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As canções do século (fim)

por Pedro Correia, em 31.01.16

 

Estas coisas nunca acontecem bem como as planeamos. Eu tinha pensado inicialmente numa série de 365 canções que marcaram o século XX - uma por dia, ao longo de 2010. O segundo ano de vida deste blogue.

Lembro, a propósito, as primeiras que seleccionei: Starting Over (John Lennon), Time After Time (Margaret Whiting), Impossible Dream (Luther Vandross), Cucurrucucu Paloma (Caetano Veloso), Bon Annniversaire (Charles Aznavour), Valsinha (Chico Buarque), Perfidia (Ibrahim Ferrer), The Man I Love (Billie Holiday), Gracias a la Vida (Violeta Parra), Trouble (Elvis Presley), Eleanor Rigby (Beatles), La Foule (Edith Piaf), Singin' in the Rain (Gene Kelly), Desafinado (João Gilberto) e Something Stupid (Frank e Nancy Sinatra).

A adesão inicial dos leitores e o próprio entusiasmo que fui ganhando durante a elaboração da série prolongou-a por outros anos: 2011, 2012, 2013, 2014, 2015. Entrou até em 2016, com direito a destaque no portal do Sapo, por ser a mais antiga série diária em publicação ininterrupta na blogosfera portuguesa.

Termina hoje, com uma capicua perfeita e ao inevitável som do arrebatador e profético tema dos Doors que pela primeira vez escutei num dos filmes que integram o meu panteão pessoal: Apocalypse Now. A música é indissociável do cinema, é indissociável da vida, é inseparável da biografia de cada um de nós: se pudéssemos escolher a banda sonora das nossas vidas quantos temas musicais seleccionaríamos?

 

 

Descobri muito mais do que supunha nas pesquisas que fui fazendo para estas Canções do Século que hoje se despedem de vós. No fundo era esta uma das motivações mais fortes que me levaram a lançar a série: ampliar a minha própria cultura musical. Sem a circunscrever ao universo anglo-americano, contrariando assim uma das lacunas mais recorrentes e um dos erros mais grosseiros neste domínio: como é possível ignorar Tom Jobim, Edith Piaf, Carlos Gardel, Caetano Veloso, Antonio Machín e Jacques Brel quando se elaboram listas dos temas musicais que mais marcaram o século XX?

 

 

Nem sempre foi fácil escolher entre originais e versões. Se nunca tive dúvidas, por exemplo, em eleger Les Feuilles Mortes na interpretação de Yves Montand que lhe deu fama, noutros casos optei por uma versão que se tornou mais célebre ou simplesmente por ter encontrado um vídeo com maior qualidade sonora. Aconteceu por exemplo com Sea of Love, gravada originalmente em 1959 por Phil Phillips e que aqui trouxe na versão muito posterior de Cat Power. Houve outros casos, embora raros, em que optei pelas duas versões. Aconteceu com Les Moribonds, de Brel, e da versão norte-americana intitulada Seasons in the Sun, que sempre associarei ao quente Verão de 1974, interpretada por Terry Jacks. Ou o célebre My Way, popularizado por Frank Sinatra, que começou por ser Comme d' Habitude, na voz de Claude François.

Voltou a acontecer ontem, propositadamente, com At Last - fabulosa canção composta por Harry Warren e Mack Gordon que foi logo um êxito ao estrear num filme da 20th Century Fox em 1942. Chegou aqui nas suas duas melhores versões: a de Etta James em 1961 e a de Beyoncé, que entrou para a história ao abrilhantar o baile inaugural da presidência Obama, em 2009.

 

 

Nem sempre foi possível encontrar vídeos disponíveis na rede com o padrão estético que as circunstâncias exigiam. Acabou por imperar a tese do mal menor: julgo que os leitores terão relevado esta falha. Houve também problemas suscitados por direitos de autor: gostaria de ter trazido aqui mais temas do meu sempre idolatrado Bob Dylan, mas a rigorosa Sony ia-me informando que não estavam disponíveis. Os Supertramp, na sua composição original, permaneceram quase sempre inacessíveis pelo mesmo motivo.

Mas música nunca faltou por cá - de 1902 (o tema mais antigo) a 1999 (o mais recente); dos A-Ha aos Zombies, por ordem alfabética.

