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Anda tudo doido (2)

por Pedro Correia, em 25.09.19

conguitos[1].jpg

 

«Alguém devia ter caluniado Josef K. porque uma manhã foi detido sem ter feito mal algum.»

Kafka, O Processo

 

Bernardo Silva e Benjamin Mendy são dois grandes jogadores - o primeiro é médio-ala, o segundo é lateral esquerdo. Têm ambos 25 anos. Actuam juntos num dos principais clubes europeus, o Manchester City. Antes haviam sido colegas de equipa no Mónaco.

São não apenas colegas, mas grandes amigos. Como é público e notório.

Acontece que Bernardo, magnífico internacional português de futebol, tem "pele branca" - como se convencionou chamar nestas circunstâncias, com manifesta falta de exactidão - e o francês Mendy tem um tom de pele mais escuro (espero que, escrevendo desta forma, não me caia em cima a fúria justiceira das patrulhas politicamente correctas).

Como é natural entre dois amigos, jovens e bem-humorados, trocam volta e meia umas graçolas nas redes ditas sociais. Acontece que o Bernardo, no Twitter, se lembrou de associar o colega à Conguitos, uma marca de chocolates. O outro respondeu-lhe com aqueles bonequinhos que substituem palavras: três a sorrir, outro a bater palmas - e ainda esta frase, na mesma onda bem-disposta: «1-0 para ti, mas espera.»

 

naom_5d87c7bf4bc68[1].jpg

 

Só isto. Mas foi quanto bastou para o jogador português começar a ser inundado de duríssimas críticas nos comentários digitais pelo suposto carácter racista do que havia publicado. Ao ponto de ver-se forçado a apagar tudo. Mas, mesmo assim, sujeita-se a uma investigação do caso pela federação inglesa de futebol, já desencadeada sob pressão de uma organização denominada Kick It Out, que exige a adopção imediata de medidas punitivas. «Os estereótipos racistas nunca são aceitáveis como brincadeira», proclamam estes furibundos diáconos Remédios, assumindo a participação contra o «comportamento ofensivo» de Bernardo Silva junto dos órgãos federativos ingleses.

Passo a passo, dia após dia, vemos cada vez mais condicionada a liberdade de expressão. Com a nova Polícia do Pensamento, acometida de ira castradora, a vigiar as comunicações digitais entre dois companheiros e amigos. De guilhotina já montada e sentença condenatória pronta a exibir, invertendo a presunção da inocência e negando o direito ao contraditório. A presunção é sempre de culpa - sobretudo se o prevaricador for homem, ocidental e de pele "branca". E a gama de temas interditos vai-se ampliando, num afã de guardiães da fé, até aos confins do impensável. Como em tempos ancestrais, a desobediência ao dogma é hoje pior que um crime: é um pecado.

Apetece escrever, parafraseando Álvaro de Campos: come chocolates, Bernardo, come chocolates. Mas nada de Conguitos: só chocolatinho branco. Enquanto a brigada dos bons costumes permitir.


28 comentários

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De Luís Lavoura a 25.09.2019 às 11:04

Eu acho que o problema é o racismo da Conguitos. Não têm nada que associar chocolates a um boneco castanho. Esse boneco é profundamente ofensivo para as pessoas de raça negra. Essas pessoas não têm culpa de serem da mesma cor do chocolate. É perversamente racista estar a sugerir que essas pessoas não passam de chocolates. A Conguitos deve ser obrigada a pagar uma pesada multa.
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De Pedro Correia a 25.09.2019 às 11:27

A seguir não se esqueçam de decretar "pesada multa" à Omo. Que promete "lavar mais branco".
Expressão "perversamente racista".
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De Tiro ao Alvo a 25.09.2019 às 13:53

Branco não é cor, branco é ausência de cor.
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De Pedro Correia a 25.09.2019 às 14:20

Pior ainda. Não há racismo mais perverso do que aquele que advoga a ausência de cor.
Omo multada. Já!
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De Anonimus a 25.09.2019 às 16:35

