Alguns derrotados do comentário político



Em linguagem de banda desenhada, inspirada no Astérix, os resultados das legislativas de domingo deviam ter caído em cima da cabeça dos dirigentes do PSD e de uns tantos sábios que gravitam em seu torno. Levaram um banho de realidade no confronto com o país concreto, que os rejeitou neste dia 30. Tal como já tinha rejeitado em Outubro de 2019. Mas é duvidoso que tenham percebido o que aconteceu.
Revisitar o que disseram, nos dias precedentes ao escrutínio, é um exercício quase penoso.
Repare-se em Pacheco Pereira, uma das vozes mais influentes junto de Rui Rio. Na tertúlia intitulada “O Princípio da Incerteza”, na CNN Portugal, afirmava a 23 de Janeiro:
«Rio sobe em grande parte porque parece um tipo sensato, moderado, que se coloca numa perspectiva de diálogo e respeita o seu adversário. (…) A moderação de Rio é que resulta. Está a fazer exactamente o contrário daquilo que os seus opositores, como Rangel, diziam que ele devia fazer. (…) Este seu crescimento é também um exemplo dos erros dos seus opositores. (…) Ninguém acredita que eles [opositores de Rio] estejam lá [na campanha] de boa-fé.»
Neste exercício dialéctico, não basta incensar o líder: é necessário excomungar os seus opositores internos. Sempre vistos como inimigos, enquanto os externos, apenas adversários, mal são beliscados em homilias repletas de processos de intenção, orientadas para a intriga intestina.
Na noite de domingo, confrontado com o veredicto das urnas, Pacheco não se deixou contaminar pelos factos. Manteve o tom de louvaminha a Rio, enaltecendo-lhe as «qualidade pessoais», e voltou a disparar para dentro, numa saraivada de novos juízos de carácter contra a alegada oposição ao líder: «Alguns até ficaram felizes com este resultado porque se livram do Rio rapidamente.» Concluindo, sem pingo de ironia, que «não podemos julgar os partidos apenas pelos resultados eleitorais».
Na mesma linha, e no mesmo canal, outra personalidade muito próxima do presidente laranja, Manuela Ferreira Leite, declarava também no serão de domingo: «Prefiro ter menos votos mas ser mais coerente.» Três noites antes, havia emitido este douto vaticínio: «Ou ele [António Costa] perde as eleições e diz que se vai embora, ou ganha as eleições, obviamente sem maioria absoluta, e é evidente que vai para os braços da esquerda.»
Conclusão: o PSD teve derrota dupla. Nas urnas e no comentário televisivo. Na galeria dos perdedores, o vice-presidente social-democrata David Justino – outro “analista político” com lugar cativo na CNNP – justifica destaque. «Há um conjunto de votos que transitou do PS para o PSD, o que põe um bocado em causa as leituras precipitadas de que o PSD não conseguiu ganhar parte do centro. (…) Continuo a pensar que a estratégia [de Rio] foi bem definida. Há estratégias que são bem-sucedidas mas que não ganham porque os outros também têm estratégia», afirmou na segunda-feira.
Não esquecem nada, não aprendem nada. Como é que o PSD haveria de ganhar com pensadores destes?
Texto publicado no semanário Novo