Os mais representados, julgo que sem surpresa, foram os Beatles (com 54 canções). Seguiram-se Chico Buarque (33), Frank Sinatra (29), Rolling Stones (21), Ella Fitzgerald (21), Caetano Veloso (16), Brel (16), Elvis Presley (15), Elis Regina (15), Beach Boys (14), Stevie Wonder (14), Nat King Cole (14), Dylan (14), Billie Holiday (14), Leonard Cohen (13), Ray Charles (13), Simon & Garfunkel (13), Lennon (13), Charles Aznavour (13) e Piaf (13).

Alguns dos intérpretes foram morrendo enquanto a série durou: Jean Ferrat, Lena Horne, Crispian St. Peters, Cesária Évora, Whitney Houston, Donna Summer, Robin Gibb (dos Bee Gees), Chavela Vargas, Andy Williams, Lou Reed, Joe Cocker, Natallie Cole, David Bowie, Black (que imortalizou o tema Wonderful Life). A quase todos foi possível prestar aqui, no dia imediato, a merecida homenagem musical.

 

 

Alguns leitores estranharam a ausência de portugueses neste longo desfile. É fácil de explicar: tenciono fazer outra série de Canções do Século só com vozes e temas nacionais. Tal como não excluo organizar outra dedicada apenas a temas instrumentais, que desta vez ficaram de fora: será então possível trazer aqui Glenn Miller, Santana, Astor Piazzolla, Egberto Gismonti, Benny Goodman, Anton Karas, John Coltrane, Miles Davis, Nino Rota, B. B. King, Paco de Lucia, Ry Cooder e tantos outros.

Do século XXI poderei ocupar-me mais tarde. Por agora suspendo as funções de DJ do nosso DELITO que durante tanto tempo desempenhei com gosto. Passo o testemunho ao Rui Herbon, que a partir da próxima madrugada tomará conta da emissão. Espero que acompanhem o próximo desfile musical com o mesmo interesse que me demonstraram durante estes seis anos. E agradeço a todos as preciosas sugestões que me foram dando.

Um blogue também serve para intercâmbio de conhecimentos. É útil e desejável aprendermos um pouco mais uns com os outros. E divertindo-nos de caminho, sempre que possível.

Foi o que aconteceu comigo. Não vou esquecer.

 


16 comentários

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De Anónimo a 31.01.2016 às 07:24

Foi óptimo acompanhar esta série nos últimos 3 anos e relembrar tantas das "minhas" canções ou descobrir outras que desconhecia em absoluto.
Gostei de adivinhar que a série terminaria com os Doors e com uma capicua, gostei mesmo.
Mas enganei-me quando pensei que vinham aí mini-séries de Instrumentais ou Duetos.
Tenho a certeza que vou gostar da Música Portuguesa do Rui Herbon.
:-) Antonieta
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De Pedro Correia a 31.01.2016 às 10:55

Parabéns pela sua intuição, Antonieta. De facto a série termina com uma capicua perfeita (como eu tanto gosto) e com 'The End'.
A minha próxima série agora vai esperar. Dou férias a mim próprio e aos leitores.
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De José da Xã a 31.01.2016 às 10:14

Amigo Pedro,

não me posso esquecer que foi por causa desta série que nos voltámos a reencontrar ao fim de muitos anos.
Uma séria fantástica e que me fez relembrar tantas e tão boas músicas que marcaram a minha vida.
Um obrigado muito sincero por esta partilha.
A gente lê-se por aí!
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De Pedro Correia a 31.01.2016 às 10:56

Meu caro: foi um imenso gosto partilhar estes 2222 dias de música com os leitores do DELITO - os melhores que há. Entre os quais naturalmente tu te incluis.
Um abraço amigo.
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De Ana a 31.01.2016 às 11:25

Uma excelente série que termina e que me deixa muita saudade. Foi uma companhia inexcedível que alargou os meus horizontes musicais quando me encaminhava para outras "paragens". As escolhas de hoje (fim) fazem jus ao que foi o percurso de toda a série. Acompanharei com expectativa e muito gosto todas as que o DO me apresentar. Bem hajam todos.
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De Pedro Correia a 31.01.2016 às 11:33

