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Ambiente de trabalho IV

por Teresa Ribeiro, em 22.01.19

Millenials-GR8.jpg

 

Fala-se muito dos millenials, a nova geração que está a dar dores de cabeça aos empregadores por ser muito exigente, independente, e difícil de reter. Dizem que mudam de emprego como quem muda de camisa, que preferem não trabalhar a ser mal pagos e que valorizam o work-life-balance, ou seja, não estão dispostos a deixar-se consumir por cargas horárias excessivas. Desenvolver carreira numa determinada área já não é, para muitos deles, um objectivo. Quais camaleões, estão preparados para mudar de rumo a todo o momento, desde que tal resulte em maior qualidade de vida.

Ressentidos, muitos empregadores chamam-lhes egoístas e mimados. Acusam-nos de terem sido educados por pais que lhes deram tudo, algo que os transformou em seres desprovidos do mais leve espírito de sacrifício. 

A perspectiva dos monstrinhos egoístas é diferente. Queixam-se de serem alvo, por sistema, de propostas miseráveis, que fazem tábua rasa dos anos de formação académica que consumiram a preparar-se para ter uma boa vida. Dizem também que os salários que lhes propõem não asseguram autonomia. Olham para o mercado de trabalho e percebem que é o salve-se quem puder. Conforme o seu contexto e características pessoais, uns aprendem a competir sem ética, outros desistem e enveredam por uma adolescência sem termo (são os tão comentados nem/nem, que não trabalham nem estudam), outros ainda apostam num modo de vida alternativo, baseado no improviso, trabalho intermitente e estilo de vida frugal.

O que não se diz é que estes meninos relapsos não nasceram de geração espontânea. Na verdade millenials e empregadores são faces da mesma moeda. A cara e a coroa, o verso e o reverso desta nova cultura do trabalho.

Uns não existiriam sem os outros. 

 


28 comentários

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De Luís Lavoura a 22.01.2019 às 15:30

Mas essa coisa dos millenials não será um conceito que apenas se aplica aos EUA? Ou, eventualmente, também aos países avançados da Europa do Norte, mas certamente que não a Portugal?
É que o trabalho em Portugal tem caraterísticas largamente diferentes das de outros países, e também a educação típica portuguesa é vastamente diferente da educação típica noutros países. E as condições de vida também são muito diferentes.
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De Teresa Ribeiro a 22.01.2019 às 15:51

Basta fazer uma pesquisa no google e facilmente perceberá que o tema é transversal. Ou deverei dizer global? Na Europa - Portugal incluído - e nos EUA fazem-se conferências sobre como lidar com esta geração no mercado de trabalho.
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De jo a 22.01.2019 às 19:14

No fundo é uma nova versão de:
"You pay peanuts, you get monkeys".
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De Teresa Ribeiro a 23.01.2019 às 11:02

Eheheh! Nem mais, Jo
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De Vento a 22.01.2019 às 21:15

Num país, como Portugal, em que as estatísticas apontam para 1.200.000 trabalhadores precários e 700.000 mil desempregados reais, escrever sobre millenials é o mesmo que escrever sobre peanuts. Com o devido respeito que merece a posta aqui deixada.
Quando por tudo e por nada se refere que o mal de que Portugal padece é um problema estrutural, na realidade aponta-se uma verdade. Porém para que essa verdade seja melhor assimilada é necessário acrescentar que esse défice estrutural é essencialmente cultural e educacional.
Certamente que existindo empresários de referência, estes não foram e não são em quantidade suficiente para marcar uma escola empresarial portuguesa que pudesse e possa vitalizar o conceito sobre empregador e empregado.

Como isto não existia e não existe em quantidade suficiente, a escola que dominou foi precisamente o sector empresarial do estado que serviu e serve de referência quer para os trabalhadores em geral quer para os empregadores em particular, com uma vantagem sobre estes últimos: o respeito pela lei é mais estável no sector estatal uma vez que os "empreendedores" do estado sabem que os seus direitos são os direitos do conjunto. Ao invés dos "empreendedores" privados que admitem seus direitos como únicos, mas desviados do conjunto.

