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Aniversário do "referendo" catalão

por Diogo Noivo, em 01.10.18

CDRCat.jpg

Corte da linha ferroviária de alta velocidade pelos CDR - Girona 

 

"O governo voltou a colocar em circulação uma fórmula já usada: "procurar soluções políticas para o conflito catalão". Em cinco palavras, duas ambiguidades e um perímetro errado. O primeiro: a descrição do conflito. De acordo com alguns, o conflito é o resultado de não se atender às demandas nacionalistas. As razões pelas quais elas devem ser atendidas não são claras. A exploração económica e a falta de reconhecimento de identidade própria, tantas vezes invocadas, são invenções: a Catalunha é uma economia com respiração assistida e, se há uma identidade desprezada, é a da maioria dos catalães que, para começar, não podem estudar na sua língua materna. Outros dizem que os separatistas são muitos e que suas exigências estão muito consolidadas. Um argumento que seria válido para os racistas no Alabama ou para os sexistas aqui. Que ninguém fique chocado com a comparação. Somos confrontados com o mesmo roteiro: uns quantos reclamam a limitação dos direitos dos outros em virtude de uma característica, do seu género, da sua cor de pele ou da sua identidade. Tradicionalmente, a resposta política cabal consistiu em combater ideias perniciosas, independentemente do número ou da sustentação - até mesmo biológica - dos distúrbios. O império e a pedagogia da lei cumpriram sua função. As pessoas mudam até de vícios. Lembrem-se que este foi um país de fumadores."

 

Félix Ovejero, "Soluciones políticas, ¿para quién?", El Mundo, 1 de Outubro de 2018

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23 comentários

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De Luís Lavoura a 01.10.2018 às 12:16

Tradicionalmente, a resposta política cabal consistiu em combater ideias perniciosas

Sim, mas o nacionalismo não é em geral uma ideia perniciosa - somente o é se fôr o nacionalismo de uma nação que nós não desejamos.

O nacionalismo não somente não é uma ideia perniciosa, como de facto é uma ideia que está na base da Europa moderna. Houve o nacionalismo grego, o nacionalismo húngaro, o nacionalismo alemão, etc, e todos esses nacionalismos foram - e, até certo ponto, ainda são - considerados coisas boas e bonitas, que são louvadas nos livros de História.

Como se pode combater essa ideia perniciosa que o nacionalismo catalão é, ao mesmo tempo que se defende essa lindas ideias que são o nacionalismo francês e o nacionalismo espanhol?
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De Diogo Noivo a 01.10.2018 às 13:15

A imensa maioria dos nacionalismos afirma-se por oposição ao ‘Outro’. Alegam a sua supremacia (baseada em critérios que vão da história à raça) face a outros povos. É coisa que não me agrada. Por isso, a minha posição é sempre a da defesa de constituições liberais, e não de nacionalismos (centrais ou periféricos). O Luís, como militante de um partido liberal, devia entender isto.

PS - Este seu comentário fez-me perceber que um boné com a inscrição “PORTUGAL” e, se não me falha a memória, com uma bandeira ao centro não é uma manifestação inocente de pertença a uma pátria.
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De Luís Lavoura a 01.10.2018 às 14:37

A imensa maioria dos nacionalismos afirma-se por oposição ao ‘Outro’.

O nacionalismo é como a religião: por um lado separa, pelo outro une. Por um lado declara-se por uma oposição àquele que é da nação ou da religião diferente, por outro lado declara-se como uma união com aquele que é da mesma nação ou religião. Ou seja, é uma força que por um lado é negativa, mas pelo outro é positiva. As pessoas precisam sempre de se unir a outras, mas o preço a pagar por isso é, frequentemente, terem que se opôr a outras.

Alegam a sua supremacia face a outros povos.

Nem sempre. Afirmam uma diferença, não necessariamente uma supremacia. Eu não creio, digamos, que um nacionalista letão afirme a superioridade dos letões sobre os russos; afirma somente a sua diferença.

a minha posição é sempre a da defesa de constituições liberais, e não de nacionalismos

Isso é uma treta. As constituições, liberais ou não, aplicam-se sempre dentro de um país, nacional ou não. As constituições aplicam-se ao povo de um país, mas permitem que os povos de outros países sejam tratados de forma distinta (geralmente pior). As constituições, liberais ou não, tratam sempre os cidadãos de um país diferentemente dos estrangeiros. Não é por uma constituição ser liberal que ela rejeita a ideia de nação ou de país.

Você só pode ter uma constituição se primeiro definir qual é a comunidade de pessoas à qual ela se aplica. Essa comunidade pode não ser uma nação, mas é pelo menos um país. (Por exemplo, os suíços, que têm provavelmente o país mais liberal da Europa, não são nacionalistas, mas são fortemente patriotas.)

