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Análises tácticas (1)

por João André, em 19.02.14

Manchester City - Barcelona: primeira mão dos oitavos de final da Liga dos Campeões

 

Ontem teve lugar um dos jogos que mais interesse me suscitava nesta edição da Liga dos Campeões: Manchester City - Barcelona. Tínhamos frente a frente duas equipas que gostam de ter a bola nos pés, que atacam imenso (as mais concretizadoras desta edição da LdC) e com o extra de a equipa inglesa seguir os planos do Barcelona, com três espanhóis e um ex-Barcelona no onze inicial, além de uma estrutura do futebol decalcada do Barcelona, incluindo dois directores que ajudaram a criar o actual sistema do Camp Nou. Estavam, além disso, dois treinadores interessantes nos bancos: Manuel Pellegrini, que soube levar algum do perfume do tiki-taka para Inglaterra, e Gerardo "Tata" Martino, que tentou introduzir um jogo algo mais directo no futebol do Barcelona.

 

O Barcelona apresentou-se no sistema esperado: a defesa habitual, três médios para o carrossel do meio-campo, dois homens nas alas e Messi em todo o lado. Claro que isto era o desenho no papel, a dinâmica era diferente. Iniesta descia do flanco esquerdo para o meio campo para ajudar na circulação de bola, deixando Jordi Alba subir. Na direita Alexis Sánchez corria frequentemente na direcção da baliza, criando espaço na direita para onde flectia Messi ou ocupando os laterais deixando o mesmo Messi cair para mais perto do meio-campo. Teoricamente Dani Alves também subiria no flanco para ocupar os espaços vazios.

 

O Manchester City, que costuma apresentar-se em 4-4-2 com os médios laterais a flectir para o centro, apresentou-se antes em 4-2-3-1, com David Silva mais no centro, Juan Navas a prender Alba e Kolarov a ajudar Clichy contra Alves. No meio, Fernandinho ia-se posicionando para cortar linhas de passe e Touré pressionava o jogador que estivesse mais próximo. Na defesa Kompany fazia as dobras  e Demichelis subia com Messi, tentando antecipar os passes e evitando que este se virasse na direcção da baliza. Depois havia a tentativa de usar a força (e forma) de Álvaro Negredo para criar problemas à defesa do Barcelona.

 

Na primeira parte o sistema funcionou muito bem. O Man City soube conter o Barcelona e foi ocasionalmente criando dificuldades à defesa do Barcelona. A principal dificuldade esteve em David Silva, que esteve algo perdido, caindo frequentemente nas alas em busca de alguém com quem trocar a bola ou ficando isolado entre o meio campo e o ataque. O Barcelona, não arriscando fazer avançar os laterais devido ao risco de ficarem expostos contra jogadores rápidos e energéticos, ficava sem largura e via os espaços reduzidos. Apenas Iniesta parecia saber desembaraçar-se.

 

A segunda parte começou da mesma maneira, mas uma perda de bola do Manchester City deixou Messi a correr em direcção à baliza e Demichelis acabou por o ceifar. A falta foi indiscutível, o cartão vermelho também, já o penalti poderia não ter sido dado (a falta terá sido feita ainda antes da linha), mas as regras são para beneficiar o atacante em caso de dúvida.

 

Depois do vermelho as trocas tácticas de Pellegrini eram óbvias: mudou para um 4-4-1 com Silva e Nasri nas alas e a flectir para o centro. Precisava de controlar o jogo quando em posse da bola e necessitava de criatividade no ataque. O problema é que o Barcelona decidiu ir congelando o jogo (um golo fora vale muito) e ao retirar dois alas passou a deixar Alves e Alba subir à vontade no terreno, deixando o Barcelona, em posse de bola, a jogar numa espécie de 3-5-2, com Iniesta mais médio que ala e Messi e Sánchez a jogar como avançados.

 

Verdade seja dita que o Man City não se ressentiu demasiado, mas o Barcelona também não os testou em excesso. Só com a entrada de Neymar, um jogador muito dinâmico e com instintos mais atacantes que controladores, o Barcelona passou a criar espaços, especialmente como para o segundo golo, onde se viu a falta de alguém para apoiar Clichy, que ficou desamparado e acabou por deixar Alves ficar na cara de Hart.

 

Ainda que seja difícil imaginar o Barcelona a perder a eliminatória, a segunda mão não será fácil. O Man City irá certamente apresentar-se muito atacante e a jogar um futebol mais físico. Se tiverem um árbitro que goste de deixar jogar e conseguirem marcar um golo nos primeiros 20 minutos, o jogo pode tornar-se altamente interessante. O risco será naturalmente que abram espaços na defesa mas, depois do jogo de ontem, não terão muito a perder.

 

Nota para um comentário na TVI: a certa altura o comentador diz que o Barcelona se vê reduzido a passes longos, algo muito pouco típico. Este comentário demonstrou o pouco que o comentador sabia do futebol do Barcelona deste ano. Martino tem pedido aos seus jogadores, especialmente Piqué, para fazerem passes longos para as alas, como forma de variarem o jogo e evitarem o estilo de pressão com que o Bayern os sufocou nas meias-finais do ano passado. Não é preciso saber muito de futebol, basta ver um jogo ou outro.


4 comentários

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De amendes a 19.02.2014 às 16:36

E o comentador disse esta pérola:

"...Messi havia feito uma transversal vertical á baliza adversária"
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De João André a 20.02.2014 às 08:30

Essa escapou-me. A partir da segunda parte vi o jogo com televisão inglesa (o streaming estava melhor). Mas os nossos comentadores de televisão gostam imenso de inventar.
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De l.rodrigues a 20.02.2014 às 12:40

"mas as regras são para beneficiar o atacante em caso de dúvida"

e de acordo com a história recente, as regras da UEFA ditam que é para beneficiar o Barcelona em caso de dúvida.
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De João André a 20.02.2014 às 16:14

Não quis entrar por aí, mas é de facto um fenómeno interessante. Semelhante àquela regra que foi adicionada aos livros de regulamentos: quando um jogador do Barcelona cair, se um adversário tiver feito contacto, por leve que seja, tem que se dar a falta.

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