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As canções da minha vida (11)

por Pedro Correia, em 03.04.17

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WINCHESTER CATHEDRAL

1966

 

Vivíamos em Viana do Castelo, o meu pai chegara pouco antes de Oxford, onde leccionara dois anos lectivos. À tarde, em casa, dava explicações de inglês a um grupo de alunos. Eu, miúdo, assistia a esses alegres diálogos, desenrolados no idioma das séries televisivas de que mais gostava. Achava tudo muito mais interessante do que as aulas na escola primária de Darque, onde decorriam as minhas intermináveis manhãs.

Desde logo porque nessas tardes de explicações lá em casa, na Rua do Gontim, havia música. De vez em quando, no prato do gira-discos, rodava um disco de 45 rotações. As letras das canções eram depois dissecadas e comentadas em grupo. Assim aqueles adolescentes iam consolidando os seus conhecimentos. Assim eu – intruso de palmo e meio – ia fixando as primeiras palavras em inglês, todas monossilábicas. ‘Bag’, ‘car’, ‘dog’, ‘boy’, 'song'…

 

Guardo memória difusa dessas cantigas. Excepto de uma – a que achei mais original e divertida. De tal maneira que guardei a letra anotada por alguém numa folha que ali passava de mão em mão. Já no meu quarto, procurei decifrá-la, confesso que sem grande sucesso.

Era Winchester Cathedral. Uma cançoneta de vaudeville assumidamente demodée, composta como assumido pastiche das revistas da década de 20 por Geoffrey Stephens, autor de programas humorísticos, rábulas radiofónicas e ocasionais sucessos do teatro musicado. Levava-se tão pouco a sério que jamais antecipou o êxito planetário deste seu tema, um dos mais tocados em 1966 nas rádios de quase todo o mundo.

A brincadeira era tão óbvia que foi preciso improvisar uma banda quase tão fictícia como a Sergeant Pepper's Lonely Hearts Club Band que os Beatles celebrizariam um ano mais tarde. The New Vaudeville Band, reunida para a gravação do single nesse mês de Junho, tinha o fascínio do seu próprio amadorismo nesta homenagem serôdia aos velhos salões de dança, acentuada pelos traços caricaturais do vocalista John Carter, usando um megafone em sátira aos cantores da era anterior à generalização do microfone – o mais célebre dos quais foi Rudy Vallee.

 

Pegou de estaca. De tal maneira que nesse final de 1966 atingiu o quarto lugar nos tops britânicos e cruzou o Atlântico, onde chegaria à primeira posição nas vendas, competindo em Dezembro com Good Vibrations, dos Beach Boys. Pouco depois receberia o Grammy como melhor canção do ano. Vendeu mais de três milhões de cópias em todos os continentes. E teve inúmeras versões internacionais, incluindo uma portuguesa, do Quinteto Académico.

De repente, a música parecia estar em todo o lado. Uma versão quase simultânea interpretada por Dana Rollin foi igualmente um sucesso de vendas. Os Shadows e a orquestra de James Last fizeram versões instrumentais do tema, cantado em 1967 também por Petula Clark, Ray ConniffLawrence Welk e Dizzy Gillespie. Até Frank Sinatra o gravou, embora sem resultados brilhantes.

Stephens, hoje com 82 anos, nem queria acreditar que a sua cantilena de dois minutos e 20 segundos, concebida quando mirava uma imagem da  Catedral de Winchester impressa num calendário de parede, havia alcançado aquela repercussão, tornando-se um ícone da música popular. De tal modo que o próprio Rudy Vallee, remota  pop star do fonógrafo e da telefonia, também fez questão de interpretar o tema em disco.

Fechava-se um ciclo: o homenageado associava-se assim à homenagem.

 

Há meses, pegando num livro antigo, saltou-me lá de dentro a folha já amarelada com a letra de Winchester Cathedral. E logo esse pedaço de papel me devolveu à soalheira sala daquele segundo andar em Viana, às alegres aulas recitadas e cantaroladas em inglês, ao Pai exercendo aquilo que mais gostou de fazer na vida - ensinar.

As canções também têm este dom: são capazes de nos transportar a qualquer momento a um passado que pensávamos definitivamente sepultado na memória. Como escreveu Fernando Pessoa, pela pena do seu heterónimo Ricardo Reis, "em tudo quanto olhei fiquei em parte".

Substitua-se neste caso "olhei" por "escutei": vem a dar no mesmo.

 

«Winchester Cathedral / You're bringing me down / You stood and you watched as / My baby left town. // You could have done something / But you didn't try / You didn't do nothing / You let her walk by.»

 


10 comentários

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De Maria Dulce Fernandes a 03.04.2017 às 17:30

Grandes lembranças
Acredita que se primeira vez que ouvi está música foi interpretada pelo Quinteto Académico?
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De Pedro Correia a 03.04.2017 às 17:41

Bem lembrado, Dulce. Aproveitei para acrescentar no texto, com a devida vénia.
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De Alexandre Policarpo a 03.04.2017 às 19:55

"Em tudo quanto escutei, e gostei, fiquei em parte", podia ser a história da minha vida, tal a importância que a musica tem tido para mim durante os meus já longos 65 anos.
"Winchester Cathedral" foi um fenómeno. O "assobio" passou a estar na moda e no ano seguinte apareceu isto que também teve um exito enorme.

https://www.youtube.com/watch?v=7fRS5nxYxoo
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De Pedro Correia a 03.04.2017 às 21:43

Uau. Há quanto tempo eu não ouvia isto! Tem razão: a moda do assobio foi relançada precisamente pela banda que interpretou 'Winchester Cathedral'.
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De fatima MP a 04.04.2017 às 16:53

Grande música, também para mim, pelo que me devolve de lembranças felizes - tempos, lugares, pessoas, sonhos, o gosto irrepetível da 1ª vez para tudo. Grandes músicos. Grande Quinteto Académico!
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De Pedro Correia a 04.04.2017 às 17:23

A música funciona como uma âncora, Fátima. Convoca-nos memórias inesquecíveis, por vezes da forma mais inesperada. E é quase sempre muito bom.
Daí ter nascido esta série de textos. Pretendo que seja longa e que possa servir para partilhar memórias com os leitores do DELITO.
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De singularis alentejanus a 05.04.2017 às 21:46

Caro Pedro, em alentejano era assim:

Deixaste a Cassilda
No Largo do Rato
E ficaste à espera
Dela ter um gaito
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De Pedro Correia a 05.04.2017 às 23:05


(grande poeta é o povo...)
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De Ana Duarte a 07.04.2017 às 17:13

Gostei tanto deste seu texto! Parece que estou a ver esse andar soalheiro em Viana...
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De Pedro Correia a 07.04.2017 às 17:50

Obrigado, Ana. Gosto muito de ver-te por cá outra vez.

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