Não é pelo facto de uma constituição ser liberal que ela deixa de excluir os outros; exclui sempre os estrangeiros.
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De Diogo Noivo a 01.10.2018 às 14:56

Para não variar, turbilhão de confusões e disparates. Se as constituições excluem sempre os estrangeiros, o nº 1 do Artº 15 da CRP é apócrifo, certo?
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De Luís Lavoura a 01.10.2018 às 15:16

O artigo 15 diz que "os estrangeiros que se encontrem ou residam em Portugal gozam dos direitos e estão sujeitos aos deveres do cidadão português". Podem ir à escola e aprender em português, não na sua língua materna. Podem ser chamados a defender-se em tribunal em português, não na sua língua materna. (Um catalão é forçado a defender-se em tribunal em castelhano.) Podem dirigir-se à autoridade em português, não na sua língua materna.
É por essas e por outras que os portugueses preferem, naturalmente, viver em Portugal - porque é mais cómodo.
Acrescem os direitos políticos, claro. Esses, são somente para nós. E os direitos de proteção no estrangeiro, como ainda agora uns portugueses que estão na Vanezuela tiveram o gosto de experimentar.
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De Pedro a 01.10.2018 às 16:42

As religiões modernas - monoteístas - têm um carácter universalista e não regional. Nas suas Escrituras são também visíveis o apelo a que cada um faça do outro a sua família.

Qual, dentre vós, é o homem que, possuindo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove e vai em busca da que se perdeu, até encontrá-la?" (Lucas 15:1-4).


Aliás a ideia globalista, iniciada no séc. XVIII, seria alargar a noção de família, pois também a família nunca foi sempre igual….existe a capacidade de sermos todos irmãos de pais diferentes e fazermos do planeta a nossa casa





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De Luís Lavoura a 01.10.2018 às 18:40

As religiões modernas - monoteístas - têm um carácter universalista e não regional.

1) Não sei o que considera como "religiões modernas". O ba'haismo? O sikhismo? A maioria das religiões são muito antigas.

2) O judaismo é uma religião monoteista, porém não universalista.

3) Mesmo quando as religiões são formalmente e por princípio universalistas, na prática fomentam quase sempre indvidualidades exclusivistas, em que se dá preferência ao correligionário e se abomina o infiel. Veja-se como o islamismo e o cristianismo são ambos universalistas, na prática porém andaram sempre às turras.
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De Pedro a 02.10.2018 às 11:39

Qualquer um de nós pode ser judeu. E sim existe no antigo testamento um propósito ecuménico.

As religiões não criam maus hábitos. São as pessoas vis que procuram na religião uma justificação para a sua maldade. E nela tudo e o seu contrário se pode encontrar. Tudo depende da vontade de quem procura

Sim, modernas são as monoteístas.
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De Luís Lavoura a 01.10.2018 às 14:42

um boné com a inscrição “PORTUGAL” e, se não me falha a memória, com uma bandeira ao centro não é uma manifestação inocente de pertença a uma pátria

É uma manifestação tão inocente que tais bonés até são vendidos a estrangeiros (não-portugueses) em lojas para turistas. Certamente que os turistas que os compram não são nacionalistas portugueses...
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De Diogo Noivo a 01.10.2018 às 14:58

Certo. É manifestação inocente em todos os casos menos no seu.
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De Justiniano a 02.10.2018 às 12:29

Confesso o meu espanto! Andou bem o Lavoura, estranhamente. O mesmo não se poderá dizer de Diogo Noivo, turvado pelo exagero!!
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De Diogo Noivo a 02.10.2018 às 12:37

Justiniano, não é exagero. É um comentário muito dirigido ao Luís Lavoura, uma picardia privada.
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De Justiniano a 02.10.2018 às 15:03

Erro o seu, já não vai a tempo de emendar, nunca, em momento algum, nos devemos envolver em picardias com o Lavoura!! Poucos regressam incólumes desse lugar!
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De Luís Lavoura a 01.10.2018 às 12:22

não podem estudar na sua língua materna

Isso é uma trivialidade. Se o Diogo emigrar para Espanha, os seus filhos também não poderão estudar na sua língua materna. Dir-lhe-ão, e com muita razão, que a língua oficial de Espanha não é o português e que, portanto, não têm nenhuma obrigação de dar aulas às crianças em português (nem em nepalês nem em hebraico nem numa multitude de outras línguas).

Mesmo na Suíça, se um suíço alemão migrar para o Ticino, em geral não irá encontrar uma escola onde os filhos possam aprender em alemão. E muito menos em suíço alemão.

Em Portugal vivem hoje muitos imigrantes cujos filhos, coitadinhos, não podem aprender nas suas línguas maternas.
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De Diogo Noivo a 02.10.2018 às 10:52

Ontem, assoberbado que estava pela cornucópia de disparates, escapou-me este. Luís, a língua materna é o castelhano e hoje são várias as instituições de ensino na Catalunha onde a língua oficial do Estado não entra. https://elpais.com/ccaa/2018/04/04/catalunya/1522840840_108931.html
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De Luís Lavoura a 02.10.2018 às 11:10

hoje são várias as instituições de ensino na Catalunha onde a língua oficial do Estado não entra

1) É um erro que o Estado espanhol tenha uma única língua oficial. Compare-se com um país democrático e liberal, como a Suíça, onde o italiano é língua oficial, apesar de ser a língua materna de menos de 10% da população.

