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Delito de Opinião

Anatomia de uma hecatombe

Diogo Noivo, 03.10.16

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A pressão exercida pelos barões socialistas forçou Pedro Sánchez a demitir-se das funções de secretário-geral do Partido Socialista Obreiro Espanhol (PSOE). Esta não é a verdade dos factos, mas é a verdade para alguma imprensa portuguesa. Vamos por partes.

No dia 20 de Dezembro de 2015, o PSOE, capitaneado por Pedro Sánchez, obteve o seu pior resultado eleitoral de sempre em eleições legislativas, o resultado mais baixo desde 1977. Deste acto eleitoral não saiu um governo e, como tal, foi necessário repetir eleições. No dia 26 de Junho de 2016 os espanhóis voltaram às urnas e o PSOE bate o seu próprio recorde: perdeu 5 deputados e cerca de 156 mil votos. Nova derrota histórica. O seu adversário directo, o Partido Popular (PP), reforçou a vitória obtida em Dezembro, conseguindo mais votos (aproximadamente mais 600 mil) e mandatos (mais 14), isto apesar de ser a força política associada à austeridade, à subserviência a Bruxelas e, pior, a casos de corrupção e de branqueamento de capitais. Por outras palavras, mais do que uma derrota histórica, o resultado dos socialistas a 26 de Junho de 2016 foi uma humilhação sem paliativos.

No plano local o cenário não é mais ameno. Nas eleições celebradas recentemente na Galiza e no País Basco, o grande derrotado foi o PSOE. Na Galiza perdeu 5 mandatos, na Euskadi perdeu 7 mandatos e 40% dos votos, e em ambas é ultrapassado pelo Podemos. Importa recordar que, entre 2009 e 2012, o PSOE governou o País Basco.

Em suma, associando os resultados nacionais aos resultados locais, o PSOE foi de derrota histórica em derrota histórica até uma cada vez mais provável irrelevância final. Pedro Sánchez pegou num partido com vocação de governo, uma força política fundamental no processo de consolidação da democracia em Espanha, e levou-o à beira da irrelevância. No entanto, nada disto foi suficiente para que Sánchez assumisse publicamente quaisquer responsabilidades. A este rosário deprimente há ainda que somar episódios pouco edificantes como, por exemplo, o “Comando Luena”: César Luena, braço direito de Sánchez, organizou uma ‘tropa de choque’ para, nas redes sociais, denegrir e insultar todos aqueles que ousavam criticar a direcção socialista. Ou seja, derrotados nas urnas e totalitários na gestão interna do partido.

 

Não obstante o quadro miserável, nada demoveu Sánchez de pugnar por um “gobierno de cambio”, uma solução governativa que incluísse o Podemos, com o objectivo de se içar ao lugar de Chefe do Executivo e, consequentemente, impedir o partido mais votado (o PP) de governar. É constitucional, é legítimo, mas parece-me indefensável afirmar que é democrático. Parece-me a mim, a uma parte importante dos eleitores que recusaram depositar a sua confiança em Pedro Sánchez, e a uma grande parte dos chamados “barões” do PSOE, onde pontificam personalidades como Felipe González.

Em matéria de barões, impõe-se um ponto prévio. Ao contrário do que sucede em Portugal, os barões partidários em Espanha não são os derrotados da política aos quais é atribuído um estatuto senatorial. Em Espanha, os barões são presidentes de comunidades, presidentes de câmaras municipais ou antigos presidentes de governo, isto é, gente que ganhou eleições. Estes barões ficaram naturalmente preocupados com a profunda degradação eleitoral do PSOE e, simultaneamente, muito apreensivos com as tentativas de aproximação de Sánchez ao Podemos. O partido liderado por Pablo Iglesias é assumidamente anti-europeu e, por outro lado, favorável a um referendo pela independência da Catalunha. Para os barões socialistas, mas também para muitos eleitores do PSOE, um pacto com o Podemos constituiria uma descaracterização fatal da identidade do partido. Os barões foram avisando Pedro Sánchez, que os ignorou. Até que Felipe González, que já tinha feito quatro avisos públicos a Sánchez, dá uma entrevista à rádio Cadena Ser onde diz ter sido enganado pelo secretário-geral do PSOE. E esse foi o momento em que Pedro Sánchez morreu politicamente.

Tudo somado e concluindo, não foram os barões a desalojar Pedro Sánchez, mas o agora ex-secretário-geral socialista a tornar a sua permanência no cargo insustentável. Ficará na memória colectiva dos espanhóis como alguém que somou derrotas históricas, que quis atentar contra a matriz identitária do partido, e que morreu agarrado ao lugar.

 

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