Aqui chegados, compreende-se que anda a malhar-se erradamente nas causas estruturais.
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De Teresa Ribeiro a 23.01.2019 às 11:16

Concordo com a sua análise, se exceptuarmos a última afirmação, que de resto contradiz o que começou por escrever: "Quando por tudo e por nada se refere que o mal de que Portugal padece é um problema estrutural, na realidade aponta-se uma verdade".
Temos, pois, que malhar nas causas estruturais (essencialmente culturais e educacionais) que tanto marcam as relações entre empregados - ou devo dizer colaboradores? - e empregadores.
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De Vento a 23.01.2019 às 21:35

Não há contradição nenhuma. O que pretendo referir é que a causa estrutural tem sido até agora questões meramente materiais: reestruturação de serviços, peso do estado, privatização de sectores, mais formação e instrução e rebéubéubéu pardais ao ninho. Tudo isso foi feito e encontramo-nos exactamente por detrás do ponto de partida, isto é, ainda mais atrasados.
A questão cultural e educacional que aponto é uma reforma para ser feita na mente de cada cidadão, pretenda ele ou ela ser empreendedor(a) ou empregado(a).
O sector privado, tal como o estatal, não possui qualquer tipo de emancipação, a não ser no discurso. Líderes e trabalhadores dependentes não são líderes: são seguidores.
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De António a 22.01.2019 às 21:28

Esta geração viu o trabalho ser deslocalizado para países onde os salários são baixíssimos e não há qualquer protecção aos trabalhadores. Durante um tempo toda a minha gente andou contente com os trapinhos e gadgets baratos - e com uma margem de lucro fabulosa. Até procurarem emprego.
Isto só se resolve quando os patrões chineses tiverem os mesmos custos sociais dos patrões alemães, segurança social, férias, reformas. Talvez nunca. Os empregos que ainda pagam bem no ocidente estão agora sob a ameaça de robots e sistemas de inteligência artificial. A utopia de ninguém precisar de trabalhar tem um reverso, que é ninguém receber ordenado. Isso só se resolve quando os próprios patrões começarem a ver os stocks acumularem-se porque ninguém pode comprar. Talvez nunca.
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De Teresa Ribeiro a 23.01.2019 às 11:18

Posto assim, dá um aperto no estômago, mas faz todo o sentido.
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De António a 23.01.2019 às 14:52

Eu tenho esta crença ingénua de que a humanidade como um todo só poderá dormir de consciência em paz quando a humanidade, como um todo, puder ir dormir descansada, sem fome nem bombas a caír ali ao lado. Creio que a informação está a criar uma hive mind onde todos temos mais consciência de todos.
A deslocalização tirou biliões de pessoas da pobreza extrema, à custa dum empobrecimento mais ou menos tolerável de outros. Os millenials não andam a passar fome, por enquanto. Não sou fã de igualitarismos, mas acho que globalmente o saldo é positivo. No entanto o panorama não se afigura sustentável. Muitos comparam os receios do avanço tecnológico com a Revolução Industrial, que acabou por aumentar o nível de vida geral, criar novos empregos, etc. Não sei se esta nova revolução tecnológica é comparável.
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De Teresa Ribeiro a 24.01.2019 às 13:41

Esta também vai criar novos empregos, alguns que nem conseguimos antecipar agora, mas que exigirão competências que não estarão ao alcance de todos. Esse é um problema para o qual os optimistas ainda não têm respostas convincentes.
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De Anónimo a 22.01.2019 às 22:20

Recomendo vivamente:

https://www.youtube.com/watch?v=ATTMB4gH3sU
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De Teresa Ribeiro a 23.01.2019 às 11:32

Obrigada, anónimo. Muito bom!
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De V. a 23.01.2019 às 01:04

Os empregadores fazem tábua rasa de anos de formação académica? A verdade é que desde os anos 90, na ganância dos fundos da UE, sobretudo o Partido Socialista e toda a tropa fandanga psicologista da formação profissional, inventaram um sistema de formação que premeia a ignorância, desajustado das necessidades do mercado de trabalho porque está desfasado pelo menos 5 anos em termos de conhecimento útil (e que só não é pior porque os americanos, esses malvados, continuam a servir o mundo inteiro com o open-source e a formar os paquistaneses que um dia os vão destruir com a sua inveja atávica do mundo desenvolvido), passando por centenas de cursinhos de merda, um ensino público servil desenhado para a mediocridade e para as ideologias e no geral um sistema de ensino que existe para servir os professores e os sindicatos. E ai de quem queira endireitar isto.

