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Andam a brincar com a tropa

por jpt, em 06.05.19

EPI.jpg

O tempo voa, a vida dilui-se. Sem que eu tenha verdadeiramente percebido como isto aconteceu, neste próximo Verão cumprir-se-ão 30 anos que me apresentei em Mafra, na Escola Prática de Infantaria, chamado "às sortes" para o então vigente Serviço Militar Obrigatório ("às sortes" é como quem diz, de facto "aos azares" - no edital, consultado na junta de freguesia de São Jorge de Arroios, a folha onde constava o meu nome tinha um rol de dezenas de mancebos, 25 ou 50 não posso precisar. E dessa lista eu fora o único recrutado, o chamado "azar nítido").

Enfim, lembro-me disso por causa desta "crise política" antes das eleições europeias. Percebo, por ler apoiantes de vários partidos, que o que provocou tudo isto deve ser matéria bem difícil de perceber: as pessoas dizem coisas tão diferentes sobre o que aconteceu que não parecem partilhar a mesma visão do mundo, ou mesmo nem sequer viver na mesma dimensão. Ou então o fenómeno é mesmo complexo, não tão escorreito como aparenta ser. Na minha modesta (e distante) condição pouco mais me ocorre do que a velha expressão, que tanto ouvi durante o referido serviço  militar - já a conhecia mas tornou-se-me mais familiar desde que fui porta-de-armas adentro. Pois muito me cheira que esta rapaziada política (ou alguma dela) "anda a brincar com a tropa".

Como em breve são as eleições europeias e a(lguma)s pessoas tendem a votar, talvez seja interessante reflectir sobre o assunto. Muita gente vota com o coração, o conforto identitário, algo transcrito na habitual expressão "eu sou do partido ..." e explícito na ausência da formulação "o meu partido é o ...": as pessoas "são" dos partidos (ou das direitas/esquerdas), não "têm" ou "estão com" partidos. O uso da língua mostra bem o predomínio do tal conforto identitário, da  passividade acrítica, na política, em detrimento da acção política consciente, crítica e, como tal, algo volátil. E muita gente vota com a bolsa, na expectativa (ingénua) de que determinado partido facilite o percurso do seu grupo socioprofissional (grupos que em tempos foram ditos "corporativos").

Enfim, face a isso, e devido à efeméride que se me aproxima, lembro-me do que aprendi na tropa. Em primeiro lugar, que não há obediência cega ("sagrada", como pobremente perorou o dr. Varandas, quando se candidatou a presidente do Sporting): há obediência funcional, as ordens são para cumprir mesmo que não se concorde com elas. Mas nesse caso pede-se autorização ao superior que as está a comunicar para reportar essa discordância a um seu superior imediato, algo que ele está obrigado a conceder. Chama-se a isso, em linguagem civil, percebi-o na primeira noite de recruta quando disto fui informado, "Estado de Direito".

Em segundo lugar aprendi a superlativa importância da higiene e do relativo aprumo (e se a primeira me vinha "do berço" confesso que o segundo nunca me fora, nem depois me ficou, motivo de grande militância): e lembro o sacaninha do camarada de beliche, não só incapaz de fazer bem a cama (e lá estava o Teixeira para lhe acabar o trabalho) como também algo relapso ao uso de shampoo, deixando marcas na fronha, as quais faziam as iras do caricatural capitão e do exultante alferes, e que sobre mim logo recaíam pois imputando-me a incapacidade de obrigar o morcãozito a lavar-se com o arreganho devido. Em terceiro lugar não que a tenha aprendido, mas constatei a relevância máxima do item "rusticidade", a minha melhor nota no curso (entenda-se, não tinha jeito nenhum mas não fazia ronha).

E em quarto lugar, e é isso que convoca esta memória castrense, aprendi a importância pragmática de estudar a documentação distribuída. Entenda-se, estudar o regulamento e o manual, compreender os valores fundamentais, perceber a lógica e decorar os detalhes, e saber utilizá-los: saber ler uma carta militar (não havia gps, claro), conhecer as insígnias (galões e divisas), etc. Um tipo vive melhor (na tropa) se aprender tudo isso. Pois não só o chateiam menos como o seu destino é melhor: "estudem, tirem boas notas, pois os piores classificados vão para as ilhas. E voltam de lá casados!", foi o pedagógico conselho gritado e perdigotado desde a primeira formatura na primeira noite, e bastas vezes repetido. E o medo de vir a cair nas teias e garras das pérfidas ilhoas acicatavam o esforço memorizador noite afora, apesar da exaustão provocada pela malícia do oficialato que nos empurava acima e abaixo por aquela malfadada Tapada de Mafra.

