Quando finalmente lá voltar sei que vou rever sobretudo um lugar que só existe, desfocado, ao fundo da minha yellow brick road. Será disso que eu fujo?

Depois regressei a Lisboa, onde nasci. Morei mais de vinte anos num apartamento de onde saí sem nunca ter saído, porque se manteve a residência dos meus pais e mais tarde a segunda casa dos meus filhos. Passei lá a infância, a adolescência, a juventude, anos essenciais da minha biografia. Fica numa rua de onde se vê Monsanto e todas as coisas que só eu sei. As chaves dessa casa já estão com o senhorio, mas a alma dela, guardo-a eu.

 

Nota: escrevo sobre este tema para responder ao desafio do Pedro, a que também já respondeu a Dulce. Passo agora o testemunho ao senhor(a) que se segue...


16 comentários

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De Pedro Correia a 25.06.2019 às 16:44

Sugestivo testemunho, Teresa. Gostei muito de ler. Espero que outros colegas de blogue alinhem nesta nossa corrente de textos sobre as casas em que vivemos.
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De Maria Dulce Fernandes a 25.06.2019 às 17:35

As suas casas podem nunca lhe ter pertencido, mas são muito suas e guarda-as onde é importante , Teresa.
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De Diogo Noivo a 25.06.2019 às 18:14

"As casas que me tiveram, nunca me pertenceram". Padeço do mesmo mal (ou bem). São peças da minha vida que nunca foram minha propriedade, mas andarão comigo até ao dia em que se apague a luz. Gostei de te ler, Teresa.
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De Teresa Ribeiro a 26.06.2019 às 11:17

Obrigada, Diogo :)
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De Anónimo a 26.06.2019 às 00:08

Bela introdução, Teresa.
Dos seis meses até aos 29 anos (também) vivi numa casa com uma bela vista para Monsanto, o que era óptimo para a imagem do único canal de tv que existia na altura.
A primeira vez que comi batatas a murro, levei um murro no estômago ao descobrir, ou melhor, ao não descobrir a casa onde nasci e vivi até aos seis meses.

Maria
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De Teresa Ribeiro a 26.06.2019 às 11:22

As casas habitam-nos, Maria. Essa é que é essa :)
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De Corvo a 26.06.2019 às 00:23

A primeira casa que eu tive verdadeiramente minha, por singular sorte nunca foi.
Tinha 33 anos quando a comecei, num terreno de mil metros oferecido pelos meus pais ao casal, eu filho e ela nora; repleto de mangueiras, abacateiros, mamoeiros e um cajueiro.
Até aí os meus pais não se serviam dele, tirando o proveito dos frutos, claro.
Depois lembrou-se que aquilo dava muito jeito para ter a nora e as netas em Luanda quando viu preparativos de abalada da nora e netas queridas para outras paragens,- o filho também ia mas por esse não lhe doía a cabeça, - e convenceu-me a construir ali a minha casa.
Mostrei-me reticente, a minha mulher advogou em meu favor que tínhamos melhor futuro em Benguela, então para me incentivar colocou lá pessoal das obras dele, - era construtor civil, - e como quem dá o pão dá também a manteiga, os materiais também vieram das obras dele.
Comecei portanto a construção dessa casa em Setembro de 1973 e em Março de 74 estava concluída.
A minha mulher adorava a casa, os meus pais adoravam que ela adorasse, eu adorava que ela risse de modo que não andava descontente.
Uma semana antes de mudarmos para lá apareceu-me o "povo" angolano e travámos uma esclarecedora discussão. Curta mas conclusiva. Tipo.
- Então? De que se trata?
- Ó colonialista. Fizeste uma casa bonita. Agora sai daqui que a casa é do povo.
E foi assim.
Fora do assunto casa e só a título de curiosidade, que obviamente a ninguém interessará, e só porque uma vez que se conhece o canteiro conheça-se então a lavra toda; uma semana depois passei pelo banco a ver se conseguia sacar o meu dinheiro, e fui recebido com pompa e circunstância por um exército ferozmente armado, onde por singular afinidade o diálogo sobre dinheiro pouco ou nada diferiu sobre o outro da casa.
- Ó colonialista! o dinheiro é do povo.
Mas vinguei-me! Quando o pessoal da minha casa se apresentou no fim do mês para receber, Eu esclareci-o a preceito.
- Ó gente. Não tenho dinheiro, pá!
- Não tens?!
- Não! Vocês são povo, não são? Então ide ao banco que o vosso dinheiro está lá.
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De Teresa Ribeiro a 26.06.2019 às 11:21

As revoluções deixam sempre chagas abertas e um lastro de injustiças. Lamento muito, Corvo.
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De Corvo a 26.06.2019 às 14:42

Muito obrigado, Teresa.
Ao princípio sim, criou-me sérias dificuldades, mas depois não.
Descobri o Gabão, país independente, e melhor do que isso descobri o que era o conceito do verdadeiro significado de colonialismo.
Nunca ganhei mal em Angola, mas nesse país tão pertinho de mim e até então desconhecido, ganhava mais num mês do que num ano em Angola.
E, sobretudo, dinheiro válido que ao entrar para o banco em Portugal rendia-me mais de 30% de juro.
E com direito a toda a assistência social e medicamentosa, para mim e toda a família, que em Angola nunca soube o que era.
E televisão que também fui aí conhecer. E casa à beira mar com jardim e quatro coqueiros, mobilada e ar condicionado, - outra novidade para mim, - que alguém que não eu pagava a renda.
E chefe. Chefe de chantier mécanicien que em Angola fui sempre servidor.
Nem foi de todo mau.
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De Desconhecido Alfacinha a 27.06.2019 às 08:44

General Roçadas ? Tenho amigos perto...
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De Teresa Ribeiro a 27.06.2019 às 11:23

Também tem nome de general, mas não é Roçadas, é a Rua General Taborda, em Campolide :)
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De Anónimo a 30.06.2019 às 13:06

Quem visita Mondim, volta lá sempre , ou acaba mesmo por se instalar lá.
Quem viveu em Mondim tem obrigação de lá estar outra vez. Depois de lá estar, conscientemente, sente-se mais completo.
É uma honra e um gosto saber que viveu em Mondim.

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