2) As línguas oficiais não têm forçosamente que ser ensinadas em todo o país. A Índia, por exemplo, tem (salvo erro) oito línguas oficiais, mas há montes de indianos que nunca aprenderam mais do que uma delas, e ainda muitos mais que nunca aprenderam nenhuma delas.

3) Num mundo em que, cada vez mais, se tenta preservar línguas, que são amplamente consideradas como um importante património imaterial da humanidade, a Espanha bem que deveria fazer mais pelas suas línguas minoritárias. Não tanto pelo catalão, que está bem e se recomenda, mas sobretudo pelo basco (que se pensa ser herdeiro da língua dos iberos pré-romanos) e pelo galego, lionês, etc.
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De Diogo Noivo a 02.10.2018 às 11:27

1) Não defendi que o Estado espanhol tem apenas um idioma oficial. Comentário despropositado. E irrelevante, dado que não contradiz ou acrescenta nada ao argumento.

2) Comparar a política e a história linguística da India com a de Espanha é comparar a beira da estrada com a estrada da Beira.

3) Não está em causa a preservação da língua, e a Catalunha é prova vida disso. Insisto, há escolas na Catalunha onde apenas são ministradas aulas em catalão.

PS - Sendo certo que não há consenso sobre as origens do euskera, a hipótese que reune maior apoio entre linguistas e historiadores situa o aparecimento deste idioma no encontro da Aquitânia com o Império Romano. Era, no entanto, uma forma incipiente de euskera, muito diferente daquele que é hoje falado. Aliás, o euskera contemporâneo deve muito a Sabino Arana (finais do século XIX e início do século XX). Consuma menos propaganda abertzale, Luís.
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De Luís Lavoura a 02.10.2018 às 11:37

há escolas na Catalunha onde apenas são ministradas aulas em catalão

... o que não teria problema nenhum se o catalão fosse, como deveria ser, uma das línguas oficiais do Estado espanhol.
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De Pedro a 01.10.2018 às 13:08

Demandas nacionalistas não são o mesmo que Demandas independentistas. As primeiras fundam-se numa acção política positiva que expressa o desejo comum de um povo , determinado, viver conjuntamente. As Demandas independentistas fundam-se num desejo negativo, de subtração, de uma parte da população relativa a um conjunto populacional que considera pernicioso para o seu modo de vida. Pode-se ser independentista sem ser nacionalista. Por exemplo as demandas madeirenses de independência não são nacionalistas.

Estes processos não podem ser avaliados com índices económicos. Eles resultam de processos históricos emocionais e irracionais . Se fôssemos avaliar os processos de independência de vários países, racionalmente não acharíamos nenhuma justificação - ex: desintegração do Império Austríaco. A desintegração da Ideia da Grande Alemanha. A independência de Portugal.
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De Luís Lavoura a 01.10.2018 às 15:26

As Demandas independentistas fundam-se num desejo negativo, de subtração, de uma parte da população relativa a um conjunto populacional que considera pernicioso para o seu modo de vida.

Não. As pessoas querem a independência para poderem ser somente elas a mandar num país ou região.

No século 12 os nobres portugueses quiseram ser independentes para que não tivessem que mandar conjuntamente com os galegos. Podiam ser só eles a mandar, em vez de ficarem diluídos no meio dos galegos.

Não se quer com isto dizer que os galegos fossem perniciosos para o modo de vida português. Em larga medida, portugueses e galegos viviam da mesma forma; até falavam a mesma língua. Mas os nobres portugueses não queriam que os nobres galegos pudessem mandar nos assuntos cá do sul.

O desejo independentista não é forçosamente negativo. Quando checos e eslovacos decidiram separar-se, fizeram-no de boa paz entre si. Mesmo na Bélgica, animosidades à parte, os valões e flamengos souberam repartir bem entre si os poderes e patrimónios, e não andaram à batatada entre si.

Na Suíça, há uns tempos, o atual cantão do Jura separou-se do cantão de Berna, do qual anteriormente fazia parte. Não foi um processo fácil, mas não houve, nem há, animosidade.
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De Pedro a 02.10.2018 às 11:44

Dizia negativo no sentido de subtração, de uma parte de um povo de um outro, que até pode ter a mesma identidade histórica. O nacionalismo implica sempre um culto histórico, muitas vezes imaginado, reforçado pela luta de um povo contra outro. O nacionalismo produz violência imagética ou real. O independentismo raramente
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De Pedro Correia a 01.10.2018 às 17:45

Excelente artigo de Félix Ovejero, um grande pensador contemporâneo. Catalão, logo espanhol. E europeu. E cidadão universal.
Olha o mundo por uma grande angular em vez de ficar a espreitar pelo buraco da fechadura.
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De Diogo Noivo a 02.10.2018 às 10:37

Foi uma boa estreia.
Estou para ver o que escreverá sobre o dia de ontem: Torra a apelar às CDR para que "apertem", deputados não nacionalistas cercados e insultados, os Mossos contra a Generalitat, jornalistas impedidos de fazer o seu trabalho...os independentistas criaram um monstro que lhes está a rebentar na cara. E para Sánchez está tudo bem.

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