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Delito de Opinião

As canções no cinema (14)

Pedro Correia, 20.08.15

 

MANHÃ DE CARNAVAL (Orfeu Negro, 1959)

 

Manhã, tão bonita manhã
Na vida, uma nova canção
Cantando só teus olhos
Teu riso, tuas mãos
Pois há de haver um dia
Em que virás.

Das cordas do meu violão
Que só teu amor procurou
Vem uma voz
Falar dos beijos perdidos
Nos lábios teus.

 

Certos filmes antecipam tendências musicais à escala planetária. Sementes de Violência, como já referi aqui, desbravou a explosão do rock n’ roll. A magnífica banda sonora de Miles Davis para Fim de Semana no Ascensor (de Louis Malle, com a incomparável Jeanne Moreau) deu início à vaga do cool jazz. Saturday Night Fever (de John Badham, com John Travolta) converteu todos os adolescentes do mundo ao disco sound.

Em 1959, um filme francês rodado no Rio de Janeiro popularizou a bossa nova – mescla improvável de samba e jazz concebido pelo génio de Antonio Carlos Jobim. O flme fez furor por todo o lado excepto no Brasil, onde a crítica o acolheu com acusações de promover um exotismo de bilhete-postal.

Ainda hoje, tantos anos depois, a longa-metragem realizada por Marcel Camus (1912-1982) transporta esse estigma no país que lhe serviu de cenário: poucos brasileiros podem gabar-se de ter visto Orfeu Negro. Mas esta obra, que recria o mito de Orfeu e Eurídice num morro do Rio durante as celebrações do Carnaval deslumbrou o mundo cinéfilo. Recebeu a Palma de Ouro em Cannes, foi distinguida com o Globo de Ouro nos Estados Unidos para melhor película em língua não-inglesa e viria a ser galardoada com o Óscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1960.

 

Foi o primeiro filme integralmente falado em português a receber tais distinções. Um filme que cruza a ficção com o documentarismo e recupera parte da estética neo-realista ao recorrer a um elenco de intérpretes não-profissionais e recusar a rodagem em estúdio.

É o Rio em todo o seu esplendor que nos surge na fabulosa fotografia de Jean Bourgoin em cinemascope multicolorido: raras vezes a cor foi tão sedutora como nesta adaptação ao cinema de Orfeu da Conceição, a peça de Vinicius de Moraes, estreada a 25 de Setembro de 1956 no Teatro Municipal do Rio.

Vinicius, que se gabava de ser “o branco mais preto do Brasil”, determinou que no palco só houvesse actores negros. Nunca tal se tinha visto no selecto teatro frequentado pela burguesia carioca. Mas a inovação vingou: a peça foi um êxito, para o qual muito contribuíram os cenários de Oscar Niemeyer e as músicas de Jobim - com destaque para Se Todos Fossem Iguais a Você.

A bossa nova dava aqui os primeiros passos, ainda titubeantes, mas só viria a ganhar verdadeira consistência três anos depois, com a adaptação da peça ao cinema. Orfeu da Conceição tornava-se Orfeu Negro. Vinicius, que colaborou no filme como argumentista, escreveu A Felicidade e  O Nosso Amor (numa insólita parceria telefónica com Jobim, que então se encontrava no Uruguai), canções que ganharam expressão própria muito para além do contexto da película.

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Orfeu Negro mostra-nos um Rio que antes ninguém vira e raras vezes voltámos a ver com tanta intensidade nas salas de cinema: um Rio de favelas luminosas, banhado de luz e emoldurado pelo azul marítimo como se tivesse sido tocado pela eternidade.

É um Rio de horizontes largos, num obsessivo contrapicado, imitando a panorâmica de um avião: dali se avista o Pão de Açúcar e a Praia do Leme. O Rio do Morro Babilónia, simbolizado como Monte Olimpo na recriação da tragédia de Orfeu, condenado pelos deuses a matar e a morrer de amor. Um Rio agridoce, alegre e triste, pujante de vida, exuberante de ritmo, mas toldado pelo sopro de tragédia que pode irromper a qualquer momento no delírio orgíaco do Carnaval.

 

Durante anos, procurei este filme sem o encontrar: não era exibido na Cinemateca nem na televisão pública e muito menos no circuito comercial de reposições, habitual nos meses de Verão. Acabei por descobri-lo bem longe, numa loja de discos para cinema em Hong Kong que frequentei na primeira metade da década de 90. Esse estabelecimento funcionou para mim como uma enciclopédia viva de cinema quando me demorei no Oriente: lá me abasteci durante anos com obras de Buñuel e Bergman e Godard e Visconti e Losey e Ford e Ozu e Mizoguchi e Fellini e Truffaut e Tati.

Tinha então um leitor de laser disc – a tecnologia mais avançada à época para ver filmes. Alugava uns discos, comprava outros e ampliei largamente os meus conhecimentos na Sétima Arte. Foi assim que Orfeu Negro me chegou às mãos e me deslumbrou para sempre com o seu desfile de intérpretes amadores escolhidos um pouco ao acaso por Marcel Camus: Breno Mello, o Orfeu condutor de bonde, era jogador de futebol; Marpessa Dawn, a doce e malograda Eurídice, era uma bailarina nascida nos Estados Unidos e radicada em França (e viria a tornar-se madame Camus); Ademar Ferreira da Silva, o namorado ciumento disfarçado de Morte, fora atleta olímpico de triplo salto, premiado com medalhas de ouro em Helsínquia e Melbourne.

 

Tom Jobim vai certamente perdoar-me, lá no assento etéreo onde subiu: nenhuma canção me fascinou tanto, neste musical carioca, como Manhã de Carnaval. Uma balada dolente e melancólica que Breno/Orfeu entoa para crianças no morro, dobrado pela voz de Agostinho dos Santos, cantor que viria a pisar o palco do Carnegie Hall, em Nova Iorque, na apresentação oficial da bossa nova à capital musical do planeta, na histórica noite de 21 de Novembro de 1962.

Lá estavam com ele Jobim, João Gilberto, Stan Getz, Sérgio Mendes, Roberto Menescal e Carlos Lyra.

Lá estava também o guitarrista Luiz Bonfá (1922-2001), criador de Manhã de Carnaval, com letra do jornalista e poeta Antônio Maria (1921-1964). Para mim, o mais belo tema do mais belo filme sobre o Rio. Para mim, uma das imortais canções concebidas em terras brasileiras - que viria a ser celebrada nas vozes de Sinatra, Elvis, Pavarotti, Placido Domingo, Tony Bennett, Sarah Vaughan, Cher e Diana Krall.

Canção agridoce também. Canção em que as palavras são sempre mais esfuziantes do que a música: "Canta o meu coração / Alegria voltou / Tão feliz a manhã / Deste amor."

Escutamos a letra e sentimos que não combina integralmente com a nostálgica melodia. Talvez isso contribua para o encanto especial desta balada, numa espécie de rima interna com os versos de Vinicius para outro tema do mesmo filme: "Tristeza não tem fim / felicidade sim."

Como Orfeu, perdida enfim Eurídice, tornada a lira inútil, num lamento perpétuo de dor e mágoa que nem a noite mais escura pode ocultar e nem o sol mais radioso pode esbater.

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