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Sindika Dokolo apresenta a maior coleção de arte africana no Porto (24 Fevereiro, 2015)

(Memória - até intimista - por causa do que está a acontecer por aí).
 
Quando em 15 voltei a Portugal o que mais me custou não foi o frio, do qual me desabituara. Foi o silêncio. O próprio. Passara 15 anos a leccionar, a co-organizar seminários, a participar noutros, a comentar e debater. Assim a falar, muito. Quando regressei isso acabou. Não podia falar ("não tens doutoramento, não podes falar", é assim mesmo, são as regras, é o mercado laboral). Podia assistir mas não convinha contrapor, discordar, esmiuçar, que reina a cultura do silêncio defronte e da maledicência a posteriori ("ela é histérica", "ele é estúpido", diz-se dos colegas sem qualquer rebuço), associada à ofensa sentida se alguém questiona o que se disse. Eu sei que dizer isto provoca noutros a ideia, aqui habitual, do "este está ressabiado, ressentido". Mas estão errados. É apenas observação participante.
 
Pronto, ficou-me o silêncio próprio. Foi uma espécie de envelhecer (um pouco) avant la lettre. Um gajo é velho e ninguém o ouve, foi isso mesmo. Neste caso ainda com lucidez (presunção e água benta ...) para o perceber, e saber que será assim para a frente. Ultrapassei isso, ganhei o hábito de falar sozinho - falo imenso sozinho. A minha filha preocupa-se com isso, teme ser sintoma de algo mais. É nova demais para perceber que é apenas uma escapatória. Um gajo tem que falar, tem o vício, e se não tem audiência fala sozinho. Mal seria se eu começasse a fazer podcasts ou lá como se diz, e a metê-los no facebook.
 
Bem, vem esta memória a propósito disto: o silêncio não foi total. Nos primeiros anos ainda falei um bocadinho. Almas caridosas convidaram-me para leccionar lá na Invicta Porto, num mestrado ("éh pá, não tenho doutoramento", avisei. "Anda na mesma", magnanimizaram), durante dois anos. Lá fui, falar como Amador (no velho e nobre sentido do termo). De literatura africana. De arte moderna e contemporânea africana. Não sei como terá corrido (ao longo dos anos tive alunos que de mim gostaram, outros aos quais fui indiferente, outros que não gostaram. Haverá piores do que eu, há melhores, há muitos mais ou menos na mesma. É como é). Mas, repito, fui lá à terra do meu pai, à universidade do meu pai - e disso gostei muito -, falar de literatura africana e de arte africana.
 
Foi na época em que o Porto estava todo aperaltado para visitar a exposição - bem boa, digo-vos - da colecção de arte africana contemporânea de Sindika Dokolo, genro de José Eduardo dos Santos. Gostei de visitar, pausadamente. E deu-me muito, imenso, jeito, pois recomendei-a vivamente aos escassíssimos alunos.
 
Então sorri, com o fenómeno. A gente não avalia e frui a arte devido aos mecenas que lhe coube. Mas avalia o fenómeno da recepção. Sorri ao Porto. A Portugal.
 
E falei, sozinho. Continuo a falar sozinho. A Carolina não gosta, teme que seja sintoma de algo. E é, minha querida, é sintoma de ser patrício destes tipos.

 


21 comentários

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De Anónimo a 26.01.2020 às 11:58

Eu também falo só. Dizem que é melhor, mais saudável do que ir ao psicólogo. É uma excelente terapia e é um escape à depressão. Cantar e falar . Além disso ninguém nos contraria…
E não há solidão que chegue...
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De jpt a 26.01.2020 às 20:44

Eu cantar é que não, que nem eu me consigo ouvir
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De V. a 26.01.2020 às 12:02

Não nos colonizem: as imagens que estão ali em cima são "arte europeia", são quadros, com toda a tradição pictórica retratística que vem desde a idade medieval. São retratos, eventualmente feitos por artistas africanos — o que está muito bem, aliás. Mas "Arte africana" é outra coisa... Olha, perguntem ao Guimarães para ver o que ele diz.

Por causa dos activismos, dos facebooks e de outras merdas sem nome andamos a importar as adjectivações facilitistas e superficiais dos americanos e dos jornalistas mas na verdade, em artes plásticas, as coisas têm outra linhagem e outras razões de ser.

;)
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De jpt a 26.01.2020 às 20:47

Não, V. O que está acima é arte contemporânea africana. Como poderia ser arte contemporânea americana, asiática. Ou portuguesa. Ou azeri, belga, catalã, dinamarquesa, eslovaca, francesa, g ....
Outra coisa, a qual poderia ser discutida, é se o título fosse arte africana contemporânea. E não é um mero trocadilho.
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De V. a 27.01.2020 às 20:51

ok, juro que o contemporânea ali no meio me escapou... li arte africana apenas. My bad.
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De Anónimo a 28.01.2020 às 00:55

Precisamente V.

