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As canções no cinema (6)

por Pedro Correia, em 01.08.15

 

QUE SERA SERA (O Homem que Sabia Demais, 1956)

 

When I was just a little girl
I asked my mother what will I be.
Will I be pretty, will I be rich?
Here's what she said to me,

Que sera, sera,
Whatever will be, will be
The future's not ours, to see
Que sera, sera.
What will be, will be.

 

Sei de cor as letras de centenas de canções. Aprendi-as em grande parte entre as quatro paredes domésticas, quando era miúdo. Sempre foi uma casa onde se cantarolou muito – uma casa sob o signo do sol, onde eram raras as sombras.

Havia as canções da mãe, maioritárias. E havia também as canções do pai, não tão frequentes mas igualmente alegres. Entre estas, uma das mais recorrentes começava assim: “When I was just a little boy / I asked my mother what will I be / Will I be handsome, will I be rich? / Here’s what she said to me.”

Estava eu muito longe de saber, ao fixar estes versos, que tal cantiga teve estreia absoluta num filme do mestre do suspense, Alfred Hitchcock, pela voz de Doris Day, actriz que poucos imaginariam vocacionada para protagonizar um thriller. Actriz bem-amada e mal-amada: sempre polarizou opiniões. Eu, mesmo contra ocasionais correntes, figurei sempre entre os seus admiradores.

 

À partida ninguém associaria esta valsinha alegre e luminosa, quase em toada de canção infantil, ao mundo sombrio em que costumam mover-se as personagens de Hitchcock. Doris Day canta-a pela primeira vez aos dois filhos pequenos numa das cenas iniciais d' O Homem que Sabia Demais (The Man Who Knew Too Much, 1956) - remake colorido do filme homónimo rodado em 1934, a preto e branco, pelo realizador britânico.

Apercebi-me da associação entre canção e filme, nesses tempos ainda sem wikipédia, só vários anos depois de conhecer Que Sera Sera. O que em grande parte se explica pelo facto de o remake integrar a lista dos cinco filmes "invisíveis" de Hitchcock - os que realizou para a Paramount e permaneceram duas décadas fora de exibição por motivos relacionados com direitos autorais. Quando a Universal adquiriu o catálogo da Paramount, em 1983, e decidiu revelar aquelas películas às gerações mais jovens, houve celebração entre os cinéfilos.

Vi então, em salas de cinema, três desses filmes: Janela Indiscreta, Vertigo e Ladrão de Casaca. Por algum motivo deixei passar O Homem que Sabia Demais (e O Terceiro Tiro, o quinto do lote), que só veria anos depois em vídeo. Quando finalmente isso aconteceu, já na década de 90, o filme não me decepcionou: era a história de um casal que procurava resgatar um filho raptado durante uma digressão turística a Marraquexe - numa atmosfera que se vai adensando de cena para cena até se tornar quase claustrofóbica.

Com a imodéstia que o caracterizava, Hitchcock costumava comparar da seguinte forma as duas versões que filmou com 22 anos de intervalo: "A primeira foi obra de um amador com talento; a segunda resultou do trabalho de um profissional." Bem servida por um elenco em que se destacavam James Stewart, o francês Daniel Gélin (que no ano anterior protagonizara Os Amantes do Tejo, com Amália Rodrigues) e Doris Day, essa actriz-cantora que tão bem personificava a risonha América de Eisenhower desses irrepetíveis anos 50.

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Que Sera Sera: estranho título espanhol para uma cantiga americana. Foi uma daquelas ideias que só poderia ter sido congeminada por criativos de Hollywood - no caso, uma das duplas de maior sucesso na escrita de canções para filmes: o compositor Jay Livingstone (1915-2001) e o letrista Ray Evans (1915-2007), antigos colegas da Universidade da Pensilvânia que nunca deixaram de trabalhar juntos.

A parceria traduziu-se em três Óscares da Academia de Artes Cinematográficas norte-americana para a melhor canção em filmes: Buttons and Bows (1948), interpretada por Bob Hope em The Paleface (1948); a célebre Mona Lisa, que esteve para chamar-se Prima Donna, nascida na longa-metragem Captain Carey, USA (1950) e logo popularizada por Nat King Cole em disco; e Que Sera Sera, outro êxito instantâneo de uma canção lançada nas salas de cinema que para sempre ficou como assinatura musical de Doris Day e em Julho de 1956 disparou nos tops discográficos (primeiro lugar no Reino Unido, segundo nos EUA).

