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Arrogância

por Pedro Correia, em 01.03.15

Tavares_001[1].jpgO Público divulga hoje uma entrevista de três(!) páginas com Rui Tavares, líder do Livre, que deixa bem evidente um dos maiores pecados da esquerda portuguesa situada algures entre o PS e o PCP: a arrogância intelectual.

Tavares imagina o seu micropartido como peça essencial no novo tabuleiro político português: «O Livre tem como objectivo ter um programa próprio, um discurso próprio, mobilizar o seu eleitorado e governar. Em maioria absoluta, em teoria, ou governar com quem nós considerarmos que são os partidos nossos congéneres.» Mas que traz afinal este partido de diferente ao espectro partidário nacional? «Havia causas que não tinham representação autónoma: a ecologia, as liberdades, a democracia europeia.»

Extraordinário. Foi preciso o Livre aparecer para surgir tudo isto: ninguém antes se tinha lembrado de tão magnos temas. Lamentavelmente incompreendido, Tavares permanece nas sondagens atrás de António Marinho e Pinto, que se prepara para repetir nas próximas legislativas, agora sob a sigla PDR, o brilharete alcançado em 2014 nas europeias com o MPT.

Quando os entrevistadores - e bem - o questionam sobre o que originou os dois eurodeputados eleitos pelo MPT, Tavares não esconde o seu imenso desdém pelo fenómeno. Com estas palavras bem reveladoras: «Atenção mediática nas televisões generalistas. Marinho e Pinto é uma figura de programas da manhã.»

Temos, portanto, um representante da esquerda "genuína", que se preocupa com os pobres e remediados, a referir-se com sobranceria aos «programas da manhã» que as classes mais desfavorecidas gostam de ver e acompanham com interesse nos canais generalistas.

Podia ser mais uma frase inócua, entre tantas outras contidas nesta entrevista. Mas é afinal bem reveladora sobre a enorme distância a que algumas cabeças pensantes da esquerda portuguesa se encontram do povo para o qual dizem falar.

Não admira que exista também um abismo entre aquilo que ambicionam e o que depois conseguem recolher nas urnas. Nada acontece por acaso.


32 comentários

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De Miragem a 01.03.2015 às 23:37

O problema não é esse, o problema é a direita incutir nas pessoas que a esquerda não é solução e assim, vão os portugueses pensando que a esquerda são uns faz de conta e a direita, essa sim, essa, é que tem soluções, é por isso mesmo que nada acontece por acaso. A arrogância, está bem expressa na direita que mostra descaradamente que não sabe governar e esses sim, estão cheios de frases e atitudes inqualificáveis as quais, nos levam a ter vergonha de quem nos governa. Grande distância, existe entre os cidadãos e a direita a qual nos tem conduzido ao descalabro em que mergulhámos.
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De Luis Barreiro a 02.03.2015 às 14:02

Concordo, só falta mesmo é a realidade adaptar-se ao teu discurso.
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De Miguel R a 02.03.2015 às 19:23

E tu saíste de onde? O problema é exactamente esse, o povo não é, nem quer aquilo que a esquerda acha que quer. Pelo menos, de onde eu venho, do Norte Litoral. É o dinheiro ao final do mês que conta! O resto é folclore. Até no PS que aprova o casamento gay, a adopção e o aborto são capazes de votar. E depois existe muito voto por "claque". És do A ou do B porque é o socialmente mais aceite. Acaso Cavaco Silva teve o sucesso que teve pelos seus belos discursos...
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De jo a 01.03.2015 às 23:43

Estranho era alguém fazer um partido porque achava que está bem representado noutro.
Antes estas vacuidades que as contagens de votos que se vêm nos partidos do "arco da governação". Algo do género: Possuímos tantos deputados, logo se nos coligarmos com X temos maioria e podemos governar, se não for possível coligamo-nos com Y e governamo-nos à mesma.
A esquerda não tem grandes idéias, mas a direita parece que empanou no "ir além da troika" versus "o ficar aquém da troika".
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De Pedro Correia a 12.03.2015 às 14:08

A esquerda "radical" alimenta-se de sucessivas cisões. Não ambiciona o poder mas o anti-poder. De cisão em cisão, sem decisão final.
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De Vento a 01.03.2015 às 23:45

Concordo com a sua reflexão. E acrescento, existe uma sobranceria na esquerda que se equipara de certa forma à constante evocação que a direita faz de sua raízes humildes, que muitas vezes evoca, enaltecendo-a, para poder disfarçar o incómodo que por ela sente e até mesmo ostentar um sucesso que não possui.
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De Pedro Correia a 02.03.2015 às 12:13

Nem toda a esquerda é assim, claro. Mas há uma esquerda altissonante e proclamativa, que adora monopolizar palavras como democracia e liberdade sem reparar sequer na imensa arrogância desse gesto.
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De Bic Laranja a 02.03.2015 às 00:45

Este pobre diabo não passa dum pequeno livro do grande terramoto... marxista. Nem para a historiografia de ocasião teve fôlego.
Cumpts.
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De lucklucky a 02.03.2015 às 04:32

Ser de Esquerda é ser Aristocrata.
E a maneira mais rápida de aceder à Aristocracia é pelo Socialismo. A Burguesia já o percebeu. Vastos privilégios no Estado( e associados) com segurança do lugar conquistado.
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De Livre Desses Dois a 02.03.2015 às 08:29

Há poucos dias, deparei com esse sujeito (mais duas ou três pessoas com bandeirinhas) a ser filmado não longe da AR - uma cena ao estilo de grandiosa manif do POUS.