Muito obrigado pela companhia e pelo incentivo, Ana. Sempre pensei que a popularidade de um blogue se consolida em grande parte pela presença de rubricas fixas: os leitores apreciam alguma rotina e alguma previsibilidade que complementem a actualidade noticiosa, sempre imprevisível. Concebi as Canções do Século nesse contexto e também com o propósito de servir de separador dos dias: nos minutos subsequentes à meia-noite entrava um tema musical a anunciar um novo ciclo de 24 horas.
Essa tradição vai manter-se por cá. Espero que aprecie.
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De JSP a 31.01.2016 às 14:40

Curioso : apesar da diferença de idades, ao prazer do "convívio" musical surge um sentimento de cumplicidade , independentemente de gostos nem sempre coincidentes.
Permita que, além dos óbvios agradecimentos, no capítulo "instrumentistas" ( Anton Karas, quem se lembraria , para além dos tipos da minha geração - que não é o seu caso,evidetemente ) meta uma "cunha" a favor de Errol Garner e Peter Fountain...
Cpmts.
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De Pedro Correia a 31.01.2016 às 16:05

Grato fico eu pelas suas palavras, meu caro. Aproveito a promessa para aqui lançar em data a definir uma série de temas instrumentais do melhor que ficou gravado no século XX. Sim, Karas não pode faltar com a sua citara no belíssimo tema do 'Terceiro Homem'. Nem Teodorakis com o seu 'Zorba'. Nem Armstrong com o seu trompete. Nem Tommy Dorsey, Mike Oldfield, Jean-Michel Jarre, Morricone, Stan Getz, Maurice Jarre, Clifford Brown, Duke Ellington, Ernesto Lecuona. As suas "cunhas" são bem-vindas.
Abraço.
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De Ana a 31.01.2016 às 21:56

Caro Pedro, foi tão bom ir acompanhando as suas escolhas! Muito obrigada.
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De Pedro Correia a 31.01.2016 às 23:55

Eu é que agradeço, Ana. É muito bom ler palavras como as suas.
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De Carlos Azevedo a 01.02.2016 às 01:35

É um dos meus prazeres, a música. Felizmente, como se (ou)viu, há muita e boa. Abraço.
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De Pedro Correia a 01.02.2016 às 10:01

Pois, Carlos. Como se confirma pelo seu blogue, onde o bom gosto musical impera. Abraço.
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De Maria Dulce Fernandes a 01.02.2016 às 09:29

Parabéns pela longevidade, o empenho e a excelência da música com que diariamente nos presenteou. Acompanho o Delito desde 2012 como leitora e ouvinte. Todos os dias dou "um pulinho" para ler as "gordas" e ouvir a música do dia.
Conheci músicas novas para mim ou que das quais desconhecia as versões publicadas. Dei por mim a "cantar" canções que não me lembrava sequer do nome, mas que afinal estavam no ouvido bem guardadas.
Obrigada.
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De Pedro Correia a 01.02.2016 às 10:03

Gostei de saber, Dulce. A minha intenção também era essa: pôr os nossos leitores a trautear algumas músicas de que quase já nem se lembravam. Numa onda positiva: cada vez mais andamos necessitados delas.
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De Teresa Ribeiro a 02.02.2016 às 11:33

Acompanhei o nascimento desta criança, lembro-me que lhe destinaste 365 dias de vida, mas depressa percebeste que isso implicaria excluir forçosamente tantas e tão emblemáticas músicas que não resististe a deixar que ela própria determinasse a sua longevidade.
Deu-te muito trabalho, exigiu de ti muita disciplina e organização e por isso tiro-te o chapéu. Bela série. Aprendi muito com ela, trauteei-a muito, fez-me companhia e tirou das minhas gavetas muitas memórias saborosas. Ainda bem que passaste o testemunho ao Rui. Esse momento musical que faz a fronteira dos dias já faz parte da fisionomia do Delito.
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De Pedro Correia a 02.02.2016 às 18:38

Este extenso roteiro de canções também acompanhou de algum modo o meu percurso de vida ao longo destes anos, Teresa. Um percurso feito de luzes e sombras, alegrias e tristezas - desde logo com o desaparecimento de familiares muito queridos e amigos muito chegados. A música que por aqui foi passando reflectiu um pouco tudo isso, dia após dia - a chuva e o sol, a primavera e o outono, a bonança e a tempestade.

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