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As canções da minha vida (16)

por Pedro Correia, em 23.05.20

Elis_Regina_-_Elis_1972[1].jpg

 

 ATRÁS DA PORTA

1972

 

É uma das mais pungentes canções alguma vez compostas neste nosso belo idioma que tão fervorosos amores já celebrou. Canção que nos fala do fogo de uma paixão ainda acesa mas já cercada pelas cinzas do desamor. Canção que a seu modo celebra a vida – no seu ardor, na sua dor, na sua chama, na sua lama.

Começou por ser apenas melodia, composta por Francis Hime. Num convívio febril de um apartamento carioca, com o calor a apelar à sede e esta a convocar de urgência um reforço alcoólico, a letra foi tomando corpo graças ao engenho repentista de Chico Buarque. Mais que uma letra, começava a nascer um poema para ser declamado em forma de canção.

«Quando olhaste bem nos olhos meus, / E o teu olhar era de adeus, / Juro que não acreditei. / Eu te estranhei, me debrucei sobre teu corpo / E duvidei, e me arrastei, e te arranhei, / E me agarrei nos teus cabelos, nos teus pelos, / Teu pijama, nos teus pés, ao pé da cama.»

 

Mas, nessa noite, a letra ficou incompleta. E sem a intervenção de Elis Regina talvez tivesse o destino de outras que nunca chegam a sair da gaveta, vítimas de atribuladas errâncias criativas. Chico parecia ter-se desinteressado do projecto: faltava-lhe inspiração ou motivação para o remate certeiro e definitivo.

A “Pimentinha” – metro e meio de talento histriónico e vocal, uma gaúcha de signo Carneiro que anos antes demandara o Rio com uma vontade imensa de conquistar o mundo – ouviu a partitura por aqueles dias, no rescaldo da ruptura do seu casamento com o compositor e produtor Ronaldo Bôscoli. E sentiu-se de imediato seduzida pela música, mesmo só com parte dos versos.

Marcou-se dia e hora para uma gravação. Só com voz e teclado, sendo a parte instrumental confiada ao pianista César Camargo Mariano. Por quem, naqueles dias, a cantora se apaixonara sem limite nem medida.

 

Conta quem sabe que aconteceu então um momento mágico. «César dispensou os músicos, pediu para todo mundo sair, para colocarem o piano no meio do estúdio, baixarem as luzes e deixarem só ele e Elis, para a gravação do piano e da voz-guia de Atrás da Porta. Extravasando seus sentimentos, misturando as dores da separação com as esperanças de um novo amor, Elis cantou, mesmo sem a segunda parte da letra, com extraordinária emoção, com a voz tremendo e intensa musicalidade. Na técnica, quando ela terminou, estavam todos mudos.»

Assim relata Nelson Motta, testemunha privilegiada daqueles anos dourados da música brasileira, nas páginas de Noites Tropicais, um dos meus livros de estimação. César e o produtor Roberto Menescal pegaram na fita e levaram-na a Chico Buarque, que se comoveu até às lágrimas. E, num impulso, logo ali terminou a letra. Adicionando-lhe os cinco versos finais que pouco depois, imortalizados em disco (oitava faixa do álbum Elis, dois minutos e 38 segundos), andariam de boca em boca, entoados por milhões de pessoas apaixonadas, com os mais diversos sotaques do português.

Enquanto a censura brasileira, obstinada e obtusa como é norma em todas as ditaduras, mandava substituir pelos por peito - o que explica a existência de duas versões da mesma letra.

 

Poeta-trovador, Chico Buarque muito cedo revelou o dom de escrever versos na óptica feminina – característica inovadora para a época. O que ficou evidente nas suas composições celebrizadas por vozes tão diferentes como as de Nara Leão (Com Açúcar, Com Afeto), Maria Bethânia (Olhos nos Olhos), Gal Costa (Folhetim) e Elba Ramalho (na magnífica e empolgante Palavra de Mulher).

Como se ele fosse qualquer delas. Como se ele as conhecesse tão bem ou ainda melhor por dentro, sem qualquer disfarce.

 

Ouvi pela primeira vez Atrás da Porta na versão de Bethânia, que me deixou quase indiferente. Faltava-lhe transportar para a canção toda a carga dramática que só Elis conseguiu colar-lhe. Rompendo a toada suave e sussurrante da bossa nova, tornando-se a intérprete definitiva de um tema que sem ela talvez nunca tivesse passado de esboço.

Por mais competentes que sejam as versões protagonizadas por Gal Costa e Ivete Sangalo, só para mencionar dois exemplos, mais ninguém conseguiu ser tão comovente, tão lancinante, tão inapelável. Mais ninguém teve o desassombro de desvendar sem um assomo de pudor a sua fragilidade emocional. Indiferente ao que pensassem ou ao que dissessem. Mais ninguém conseguiu fazer o que Elis fez: transformar um pranto íntimo numa litania com alcance universal. Em que se reviu tanta gente que, como ela, chorava baixinho atrás da porta.