Aquilo é arte, não sei o que tem de Africana.
Também porque é que se tem de chamar literatura Africana? Não pode ser só literatura a não ser que tenha um cunho especialmente vincado de alguma cultura, mas África tem tantas. Será para vender exotismo junto com comodismo e conveniência?

lucklucky
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De Anónimo a 26.01.2020 às 14:44

Nem todos fomos Retornados, porque quem foi retornado, só não falou quando não o deixaram falar.

No meu caso, sempre falei mas ninguém me ouvia, ou não entendia o que eu dizia.

Até me chamavam parvo.

E, também algumas vezes me vi a falar sozinho mas por falta de ouvintes.
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De jpt a 26.01.2020 às 20:51

Eu não sou "retornado" - nem uso o termo como des/valorizador. Apenas como descritivo, utilizando-o, e com ressalva, dado o hábito português. Sou um emigrante torna-viagem, com passos biográficos noutra era. Quanto ao que diz, o silêncio dos "retornados" (que não foi absoluto, e que não foram alvo de uma censura institucional, mas sim da falta de atenção da sociedade, apressada em esquecer e em invectivar os "outros") também se casou com algo que já nem nos lembramos: a ausência destes meios de expressão, que tantos querem menorizar, as várias plataformas de internet.
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De Manuel a 26.01.2020 às 16:17

"convidaram-me para leccionar lá na Invicta Porto, num mestrado ("éh pá, não tenho doutoramento", avisei. "Anda na mesma", " Desde que se tenham cunhas os graus não interessam. Veja o caso do Relvas.
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De jpt a 26.01.2020 às 20:51

Que coisa, Manuel, mesmo, que coisa ...
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De Bea a 26.01.2020 às 21:27

Pelo que li acima não é o único a falar sozinho e, diga-se, quase desde sempre me lembro de o fazer. É um facto, a idade aumenta-nos a conversa. E não julgo que seja doença:). Acho até saudável; como alguém diz acima, ninguém nos contraria.
Este é um país de doutores e professores doutores. O resto do pessoal, mesmo que tenha valor, se quer falar e sabe fazê-lo, é melhor ir tirar o doutoramento:). É assim, salvo raras excepções. Sei lá porquê. Mas é.
Não sei absolutamente nada de arte africana. Se quiser dar um curso, avisa, ok?
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De Manuel a 26.01.2020 às 21:51

"Este é um país de doutores e professores doutores." Não é verdade. Em número de doutores e professores doutores estamos muito abaixo dos países europeus.
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De jpt a 27.01.2020 às 00:02

Tem razão, Manuel. Há aqui duas coisas: um antigo traço social, o "respeitinho" ao Sô Doutor (e muito a cultura elitista avessa aos "futricas", aquilo da infalibilidade do Senhor Professor). Julgo, no registo de "achar" pois não tenho empiria apreendida suficiente, que esses traços estão em franca redução - massificação da educação secundária, generalização do ensino superior. E "precarização"/"proletarização"/"lumpenização" dos licenciados. Tudo isso são factores que reduzem as velhas hierarquias.

Bea, nada tenho (mesmo nada ) contra os graus académicos. São passos normais, necessários, produtivos, nas carreiras profissionais, de investigadores e investigadores/professores. Tive um rumo biográfico diferente, vivendo num país onde por várias razões (uma das quais é mesmo a juventude do tecido universitário), não cumpri esses passos. Assim foi, sem lamento. Mas permite-me um particular ponto de tomada de vista. Um poucochinho dessa vista está neste postal, apenas isso.
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De Bea a 27.01.2020 às 16:33

Fiquei sabendo. Já me parecia que seria assim pelo que contou no post. Mas há alguém que seja contra os graus académicos? pelo contrário, como bem diz, são necessários e nada de voltar ao antigamente. Parece-me que o que defende no post é a sabedoria. E quem a possui devia fazer-se ouvir, sim. Com ou sem grau académico. Sophia não concluiu a licenciatura, terá por isso menos valor a sua poesia, ou será ela menos sábia que qualquer licenciado?
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De Bea a 27.01.2020 às 16:21

mas quem é que referiu a quantidade Manuel?!
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De Manuel a 27.01.2020 às 18:40

"mas quem é que referiu a quantidade Manuel?!" Parece que ninguém. Somos pouco adeptos do rigor.
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De Bea a 27.01.2020 às 22:59

é pena que não me tenha feito entender. Mas é desperdício insistir.
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De marina a 26.01.2020 às 22:21

que bem que soliloquia -:)
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De jpt a 27.01.2020 às 00:03

também sorrio ao seu comentário
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De Anónimo a 28.01.2020 às 00:30

Estas figuras pintadas fazem-me lembrar mulheres mutiladas, a derreterem, pelos raios atómicos lá das Áfricas. Coitadas…
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De Anónimo a 28.01.2020 às 20:40

Que bom. Quando o Senhor fala em silêncio escreve tão bem...

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