As canções da minha vida (9)
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JOÃO E MARIA
1977
Houve um tempo em que o País parava para ver telenovelas brasileiras. Tudo começou com a Gabriela, acalmados já os ardores revolucionários. A moda pegou e durante anos não falhámos as que iam sendo exibidas em doses sucessivas ainda a preto e branco na RTP, monopolista da transmissão televisiva em Portugal: O Casarão, O Astro, Dancin' Days, Pai Herói…
Recordo-me como se fosse hoje do genérico de Dancin' Days, telenovela urbana e contemporânea, muito diferente do imaginário de Jorge Amado: a canção-tema das Frenéticas irrompia no ecrã aproveitando a febre do disco sound então muito em voga, fazendo furor nas pistas de dança.
Durante meses a fio, o folhetim televisivo teve quase tanto sucesso entre nós como tivera pouco antes no Brasil, onde foi exibido entre Julho de 1978 e Janeiro de 1979. Em grande parte devido à qualidade do elenco, onde se destacavam Sónia Braga, António Fagundes, Joana Fomm, José Lewgoy, Reginaldo Faria, Pepita Rodríguez e Mário Lago. E também das canções nele inseridas, incluindo Antes que Aconteça, de Marília Barbosa, Outra Vez, de Márcio Lott, Amanhã, de Guilherme Arantes, e Copacabana, de Dick Farney.
Mas o tema que mais me prendeu foi uma valsinha que iluminava as cenas do par romântico juvenil. Ela, a Glória Pires, no seu primeiro papel de relevo na televisão. Ele, o malogrado Lauro Corona, em estreia absoluta na Globo. Nós tínhamos a idade deles: revíamo-nos naquelas personagens e naquelas situações. Ao som de João e Maria, fabuloso dueto entre Nara Leão e Chico Buarque.
Durante três décadas, este tema só teve música. Composta em 1947 pelo genial Sivuca, Severino Dias de Oliveira (1930-2006) – maestro, orquestrador, instrumentista, mago da guitarra e da sanfona. Reza a lenda que a melodia funcionou na perfeição para todo o tipo de serenatas do namoradeiro compositor, que em 1976 decidiu remetê-la a Chico Buarque. Era tempo de encontrar uma letra adequada – e quem melhor do que o criador de A Banda, Pedro Pedreiro e Construção para lhe colar uns versos?
Chico, hoje com 72 anos, fez mais que isso: criou uma das mais belas trovas de sempre da chamada música popular brasileira. Escrita como se fosse um diálogo entre duas crianças que não queriam tornar-se adultas, remetendo-nos para o imaginário dos irmãos Grimm.
O cantor explica assim como lhe surgiu a inspiração: «Ele [Sivuca] mandou uma fita com uma música que ele compôs em 1947, por aí. Eu falei: “Mas isso foi quando eu nasci.” A música tinha a minha idade. Quando eu fui fazer, a letra me remeteu obrigatoriamente pra um tema infantil. A letra saiu com cara de música infantil porque, simplesmente, na fitinha ele dizia: “Fiz essa música em 47.” Aí pensei: “Mas eu era criança…” e me levou pra aquilo.»
E levou muito bem. “Forma e conteúdo perfeitos”, na definição certeira de Nara Leão. O dueto com Chico teve estreia num disco dela surgido em 1977: Os Meus Amigos São um Barato – faixa sete do LP, dois minutos e 23 segundos de fascinantes jogos de palavras acompanhados pelo próprio Sivuca (tocando sanfona e violão), João Donato (teclado), Luizão Maia (contrabaixo), J. T. Meirelles (flauta) e Paulinho Braga (bateria).
Meses depois, transposto do disco original para a banda sonora da telenovela de Gilberto Braga, cujo LP vendeu quase um milhão de cópias, João e Maria passou a ser cantado no Brasil inteiro. E não tardou a cruzar o Atlântico, desembarcando em Portugal. Onde se tornou numa espécie de hino de uma geração incuravelmente romântica – aquela a que pertenço.
Geração hoje de adultos que jamais esquecem os seus dias de meninos prontos a enfrentar batalhões imaginários para impressionar princesas lindas de se admirar. Os anos voam mas o disco mantém-se a rodopiar ao ritmo da valsa lenta, clarão solar teimando em iluminar a noite que não tem mais fim.
«Agora eu era o herói / E o meu cavalo só falava inglês / A noiva do cowboy / Era você além das outras três. // Eu enfrentava os batalhões / Os alemães e seus canhões / Guardava o meu bodoque / E ensaiava um rock para as matinês. // Agora eu era o rei / Era o bedel e era também juiz / E pela minha lei / A gente era obrigado a ser feliz. // E você era a princesa / Que eu fiz coroar / E era tão linda de se admirar / Que andava nua pelo meu país.»