Os millennials são vítimas de facto: do Estado e da sua própria estúpida ideologia.
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De Teresa Ribeiro a 23.01.2019 às 11:25

O problema desta geração é global. A nova cultura do trabalho emergiu com a onda liberal que varreu o ocidente. Isso misturado com a globalização e os efeitos da tecnologia digital no mundo laboral deu este caldo. Em Portugal, país mais pobre e com uma classe empresarial na sua maioria com baixa formação, a situação para estes miúdos tornou-se ainda mais dura. Se fosse a si trocava o zoom por uma grande angular, para ver o quadro completo.
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De V. a 25.01.2019 às 19:49

Parece que ver o quadro completo leva as pessoas a escrever coisas como "onda liberal que varreu o ocidente" — e então não quero ver o quadro completo.

A mim o que me interessa é quem é que investe e cria os seus negócios e dá trabalho aos outros — os pequenos comerciantes e as pessoas de espírito liberal. O Estado não é e as esquerdas também não. Esses sugam e corroem o entusiasmo dos outros.

Mas se por onda liberal quer dizer os socialistas que em conluio com os bancos gerem os monopólios que lhes são atribuídos na política e que esmifram e destroem a economia, então estamos de acordo.
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De Vorph Valknut a 23.01.2019 às 08:58

Excelente texto, Teresa! Tenhamos esperança nos millenials....parecem mais corajosos do que os seus cobardes papás.
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De Teresa Ribeiro a 23.01.2019 às 11:08

Obrigada, Pedro. Os papás, quando começaram a trabalhar, beneficiaram de um mercado muito fofinho comparado com o que agora temos...
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De Vorph Valknut a 23.01.2019 às 14:01

Os papás a troco de uma bagatela prometeram ficar calados. O trabalhinho Teresa é muito bonito. E o canudo, mais o anel de curso também. Fomos educados, por eles, a respeitar esta mediocridade cívica e social
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De Teresa Ribeiro a 24.01.2019 às 13:57

De uma geração instalada não se espera outra coisa, Pedro. Além de que mediocridade cívica e social é o que a casa gasta desde sempre. Depois da crise económica europeia, que levou tudo à frente, a ética ficou arrumada de vez.
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De Anónimo a 23.01.2019 às 14:07

Estou admirado pois falam de um assunto importante e não só de política. Há muito mais vida além da política!

Sobre o assunto, se as empresas recorrem a empresas de RH para contratar trabalhadores, então não têm competência para algo simples que é entrevistar um candidato e verificar se serve. Sendo assim terão competência para outras coisas?
É sempre mau quando complicam as coisas, devem eliminar o que está a mais!
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De Bea a 23.01.2019 às 19:25

E há muito quem diga que este modelo veio para ficar e somos nós que estamos errados e não acompanhamos os tempos. Sinto-me tão passado que me pergunto que lugar teremos nós no mundo em que eles dominem; eles, os ditos millenials e seus patrões de ocasião.
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De Teresa Ribeiro a 24.01.2019 às 13:58

Será este o admirável mundo novo, Bea?
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De marta a 23.01.2019 às 23:32

reflexão bem interessante, obrigada!

tenho entrevistado alguns "monstrinhos-millenials" e o que me tem surpreendido é a preparação que parecem trazer da universidade: muitas dificuldades de interpretação de texto, em expor um raciocínio oralmente ou por escrito, falta de métodos de trabalho e pesquisa... e muitos chegam com boas médias de licenciatura/mestrado. Será que lhes mentimos o tempo todo ou o trabalho mudou mesmo radicalmente? é que nao vao ser todos influencers e instagramers e youtubers...
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De Teresa Ribeiro a 24.01.2019 às 14:08

Obrigada eu, Marta. Essa falta de preparação também os ultrapassa e estigmatiza, pois revela a degradação a que o Ensino chegou, com reformas, atrás de reformas, qual delas a mais inútil. A vida não está fácil para estes miúdos e a culpa, em última análise, é das gerações que os precederam, que não os souberam educar, ensinar e oferecer perspectivas de vida decentes.

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