Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Alguns números

por Luís Naves, em 07.10.19

As análises eleitorais apreciam as percentagens, mas o número total de votos ajuda a visualizar factos escondidos. Exemplo: em dez anos, o País perdeu quase 600 mil eleitores. Nas legislativas de domingo votaram menos de 5,1 milhões de pessoas, o menor valor em duas décadas. Ora, em 2009 e 2005, o número de votantes andou em redor de 5,7 milhões. As taxas de abstenção em percentagem são, portanto, uma ilusão. Claro que muitos portugueses emigraram e a população está em queda, mas isso não justifica o desaparecimento de 10% dos eleitores em dez anos e de 3% nos quatro últimos. Só há uma explicação: a abstenção subiu.
Nos valores absolutos há outros dados: o PSD perdeu cerca de 740 mil votos em relação a 2011 e os partidos que fizeram a gerigonça perderam, no total, 55 mil votos em quatro anos. Sim, ao contrário do que foi dito, a geringonça perdeu eleitores, à custa sobretudo do Partido Comunista, que teve o seu pior resultado do século. Neste domingo, a direita tradicional teve também, de forma objectiva, o seu pior resultado. Não há volta a dar: com 1,4 milhões de votos, Rui Rio conseguiu atingir os mínimos do PSD.
Pelo lado dos vitoriosos, o triunfalismo não parece adequado. Em 1999, o PS venceu as eleições com 2,3 milhões de votos e foi o pântano; desta vez, os socialistas ganharam com 1,8 milhões de votos e, sendo minoritários, dispõem de várias combinações de poder. Tudo mudou, mas a erosão socialista continua. O PS ganhou 300 mil eleitores em relação a 2011, mas esse foi o ano da bancarrota. Embora tenha recuperado um pouco, António Costa está neste momento ainda a 720 mil votos do máximo da maioria absoluta de José Sócrates. Com um acréscimo de 120 mil após quatro anos de Governo, o PS ficou 130 mil eleitores abaixo da barreira dos 2 milhões. Até agora, todos os vencedores estiveram acima desse limite (2015 foi o ano em que a regra se perdeu, já que a governação caiu nos braços do segundo partido).
Por outro lado, tornou-se mais fácil entrar no parlamento: os três novos partidos parlamentares tiveram em redor de 65 mil votos cada, mas o BE entrou em 2002 com 132 mil. Obviamente, os eleitores vivem em regiões urbanas e a campanha concentra-se nas regiões onde não existe voto útil, mas parecem resultados frágeis, mesmo que estas formações cresçam, como aconteceu com o PAN e os próprios bloquistas. Apesar de ter perdido 58 mil votos face a 2015, o Bloco de Esquerda continua a ser um partido em crescimento, pois em vinte anos triplicou a votação. O melhor resultado foi em 2009, com a atracção de eleitores que provavelmente tinham contribuído, quatro anos antes, para a maioria absoluta dos socialistas (2,6 milhões de votos, o melhor resultado partidário do século).
Os números também sugerem que não há bipolarização, pelo contrário, existe fragmentação. Longe vão os tempos em que o arco da governação dominava o sistema. Somando PS, CDS e PSD desde 1999, obtém-se um número sempre superior a 4 milhões de votos, excepto a partir de 2015, quando os partidos de poder começaram a perder fôlego. Nas legislativas de 2019, o trio da elite não foi além de 3,5 milhões de votos, havendo 1,6 milhões nos restantes partidos, que podemos definir como de protesto: dito de outra forma, o protesto passou de 15% em 1999 para 31% em 2019. E, em duas décadas, os partidos da governação perderam um milhão de votos.
Em resumo, estas eleições tiveram menos eleitores, deram origem a maior fragmentação do parlamento, representaram os piores resultados da direita numa geração e acentuaram a tendência de redução do espaço dos partidos tradicionais, um dos quais, o CDS, luta pela sobrevivência. Com o descontentamento a crescer e o voto de protesto a consolidar-se, a democracia pode já estar em crise ou mudança.


2 comentários

Sem imagem de perfil

De Isabel a 07.10.2019 às 21:04

O maior protesto sempre crescente vem dos abstencionistas. Com menos de metade dos votos dos eleitores, o conjunto dos partidos da AR representam o quê? Porque será que ninguem questiona a legitimidade de um PM que não convence mais de 20% dos eleitores? Respondem-me que é assim que « as coisas » são. É verdade. Mas não é assim que têm de ser.
É que deixar a escolha dos deputados aos eleitores...estragava as tais « coisas » que são assim.
Imagem de perfil

De Vorph Valknut a 08.10.2019 às 00:25

Concordo. Defendo que nesses casos deveria repetir - se processo eleitoral. No caso de não haver mudança nos resultados da abstenção, o governo seria de iniciativa presidencial

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.



O nosso livro






Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D