Mas talvez o maior sucesso desta dupla tenha sido o tema principal de Bonanza, uma das mais populares séries televisivas de sempre.

 

Que Sera Sera começou a nascer no dia em que Jay Livingstone, acompanhando em Itália a rodagem do filme A Condessa Descalça, com Ava Gardner e Humphrey Bogart, leu no portão de uma quinta a frase Che Sarà Sarà e anotou-a, parecendo-lhe inspiradora. A intuição dele bateu certo. Mas a frase italiana passaria a ser espanhola por haver muito mais gente a dominar este idioma, como os autores justificaram. 

Se me pedirem uma lista das 20 canções emblemáticas desses remotos anos 50, mencionarei sempre Que Sera Sera. Pela alegria contagiante, pelo optimismo que dela emana, pela sua incomparável candura. 

Hei-de associá-la sempre a Doris Day - que hoje, aos 91 anos, é uma das raras sobreviventes dessa época dourada de Hollywood ainda dominada pela "fábrica de sonhos" dos grandes estúdios.

Hei-de associá-la também sempre ao meu pai: era mais novo que Doris Day, mas já cá não está. Faço como ele, alterando a letra, passando-a de cantiga de menina a cantiga de menino: "When I was just a little boy / I ask my mother what will I be. / Will I be handsome, will I be rich?"

Trauteio-a vezes sem conta, sentindo-me de novo transportado às felizes manhãs da infância. E mesmo que o céu esteja coberto de nuvens, nesses dias haverá sempre sol para mim.

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16 comentários

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De Anónimo a 01.08.2015 às 15:59

Jamais esquecerei a primeira vez que vi um filme do Hitchcock em écran grande: foi o 'Rear Window', no Apolo 70.
Saí de lá em êxtase. Não sabia que a Grace Kelly era tão boa actriz e achei o Jimmy Stewart um espanto.
Também nessa altura vi o 'Vertigo', outro filme extraordinário.
Eu já o conhecia da televisão, a preto e branco, mas no cinema e a cores é outra coisa.
Tenho a primeira versão deste filme em dvd (aliás tenho vinte e tal filmes do Hitchcock cá em casa) e irei revê-lo em breve.
Foi uma boa surpresa, Pedro, confesso que estava à espera de "ouver" o Ricky Nelson a cantar o 'Rio
Bravo' ;-).
Gostei imenso!
Antonieta
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De Pedro Correia a 01.08.2015 às 17:03

Esta tinha que ser uma das primeiras, Antonieta. Porque é uma das minhas preferidas. Hawks passará por cá, sim: não tardará muito.
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De Anónimo a 01.08.2015 às 17:35

Eu pensava que era o Rio Bravo porque ontem a Dulce falou no Hawks, mas confesso que não sou muito fã deste realizador nem do John Wayne (heresia!).
Toda a gente adora o Wayne, mas eu nem por isso.
Para mim, talvez o melhor western seja o 'Once Upon a Time in the West', do Sergio Leone: pela história, pelos actores, pela música e, sobretudo, pelas magníficas paisagens de Monument Valley. Absolutamente inesquecível.
Mas há tantos e tão bons westerns...
:-) Antonieta
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De Maria Dulce Fernandes a 01.08.2015 às 22:40

Viva Antonieta

Quando referi Haward Hawks, não estava a pensar num westwen. Multifacetado como realizador, teve apontamentos brilhantes entre os quais os meus favoritos " To Have and to Have Not" e "The Big Sleep"
Música de um filme seu que eu pense icónica qb para constar nesta lista do Pedro ( mais uma vez, na minha humilde opinião) " Diamonds are a Girl's Best Friend", do filme " Gentlemen prefer Blonds".

Quando ao melhor western, apesar de não fazer o meu estilo, "Once upon a time in the West" é uma boa escolha , mas também gostei de ver "The Man who shot Liberty Valance" ou o "Johnny Guitar".