Branco é a junção de todas as cores. Ausência de cor é preto.
Branco é inclusivo.
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De Luís Lavoura a 25.09.2019 às 17:20

Preto também é ausência de cor.
(Em tempos houve uma revista francesa que descreveu Portugal como "o país onde o preto é uma cor". Referia-se ao hábito que nesse tempo, já distante, havia de as mulheres portuguesas trajarem totalmente de preto.)
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De Pedro Correia a 25.09.2019 às 19:47

Será que a expressão "preto no branco" também tem cunho racista?
E se eu disse que estou a ver tudo negro?
A situação tá' preta.
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De Anonimus a 25.09.2019 às 22:25

Preto no branco tem a implicação homossexual que anula o potencial racismo. Branco na preta já seria altamente representativo dos tempos da escravatura.
Branco é galinha o põe é duplamente mau: faz do ovo caucasiano quando tem tez escura e celebra a violência sexual galinácea.
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De Anónimo a 13.10.2019 às 16:41

Tiro ao lado. Branco só é ausência de cor fora do espetro eletromagnético visível.
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De Anónimo a 25.09.2019 às 11:45

E a publicidade ao café sob torra natural em que se utilizava,ou utiliza ainda,a imagem de uma afrodescendente sem que ao café em verde se associe um@ marcian@ ou umx doente com icterícia ? A discriminação continua.
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De Pedro Correia a 25.09.2019 às 19:48

Verter leite no café será um acto subliminar de racismo? Eis um possível pensamento da semana.
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De alex.soares a 25.09.2019 às 13:05

Triste mundo este em que eu não posso gozar com um preto por ele ser preto.
E se eu for preto?
E se eu me achar preto?
E se eu me pintar de preto por ser dessa cor que me acho realizado em todas as minhas características e qualidades naturais?
Grandes fdp's estes grandes fanáticos dos popós (fdp's).
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De Anónimo a 25.09.2019 às 16:53

Quando eu era miúdo lá no bairro todos tínhamos uma alcunha, nos dia de hoje ter alcunha deve ser equiparado a crime e é algo que ninguém quer, dava mais jeito uma cunha sem o al. Pois bem lá no bairro o preto era o Mapuata ou o Makukula, conforme os dias, havia também o badocha, o cabeças, o caixa de óculos, o copo de leite, o gordo,o tolan, etc. Ninguém morreu por causa disso e eramos todos felizes apesar de naquela altura ainda não sabermos.
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De Pedro Correia a 25.09.2019 às 19:48

O Tolan? Eheheh, muito boa...
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De FatimaMP a 25.09.2019 às 17:10

Que absurdo!

Mas, absurdo, por absurdo, "absurdemos": um dia destes, casualmente, passei na Rua das Pretas. Gelei de indignação. Rua das Pretas? Horror dos horrores!
E ninguém faz nada? Andará a patrulha, desatenta …???
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De Pedro Correia a 25.09.2019 às 19:50

O alcaide Medina anda distraído. Já devia ter rebaptizado essa vetusta artéria lisboeta, chamando-lhe Rua das Afro-Americanas.
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De Anónimo a 25.09.2019 às 17:41

Volta restaurador Olex, que estás perdoado.


"Branco de carapinha e preto de cabeleira loira não é natural...o que é natural..."


Há aqui grandes possibilidades de negócio, deviam fazer um anúncio colocando um vídeo do Trudeau ...

...chegaria até ao Canadá, provavelmente hoje teriam o mercado Marxista todo...

...até ao dia em que fruto da competição pela virtude Marxista dissessem que é racista outra vez.


lucklucky
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De Pedro Correia a 25.09.2019 às 19:51

O Restaurador Olex não precisa de voltar. É uma marca que se mantém no mercado. Nunca deixou de facturar.
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De Anónimo a 25.09.2019 às 23:29

Não sabia, mas estava a referi-me ao anúncio.