De tudo isto me lembro diante das eleições europeias. Não que tenha de tratar das fronhas de um qualquer camarada eleitor mais lerdo, ou de obedecer a um alguém que me obrigue a fazer jogging de modo abrasivo nos parques de Bruxelas para me por em forma antes de me apresentar diante da urna eleitoral, nem tenho que me aprumar em viçoso sentido quando ouço uma corneta "às horas" (um som e momento que é a maior - talvez única - nostalgia castrense que me ficou) para assegurar a condição de eleitor. Mas sim daquilo de estudar um pouco a documentação distribuída, para seguir em frente. Ainda que não haja o tal "regulamento" ou qualquer "manual".

Por isso, ainda que seja trabalho insuficiente, me dediquei a dois testes relativos ao posicionamento de cada um face às políticas na União Europeia, e que estão bastante interessantes, ainda que sejam, evidentemente, pouco mais que curiosidades: 

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Este EUandI (realizado pelo European University Institute e pela Universidade de Lucerne): são 22 perguntas, às quais quem responde atribui um grau de maior ou menor relevância, o qual possibilita que cada um se situe face às posições programáticas apresentadas  pelos partidos portugueses, bem como por todos os partidos europeus, e possibilita ainda situar-se face às posições globais apresentadas pelos partidos de cada país. Permitindo ainda situar os partidos (e o perfil das respostas) face a algumas áreas temáticas. Para exemplificar, os países onde as propostas dos colectivos partidários mais articulam com as minhas respostas, tendo em conta a ponderação da importância que atribuo a cada questão, são: 1º Checa, 2º Eslováquia, 3º Alemanha ...5º Bélgica-Flandres ... 10º Bélgica-Valónia ...12º Portugal. E o partido europeu que delas é mais próximo é o Partido Pirata Checo (belo nome) e a seguir o Spolu eslovaco. Na Bélgica são os Democratas-Cristãos Flamengos e o Movimento Reformador (valão). E em Portugal os programas partidários mais próximos são o do PSD e o do CDS, e os mais distantes o do MRPP e o do PCP.

E este You Vote EU, 25 perguntas, organizado num sítio patrocinado pelo European Union’s Rights, Equality and Citizenship Programme (2014-2020). Este também proporciona a articulação com os diferentes partidos europeus (e, é óbvio, os compatriotas). Mas tem ainda um atractivo, o de que a ponderação da relação se faz com os deputados em exercício, através da comparação com as votações que realizaram sobre os temas do questionário. O que se faz também para os concorrentes, mas nestes casos, claro que em função das declarações programáticas sobre os assuntos. Para ilustrar no meu caso o candidato português mais próximo das minhas respostas é Ricardo Arroja e o segundo é Marisa Matias - engraçado, há dias aqui disse que votaria ou no partido de confrade blogal João Gonçalves (Aliança) ou no da candidata Marisa Matias, pois esta me é simpática, e logo me vieram resmungar a falta de "coerência", essa moeda falsa vendida pela partidocracia. E quanto aos partidos portugueses o que me é mais próximo neste teste é o BE e o mais distante é o PSD. Mas em termos de coligações europeias o mais próximo é o "Reformistas e Conservadores Europeus" e o último os "Verdes".

Alongo-me nestes detalhes para salientar que não é em testes destes que um tipo encontra a "resposta" para quem é (politicamente), mas que são cartas para encontrar similitudes, obscurecidas pelo jogo retórico do "uns" contra os "outros". Similitudes a sopesar, particularmente porque namoram mal com as efectivas práticas políticas da tal rapaziada. Essa que "brinca com a tropa". E por isso assim fica o postal, na aparência desconexo mas que para mim faz sentido. Esse sentido de se ir votar sob uma atitude bem para além daquela do "sou do partido X".

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