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Delito de Opinião

Aprender com um oleiro

Paulo Sousa, 23.09.25

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O senhor Ilídio já nos deixou há uns bons anos. Trabalhou até para além dos seus oitenta anos, no ofício de oleiro que aprendeu em criança.

Um dia visitei a sua olaria na Quinta dos Ricos Vales, também conhecida por aqui como Quinta dos Ricos Vais. Com o andar dos anos, uma fina camada de barro cobrira todas as superfícies visíveis daquele espaço, tornando-o num local castanho. Apenas as formas permitiam distinguir o que eram paredes, chão, roda de moldar, mãos do senhor Ilídio, peças a serem criadas ou já terminadas.

Pelo meio de um qualquer assunto que estávamos a falar, contou uma pequena história que guardei e que já contei várias vezes e diversas circunstâncias.

Quando o senhor Ilídio foi para aprendiz de oleiro, ainda era uma criança de tenra idade. Muito antes de ter a oportunidade de pela primeira vez se sentar na frente da roda, o que fazia era dar serventia ao oleiro que tinha aceitado ensinar-lhe o ofício. Só algum tempo mais tarde é que teve a oportunidade de experimentar pela primeira vez o assento onde veio a passar muitos anos da sua vida.

No início teve muita dificuldade em conseguir criar as suas primeiras peças. Ora era acertar o barro no centro da roda, ora na força certa a fazer na roda de baixo com o pé descalço, ora a quantidade de barro a usar, ora o aperto ou a inclinação dos dedos, as complicações eram muitas e não lhe davam descanso. Eram parcas as vezes que o barro não se deformava e saía disparado em todas as direcções.

O oleiro que o ensinava não podia perder tempo com tanta tentativa frustrada e estimulava-o recorrendo ao melhor método de ensino de que dispunha e que se baseava na distribuição regular de palmadas e outros mimos idênticos.

Como as oportunidades de regressar ao local do comando não eram muitas, o senhor Ilídio contou-me que, quando não estava na roda, estava sempre a pensar no que deveria fazer de diferente para ser bem sucedido. Depois de despegar, já escuro, ia para casa a pé e sempre com as mãos a simular o contacto com o barro. Na escuridão do carreiro, avançava com os braços esticados no ar. Se alguém o conseguisse ver, poderia pensar que se tratava de um maestro. Rodava os pulsos, afastava e aproximava os polegares dos outros dedos, contraía todos os músculos das mãos, depois relaxava-os, sempre a imaginar-se na roda. Depois da ceia, e antes de dormir, continuava a simular a curvatura de um pote ou de um púcaro. Às vezes sonhava que tinha conseguido fazer o seu primeiro cântaro, sonho esse que ainda demorou a concretizar.

Conto esta história à malta nova, para que saibam que quando quiserem aprender uma coisa, e não me refiro apenas a conteúdos escolares, devem mergulhar profundamente nesse tema. Mesmo quando não se esteja perante o assunto, a ideia, a coisa, a tarefa ou o desafio, tem de se estar sempre com ele em mente. Observá-lo de todos os ângulos, imaginar-lhe as superfícies e o comportamento, até lhe conhecer todos os átomos e lhe conseguir antecipar as reacções.

A maior motivação do senhor Ilídio era poupar-se a umas bofetadas, mas em poucas palavras ensinou-me algo de que me lembro com frequência.

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