Beijinho e bom Domingo
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De Pedro Correia a 02.08.2015 às 00:49

Eu sou um fã de 'westerns' - sobretudo dos de John Ford: 'Os Dominadores', 'A Desaparecida', 'O Homem que Matou Liberty Valence'. E de muitos outros: 'Rio Bravo' (Howard Hawks), 'Shane' (George Stevens), 'Johnny Guitar' (Nicholas Ray), 'Esporas de Aço (Anthony Mann). Só para citar alguns.
Hawks terá mesmo de passar por cá.
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De Anónimo a 02.08.2015 às 09:45

Olá Dulce,
Eu também gosto muito do Johnny Guitar (era este o filme favorito do João Benard da Costa), do 'Imperdoável' do Clint Eastwood, do 'Silverado' do Lawrence Kasdan e do 'The Searchers' do Ford (e neste filme gosto muito do John Wayne e da Natalie Wood, uma das minhas actrizes favoritas).
Quanto à Marilyn, para além do 'The Misfits' em que ela é sublime,
gosto imenso do 'Niagara' e do 'River of no Return'.
Mas os filmes são como as cerejas, quando começamos a falar deles...
Bom Domingo para si também.
:-) Antonieta
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De Pedro Correia a 02.08.2015 às 00:53

Gosto muito de 'westerns', mais antigos ou mais recentes. Por exemplo, 'O Atirador' (de Don Siegel), 'Imperdoável' (de Clint Eastwood) e 'Indomável' (de Ethan e Joel Coen).
Fica aqui um texto que escrevi no Delito sobre este último filme:
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/2775716.html
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De Maria Dulce Fernandes a 01.08.2015 às 18:26

Bastou o mote do "suspense" :) :) :)
Hitchcock é para mim o melhor dentro do seu género, com difícil escolha de qual de entre todos os seus filmes é o melhor. Quando os vimos uma primeira vez, sentimo-nos realizados, pensando para connosco que esse é sem dúvida o melhor filme do realizador. O mesmo se passa com um segundo e terceiro visionamentos, e mais.
Quanto à música, de todas as músicas de todos os seus filmes, é realmente a mais conhecida, a mais cantada, a mais trauteada mundialmente. E tampouco eu sabia que era de um filme de Hitchcock. A Doris Day era a namoradinha da América e cantava músicas que inspiravam valores familiares. Conheci a música muito antes de conhecer o filme.

Tenho uma queda particular pela Janela Indiscreta. Excelente filme, enormes actores. Um Raymond Burr tão diferente daquele que me encantaria encarnando o mega herói de Earl Stanley Gardner, que releio só pelo gozo, vezes sem conta.

Texto fabuloso.
Bom fim de semana :)

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De Pedro Correia a 02.08.2015 às 00:44

'Janela Indiscreta' é um dos filmes da minha vida, Dulce. Curiosamente, lá surge também a canção 'Mona Lisa', da dupla Evans/Livingstone.
Sobre esta obra-prima de Hitchcock já escrevi aqui:
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/2668516.html
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De Pedro Correia a 02.08.2015 às 17:22

E - já agora - sobre 'A Desaparecida', lembro este texto também do DELITO:
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/a-desaparecida-jurar-para-sempre-na-6683019
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De IsabelPS a 01.08.2015 às 22:19

Bonito, Pedro :-)
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De Pedro Correia a 02.08.2015 às 00:20

Obrigado, Isabel. Espero que goste dos próximos.
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De Luís Menezes Leitão a 02.08.2015 às 08:26

Essa canção foi o símbolo da revolta húngara de 1956. Aos que avisavam os manifestantes que iriam desencadear uma invasão soviética, estes respondiam a cantar "que sera, sera". A invasão soviética aconteceu, mas a canção ficou como símbolo da liberdade húngara. Explicaram-me isso há uns anos em Budapeste, quando estranhei o facto de os cantores nos restaurantes incluírem sempre essa canção.
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De Pedro Correia a 02.08.2015 às 17:15

Não sabia, Luís. Mas gostei de saber que esta canção foi símbolo da liberdade húngara nesse emblemático e fatal ano de 1956.
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De gato a 02.08.2015 às 19:55

Pedro Correia,
Só para o cumprimentar, felicitando o excelente post.
Também felicito os comentadores e as comentadoras que mantiveram um nível raro, notável, de o fazer: tão-só comentar.
Abraço
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De Pedro Correia a 02.08.2015 às 21:04

Muito obrigado pelas palavras que aqui nos deixa. Bem merecidas, no caso dos nossos comentadores mais regulares, que em muito contribuem para a identidade e o dinamismo deste blogue.

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