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As canções da minha vida (5)

por Pedro Correia, em 03.03.17

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STRANGERS IN THE NIGHT

1966

 

Houve um tempo, ali pelos anos da adolescência, em que ganhei a mania de tocar piano. Inspirado num amigo que se ajeitava muito bem no teclado, aprendi a distinguir as notas, dediquei horas a estudar escalas e num par de meses comecei também a dar uns toques. Comprei então um livro com dezenas de partituras associadas a Frank Sinatra e adaptei-as mais por intuição do que por sabedoria aos meus incipientes conhecimentos na matéria.

Um dos primeiros temas que arrisquei foi Strangers in the Night. Desconhecendo, à época, que Sinatra sempre rogou pragas a esta canção, uma das mais populares do seu vasto repertório. Forçado a cantá-la, a pedido insistente do auditório em espectáculos ao vivo, era sempre em esforço que o fazia. Nunca descobri o motivo desta aversão: afinal, no início dos anos 50, o futuro intérprete de My Way cantou uma coisa intitulada Mama Will Bark, fazendo dueto com um cão a ladrar - algo que mantém lugar cativo na lista das piores cantigas do século XX.

 

Strangers in the Night nasceu em versão instrumental numa fita de espionagem britânica parcialmente rodada em Portugal, estreada em Março de 1966 sob o título original A Man Could Get Killed e entre nós intitulada Dança dos Diamantes. Com os nossos compatriotas Virgílio Teixeira, Glória de Matos e Óscar Acúrcio em papéis secundários. E a grega Melina Mercouri, como cabeça de cartaz, interpretando uma portuguesa.

Melina recusou cantar no filme o tema composto a dois tempos pelo croata Ivo Robic (1923-2000) e o alemão Bert Kaempfert (1923-1980), e pelos letristas americanos Charles Singleton (1913-1985) e Eddie Snyder (1919-2011), alegando – provavelmente com razão – que se adequava mais a uma voz masculina. E por esta via sinuosa a balada chegou ao crooner Jack Jones, o primeiro gravá-la. Três dias mais tarde, a 11 de Abril de 1966, seria a vez do registo vocal de Sinatra, com dois minutos e 25 segundos de duração.

Um mês depois, Strangers in the Night tornou-se um êxito instantâneo na primeira faixa do LP homónimo, que viria a ser o maior sucesso comercial de toda a longa discografia do intérprete de All the Way. Atingiu o primeiro lugar de vendas nos EUA e no Reino Unido, algo que não sucedia desde 1955 na carreira de Sinatra. Permaneceu 15 semanas no top discográfico e no ano seguinte valeu ao caprichoso intérprete o Grammy para melhor intérprete masculino de música popular, além de ser disco do ano e receber também um galardão para melhor arranjo musical.

 

De então para cá, Strangers in the Night tornou-se numa das canções mais tocadas em todo o mundo. Étrangers dans la Nuit em francês, No Puedo Olvidar em espanhol, Sola Più Che Mai em italiano, Fremde in der Nacht em alemão. E Estranhos numa Noite em português, na voz de Simone de Oliveira.

Nada disto contribuiu para que Sinatra se reconciliasse com ela. Uma história apócrifa, talvez com um fundo de verdade, garante que as sílabas finais da gravação original (“du-bi-du-bi-du”) foram improvisadas pelo cantor, com aparente intenção irónica, procurando marcar distância perante um tema incapaz de lhe causar um assomo de emoção.

Quando a lenda se torna realidade, imprime-se a lenda. O facto é que, tantos anos depois, continuo a assobiar com frequência esta balada, entretanto tornada intemporal. E às vezes ainda dou por mim tocando-a em pensamento novamente no piano adolescente entretanto desaparecido: “dó-ré-dó-ré-dó; ré-mi-ré-mi-ré; mi-fá-mi-fá-mi…”

«Something in your eyes / Was so inviting / Something in your smile / Was so exciting / Something in my heart / told me I must have you.»

 


6 comentários

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De Anónimo a 04.03.2017 às 02:02

Bert Kaempfert.
Ele e os letristas ganharam um Globo de Ouro pela canção.
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De Pedro Correia a 04.03.2017 às 09:08

Kaempfert, embora creditado como compositor oficial de 'Strangers in the Night', terá trabalhado a partir da partitura inicial do croata Robic, apontado como verdadeiro pai musical do tema.
O mais curioso, para mim, é esta associação inicial da balada a Portugal, num filme que começa e termina no aeroporto de Lisboa.
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De Anónimo a 04.03.2017 às 13:01

A pretensão de Robic continua por ser provada. Até porque há outros reclamantes.

O que fizeram a Jack Jones foi mauzinho. Mas há que tirar o chapéu à esperteza de Jimmy Bowen.
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De Pedro Correia a 04.03.2017 às 23:07

É verdade. Jack Jones foi fintado escassos três dias depois com a gravação confiada a Sinatra - de algum modo a versão definitiva, por mais que o intérprete de 'My Way' embirrasse com a canção.
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De Send in the clowns a 04.03.2017 às 15:59

Talvez inspirado pela opinião de Sinatra o então jovem programa Em Orbita atribuiu-lhe um prêmio.
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De Pedro Correia a 04.03.2017 às 23:08

Sinatra chamava-lhe "canção de engate entre dois maricas num bar".

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