«Elis Regina cantou a versão definitiva de uma das mais poderosas e dilacerantes letras de amor e ódio da música brasileira, produziu uma gravação antológica e emocionou o Brasil com sua arte.» São, de novo, palavras de Nelson Motta. Que subscrevo por inteiro enquanto a música vai soando. Capaz de nos trazer à tona mágoas de outrora, capaz de nos arrepiar mesmo num tórrido e sufocante dia de Verão.

 

«Dei pra maldizer o nosso lar / Pra sujar teu nome, te humilhar / E me vingar a qualquer preço / Te adorando pelo avesso / Pra mostrar que ainda sou tua.»

 


15 comentários

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De Anónimo a 23.05.2020 às 13:42

Excelente
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De alexandra g. a 24.05.2020 às 01:45

Por conta deste postal, vi e também revi videoclips e entrevistas (filhos incluídos).

Ela não morreu.

Obrigada, Pedro :)
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De Pedro Correia a 24.05.2020 às 23:52

Ainda bem que uma coisa levou à outra, Alexandra. Gostei de saber.
Toma lá uma cotovelada amistosa.
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De alexandra g. a 25.05.2020 às 15:21

O ritual do cumprimento tomou outras proporções: à cotovelada, somou-se a joelhada e a "calcanharada"

Foi assim que a mana S. e eu nos despedimos há uma semana, meses após o último encontro, quando tudo o que apetecia era um imenso, longo abraço e paletes de beijos

Quando conseguiremos integrar estes novos rituais de cumprimento, nos encontros?
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De Pedro Correia a 25.05.2020 às 15:31

Tudo muda vertiginosamente. Muitos actos rotineiros e banais de há uns meses ganham agora uma aura clandestina. Que nem na era das ditaduras se imaginava.
Nem quero imaginar onde estas novas "fugas à norma" poderão desembocar..

(Uma "calcanharada" daqui à tua mana S)
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De alexandra g. a 25.05.2020 às 15:39

Será dada

:)
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De Anónimo a 24.05.2020 às 08:51

Dois comentários para a dupla Elis & Chico é pouco, muito pouco... por onde andarão os comentadeiros aqui do blog?
Deixem-me adivinhar 🤔 talvez na praia...
(e como eu os invejo!)
Mas este foi um belo casamento musical, aliás como todos os casamentos musicais do Chico - que por acaso, e tal como Mr. Dylan, é do signo Gémeos.
Ah, mas para defender as mulheres Peixes está cá a Elis, a Alexandra g. (olá Alex!) e eu :))
🌻
Maria
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De Pedro Correia a 24.05.2020 às 23:53

Eu sou mais da tribo do Chico e do Bob, Maria. E do Paul (McCartney) e do João (Gilberto).
Grato pela visita. E pelas palavras amigas.
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De Anónimo a 25.05.2020 às 09:30

Pedro, da sua tribo convém não esquecer a Maria Bethânia que faz anos no mesmo dia do Paul McCartney.

Ah, mas os Piscis também têm o Beatle George Harrison e, só falando de música, posso acrescentar Piazzolla, David Gilmour, Jon Bon Jovi, Lou Reed, Nat King Cole, Liza Minnelli, Chris Martin e o nosso Rui Reininho... e ainda Chopin, Vivaldi e Ravel.

Boas notas musicais.
📻
Maria

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De Pedro Correia a 25.05.2020 às 15:37

Bethânia é uma das minhas divas do mundo mágico da canção. Mas muito mais solar do que lunar. Não por acaso, Elis bateu-a aos pontos em 'Atrás da Porta'.

Não fazia a menor ideia de que ela também era Gemini. Talvez isso explique aquela enorme carga empática do inesquecível álbum "Chico & Bethania ao Vivo" (no defunto Canecão).

Haverá acasos, sim. Mas nada acontece por acaso.

Grato pela revelação, Maria.
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De Cristina Filipe Nogueira a 24.05.2020 às 21:09

Sublime!
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De Pedro Correia a 24.05.2020 às 23:55

É, de facto, uma canção sublime. Na voz e na expressão de Elis, sobretudo. Nada de versões descafeinadas: com esta, não é possível.
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De Teresa Ribeiro a 25.05.2020 às 18:19

Arrepia-me sempre, nem que a oiça 20 vezes seguidas. E o teu post, já agora, está... perfeito!
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De Pedro Correia a 26.05.2020 às 11:19

Obrigado, Teresa. Um beijo grande.

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