Antigamente é que tudo isto era bom? Olhem que não, olhem que não


A RTP exibiu há poucos dias, no seu canal de notícias, o documentário A Duas Voltas, que recorda a mais emocionante campanha eleitoral da democracia portuguesa, ocorrida faz agora 40 anos.
Recorrendo ao valioso espólio documental da televisão pública, esta instrutiva série em cinco episódios devia ser exibida nas escolas secundárias. Por recordar um período de extrema polarização política, quando o regime já tinha dez anos e o País permanecia na cauda de vários indicadores económicos, apesar de termos ingressado pouco antes na Comunidade Económica Europeia. A inflação rondava os 20%, havia meio milhão de desempregados, a chaga dos salários em atraso instalara-se em muitas empresas.
Foi a primeira vez - e única, até agora - em que uma eleição presidencial se decidiu a duas voltas - disputadas a 26 de Janeiro e a 16 de Fevereiro de 1986. Na ronda inicial, venceu Freitas do Amaral com larga vantagem: 46,3%, muito acima de Mário Soares, que recolheu 25,4% dos boletins. Na ronda decisiva, as posições inverteram-se: Soares derrotou Freitas, com 51,2% contra 48,8%. Triunfo à tangente: menos de 140 mil votos de diferença num universo de quase 6 milhões de eleitores.
Para trás ficaram outros aspirantes a Belém: o ex-número 2 do PS, Francisco Salgado Zenha, teve 20,9%, e a antiga primeira-ministra Maria de Lourdes Pintasilgo ficou com 7,4%.
Este documentário - que recomendo sem reservas - é muito interessante pela abundância de pormenores que fornece e pela ampla gama de depoimentos que recolhe, mas também por nos traçar um expressivo retrato do que era o Portugal político de 1986.
Eu vivi esse período histórico já como jornalista profissional e confirmo: o país aqui descrito estava muito longe do cenário idílico que alguns comentadores tocados pela nostalgia nos querem descrever hoje, sob o princípio "no meu tempo é que era bom". Insistindo na tese de que se registou séria degenerescência na democracia portuguesa ao longo destas quatro décadas. Excelente então, péssima agora.
Não é verdade. Basta recordar em traços largos o que sucedeu em 1985-1986. Pintasilgo atraiçoada por Ramalho Eanes, inquillino do Palácio de Belém que a incentivou a avançar na batalha da sucessão e depois lhe tirou o tapete, deixando-a sozinha em palco. Zenha e Soares rompendo em definitivo uma camaradagem de 30 anos, envolvendo-se numa luta fratricida. O Presidente da República mandando às malvas o dever de isenção, enviando a esposa para comícios em apoio expresso a Zenha enquanto formava um partido político a partir do palácio. O secretário-geral do PCP, Álvaro Cunhal, tirando da cartola um candidato fictício, Ângelo Veloso - mera manobra para obter tempo de antena favorável a Zenha, que contaria com os votos comunistas na primeira volta.
Tacticismo, intriga, traição, populismo do mais rasteiro: nenhum destes ingredientes faltou.
Falta acrescentar, em pano de fundo: o Partido Comunista de férrea obediência soviética valia ainda 15,5% de votos neste país membro da NATO, em plena Guerra Fria. Quando toda a Europa de Leste permanecia amordaçada, no lado de lá da Cortina de Ferro. Com 38 deputados e 47 presidências de câmaras municipais, o PCP mantinha enorme influência nas ruas, nos sindicatos e nas redacções dos órgãos de informação, onde facilmente impunha a sua narrativa.
Era tão influente que bastava a vontade de um só homem, neste caso o próprio Cunhal, para decidir o desfecho de um escrutínio. Aconteceu a 2 de Fevereiro, com a convocação de um congresso extraordinário do PCP: o líder do partido, renegando tudo quanto dissera desde sempre contra Soares, recomendou aos militantes que votassem no socialista, mesmo tapando-lhe a cara e o nome no boletim de voto. E a multidão comunista obedeceu cegamente à ordem do "camarada Álvaro".
Soares deve a Cunhal - seu inimigo histórico - o primeiro mandato como presidente. Tudo a pretexto de travar o passo ao "reaccionário" Freitas do Amaral, que por ironia do destino viria a encerrar a carreira política como ministro dos Negócios Estrangeiros do governo Sócrates.
Era este o país que alguns lembram agora com suspiros nostálgicos.
Um país em que o moderadíssimo Freitas não virava uma esquina sem ouvir alguém chamar-lhe "fascista". Um país em que milhares de militantes partidários obedeciam cegamente à voz de comando do dirigente máximo, seguindo-o sempre em rebanho após cada decisão contraditória. Um país em que o Presidente conspirava contra governos e a sua esposa surgia como réplica serôdia de Evita Perón, beijando criancinhas em comícios renovadores.
Um país em que toda a imprensa diária estava "nacionalizada" e a televisão livre do monopólio estatal ainda soava a utopia.
Na corrida eleitoral nem faltava o candidato ungido por Belém com este discurso: «É necessária uma nova democracia e uma nova república. Uma nova democracia, porque a que temos é uma democracia achacada por vários vícios, como o clientelismo, a irresponsabilidade, a corrupção, o centralismo e a desigualdade perante a lei.»
Assim falou Zenha ao apresentar-se como concorrente à chefia do Estado. Soa-vos a algo familiar? Pois.
Não acreditem quando vos disserem que antigamente era tudo melhor.
A Duas Voltas, documentário de Ivan Nunes e Paulo Pena, pode ser visto ou revisto na RTP Play.