Mas também acho estranho que um deputado europeu possa ser presença assídua em programas da manhã...
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De Pedro Correia a 02.03.2015 às 12:15

Presumi, pelo contexto, que se referia à presença de Marinho e Pinto nesses programas antes de ser eleito deputado ao Parlamento Europeu.
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De Livre do Marinho a 02.03.2015 às 12:45

Ah, então está bem. Desde que é deputado europeu, tem-se dedicado ao seu novo partido, após o divórcio do movimento partido, e não podia perder o seu tempo com programas da manhã dedicados a donas-de-casa.
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De Pedro Correia a 12.03.2015 às 14:07

Mas manhã sem Marinho é menos manhã (olha, inventei um 'slogan').
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De Luís Lavoura a 02.03.2015 às 09:56

referir-se com sobranceria aos «programas da manhã»

Não vejo sobranceria nenhuma. Numa entrevista transcrita, é impossível ver se Tavares falou dos "programas da manhã" com sobranceria ou com qualquer outro sentimento (ou sem sentimento nenhum).

"Programas da manhã" são isso mesmo: programas que são transmitidos durante as manhãs. Não há sobranceria nenhuma em designá-los dessa forma.
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De José Manuel Faria a 02.03.2015 às 10:52

Arrogância? O LIVRE é o partido mais aberto e livre de Portugal. São os militantes, simpatizantes ou o cidadão que se identifica com o programa que podem ser candidatos e votarem em nomes constantes das listas de todos os círculos. Aqui não há chefes nem distritais a identificar/aprovar os candidatos - é o cidadão que escolhe.
O Pedro pode ser o 1º candidato por Lisboa, tem de ter mais votos que os demais candidatos.
Não é o Comité Central nem as Comissões Politicas concelhias/distritais ou nacional que determinam os lugares na composição das listas.
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De Pedro Correia a 02.03.2015 às 12:11

Não questiono minimamente a democracia interna do Livre, José Manuel. Não tenho a menor dúvida de que é exemplar nessa matéria. Questiono o modo depreciativo como Rui Tavares se refere aos "programas da manhã" nas televisões e aos políticos que os frequentam. Como se o Livre, para estar próximo do povo, não precisasse de dar esse passo.
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De l.rodrigues a 02.03.2015 às 12:33

Acho que o que Rui Tavares quer dizer é que MP teve a votação que teve por ser uma cara da TV. Isso é bem diferente de ser um partido que comunica com o povo nos seus espaços televisivos. Ele primeiro foi "celebridade" e depois aproveitou essa celebridade para se projectar politicamente. O resultado é partidos de aluguer primeiro e microcéfalos depois.

Creio que o Livre está longe de ser um culto de uma personalidade. E nem será portanto esse o seu objectivo.
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De T a 02.03.2015 às 13:50

E o Rui Tavares não é um produto dos media? Que representatividade tem ele fora do BE? Zero. Mas é convidado a comentar isto e aquilo, TVs, entrevistas de não sei quantas páginas nos jornais, é uma festa. Cada um escolhe os palcos que quer, ou alias, cada um está sujeito aos palcos que os querem, ele tem sorte de ainda o quererem.
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De jaja a 02.03.2015 às 16:42

que partido aberto qual quê. há a treta dos avales para poder se candidatar. é um partido onde a cunha está legalizada. um aval para uma pessoa se candidatar não passa de uma cunha informalizada.
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De José a 02.03.2015 às 12:50

Uma canseira, estes intelectualóides de esquerda!

É que para alguns destes srs, só os que partilham as suas ideias é que são gente os outros não contam. E, só para contextualizar(?) como agora abusadamente se diz, "os programas da manhã" amparam a solidão de muitos e muitos dos seus concidadãos, sr euro deputado.
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De Pedro Correia a 18.03.2015 às 15:16

Haverá cidadãos de primeira e de segunda? Certos arautos da "igualdade" parecem pressupor que sim.
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De Panda Bera a 02.03.2015 às 13:10

Épá, o Livre tem como objectivo ter um programa próprio? E governar? Xi... Qualquer dia, declara que tem como objectivo governar em maioria abissoluta (Novo Acordo Ortográfico) com esse famoso programa próprio, particular e intransmissível...

Em qualquer caso, entre o Livre e o PDR do Marinho, mil milhares de milhões de vezes o Livre.
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De Pedro Correia a 18.03.2015 às 15:14

Para já, encontra-se em minoria absoluta.
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De Marquês Barão a 02.03.2015 às 13:24

«O Livre tem como objectivo ter um programa próprio, um discurso próprio, mobilizar o seu eleitorado e governar. Em maioria absoluta, em teoria, ou governar com quem nós considerarmos que são os partidos nossos congéneres.»

Mais uma vez faço-me de jornalista, e descontando as contradições chocantes que ressaltam deste discurso parece que emprestado, pergunto:

1-Se o Livre não tem um programa próprio de quem é o programa que agora está a usar? 2-Se o que vão dizendo não é o próprio discurso falam por quem? 3-Mobilizar o seu eleitorado que ninguém conhece não poderá ser abusivamente curto para governar? 4-Quem são os partidos congéneres com o objectivo de governar em maioria absoluta mesmo em teoria?

Ficar-mos a saber não ocupa lugar.
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De Pedro Correia a 18.03.2015 às 15:10

Ter como objectivo produzir um programa próprio é, convenhamos, um axioma digno do Senhor de La Palice.

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