Colocariam a mesma frase mas com vídeo do Trudeau...



lucklucky
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De Anónimo a 25.09.2019 às 18:30

Mais um caso

Carson King agora adulto colocou num jogo um placard a dizer que a sua lata de cerveja estava vazia e o número da sua conta bancária, muita gente viu na TV e deu na brincadeira uma doação, a brincadeira chegou a mais de 1 milhão de dólares. King recebeu apoio da fabricante de cervejas que ele estava pedir mais cerveja.
Carson King resolveu doar esse 1 milhão a um hospital para crianças.
Veio nas notícias e um reporter do Des Moines Register foi investigar e descobriu 2 tweets racistas que Carson King tinha escrito com 16 anos (em 2012)

Veio tudo abaixo

O feitiço virou-se contra o jornal, e descobriram muitos mais tweets supostamente racistas de jornalista...

Agora já vai uma petição com mais de 100000 assinantes a pedir para o jornal pedir desculpa.


https://pjmedia.com/trending/iowa-man-donates-1-million-to-childrens-hospital-gets-cancelled-for-bad-tweets/

lucklucky


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De Maria Dulce Fernandes a 25.09.2019 às 18:43

É muito cansativo estar permanentemente a ouvir deste despautério, Pedro.
Conguitos , os originais, são amendoins cobertos com chocolate negro OU branco, mas dos branquitos ninguém fala.
Não falta nada estar-se-à a pedir extinção do sabão amarelo, do chá verde, da BIC laranja, dos pimentos morrones... e o sabão azul e branco, para xer politicamente correto, pede o divórcio.
Tanta gente a matar-se a trabalhar para comer e tanto desocupado cinzentão, tanto segregacionista dado a fundamentalismos, a apontar o dedo a tudo o que tem cor.

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De Pedro Correia a 25.09.2019 às 19:45

E o creme Nívea, Dulce. Tem de estar no topo na lista dos próximos produtos a interditar.
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De Anónimo a 25.09.2019 às 21:15



E black tie vai passar a ser , se não for já, no ties...

Até já querem obrigar o Rowan Atkinson a dar um slack à venenosa...
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De Anónimo a 25.09.2019 às 19:04

Isto não vai parar enquanto os negros/pretos/africanos - como os próprios quiserem ser nomeados, por mim tanto faz, não pretendo ofender ninguém e sei que se uns preferem a expressão negro outros preferem a expressão preto -, com dois dedos de testa digam: Basta de imbecilidade! É preciso que seja quem tem a pele mais escura e inteligência q.b. a dizer que não precisa de ser defendida do sentido de humor de amigos, que não precisa de paternalismo idiota, esse sim infantil, porque menoriza quem não tem razão alguma para se sentir inferiorizado. Que não precisa de colinho e comiseração para conseguir chegar onde quer chegar. Haja pretos inteligentes a dizer o que pensam. Basta isso.

Isabel
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De Anónimo a 25.09.2019 às 19:55

Enquanto...não disserem...'

Isabel
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De Anónimo a 25.09.2019 às 23:37

Não é imbecilidade,são estratégias de poder e competição social para obter poder, privilégio se destacando no grupo, ao mesmo tempo neutralizando a competição com culpa se não forem atrás de quem lança esse novo valor, narrativa.

Veja ainda a quantidade de gente que tem emprego por causa disto. Podemos começar pelo jornalismo, sistema de "educação" , passando pelos recursos humanos.....



lucklucky
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De Anónimo a 26.09.2019 às 00:11

Também, também. E lá voltamos às quotas.
De qualquer modo, continuo a achar que são os próprios que podem marcar a diferença pela positiva. Desde logo, prescindindo das ditas quotas.

Isabel
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De João Pedro Pimenta a 25.09.2019 às 22:56

Como é que se chamava aquele movimento que juntou chefes de estado e de governo por todo o mundo, além de milhares de pessoas, na sequência do assassínio de um grupo de jornalistas que escrevia e desenhava o que lhes dava na real telha (normalmente coias a roçar a abjecção)? "Je suis Charlie", não era? Caramba, o efeito passou depressa.

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