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As águas em Moçambique

por jpt, em 20.03.19

beira.jpg

Não tenho quaisquer informações especiais sobre Moçambique. Recebo imensas mensagens de amigos de Portugal, que bem me sabem na Bélgica, formas solidárias percebo-o, perguntando-me se os "meus" por lá estão bem. Conheço pouca gente na Beira, os tais "meus" estão a sul e a norte. Esses estão a salvo, felizmente. 

Quando há notícias em Portugal sobre Moçambique sempre as relativizo, aprendi isso durante 20 anos, da tendência para o exagero. E da incapacidade para se compreender as enormes distâncias.

Mas esse relativizar não conta quando o assunto são as águas do país. Vivemos as cheias de 2000 em Maputo, quando a cidade foi sitiada pelas águas. Lembro-me do ar abismado da minha mulher, quando regressou do Limpopo alagado, inserida numa missão de ajuda. E de, semanas depois, termos passado Xai-Xai, onde as marcas da água eram visíveis nos prédios, tão distantes e tão elevados face ao longínquo leito do rio. Como fora possível tamanha cheia? Depois, em 2001, vivi as cheias da bacia do Zambeze (deixei no meu blog uma crónica que não quis escatológica ou demasiadamente realista) . E em 2007 trabalhei nos campos de refugiados de outras cheias do Zambeze (do meu relatório fez-se um livrito).

E nunca tive palavras para descrever o abissal daquelas cheias. Tenho, sim, uma certeza. É que se as palavras são insuficientes para transmitir a imensidão das desgraças provocadas, também o são as imagens, fotográficas ou em movimento. As cheias e as desgraças que causam têm ali dimensões indizíveis e "trans-visíveis", se me faço compreender. 

Do que sei agora é que tudo se associa: um ciclone terrível, a bater a belíssima Beira, essa que um dia foi construída, por óbvio erro, abaixo da linha de água. Enormes chuvas a montante, a tumultuar um feixe de rios. A maré equinocial, cujo cume será hoje, ao que me dizem. E a prevista abertura das barragens nos países vizinhos, que estão nos limites. Não consigo prever pior cenário (a não ser uma ruptura de barragens, longe vá o agoiro).

Nos últimos dias aconteceu um desastre terrível no centro de Moçambique. Mas temo que nos próximos dias ainda venha a piorar. Eu sou ateu, não rezo. Nunca. Apenas vou à varanda e fumo. E espero que o futuro imediato não seja tão mau como ameaça. E comovo-me, num renitente pessimismo. E blogo.

É necessário acudir. E será necessário reconstruir. "Cuidar dos vivos e (talvez, pois tantos deles desaparecidos) enterrar os mortos". Tudo isso em condições tétricas. E num país que é paupérrimo. Se puderem, por favor, ajudem. Por pouco que seja, uma mera pequena transferência para uma qualquer instituição. Não evitará o inimaginável. Mas sarará um pouco. Os efeitos do verdadeiro horror.

Adenda: aqui, no portal da SAPO, encontram-se informações sobre instituições envolvidas na ajuda de emergência, e formas de contribuir.

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8 comentários

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De Luís Lavoura a 20.03.2019 às 11:40

Estas cheias fizeram-me lembrar as do ciclone Katrina em Nova Orleães. É que, tal como nesse caso, também agora só se toma conhecimento da verdadeira dimensão do desastre uns dias após ele ter ocorrido - porque as ligações ficaram cortadas e ninguém pôde ir ver.

É interessante saber que, num país com propensão para ciclones, muitas pessoas cobrem as suas casas com placas de zinco - que num ciclone voam e deixam a casa destapada. Faz-me lembrar aqueles que, em Portugal, em zonas sujeitas a incêndios cobrem as suas casas com telhados assentes em vigas de madeira - que num incêndio ardem e colapsam, pegando fogo à casa toda.
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De Anónimo a 21.03.2019 às 06:50

Sofala, terra de tormentos.
https://youtu.be/80j4jz1-uT0
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De jpt a 22.03.2019 às 02:56

muito bem lembrado, obrigado
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De Anónimo a 21.03.2019 às 10:38

Um abraço, jpt. Também conheci a Beira, e bem, era o ano de 1975. E noutras circunstâncias, certamente. Durante algum tempo foi a minha casa, o primeiro lugar onde dormi em África. Não a reconheço em nenhuma das fotografias deste desastre. Mas a vida tem muita força. Virá à tona para voltar a ser uma cidade feliz.
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De jpt a 22.03.2019 às 02:53

Será reconstruída. Mas foi arrasada ao ser alagada
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De alexandra g. a 22.03.2019 às 00:36

O Cabrita e a família?
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De jpt a 22.03.2019 às 02:52

Em Maputo, a mais de 1000 kms. Ele continua a escrever, a exaurir o teclado.
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De alexandra g. a 22.03.2019 às 21:21

Obrigada, jpt, que ele foi sempre pessoa que gostei de conhecer (mais ou menos no tempo do Pedro Correia) e ainda (ele talvez já não o recorde, mas tinha terminado o curso de realização de cinema, exactamente o que eu queria, desde os 16 anos, e ele ofereceu o seu apoio para as entrevistas, etc., jamais esqueci tamanha simpatia).

Sobre a escrita, creio que foi sempre assim, mas à época sem teclado, sempre assoberbando folhas & folhas com palavras & mais palavras, e mal conversámos :)

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