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Algumas observações sobre o Brexit

por Alexandre Guerra, em 24.06.16

1. De sublinhar a elevada taxa de participação, a maior desde 1992 em votações nacionais. Segundo a YouGov, o erro das projecções e a vitória do “Leave” ficou-se a dever a uma taxa de participação acima do expectável em zonas partidárias da saída do Reino Unido da UE.

 

2. Uma das consequências mais importantes deste referendo vai fazer-se sentir dentro do próprio Reino Unido e não tanto com a União Europeia, e tem a ver com o “choque” geracional. Os resultados são claríssimos em termos de “gap” geracional em relação à distribuição de votos. Confirmou-se aquilo que já era expectável: os mais jovens, na sua grande maioria, votaram para ficar no Reino Unido, enquanto os mais velhos seguiram a tendência oposta. Esta divisão tão evidente poderá vir a criar graves problemas sociais em Inglaterra, já que, mais do que visões diferentes sobre o papel do Reino Unido no mundo, estão em causa visões divergentes em relação à forma como os mais jovens e os mais velhos querem estar em sociedade. Estes mostram-se mais conservadores na manutenção dos seus direitos adquiridos e receosos à imigração. Os mais jovens procuram os seus sonhos numa europa mais unida e integrada. Durante o dia de hoje, seja nas redes sociais ou em artigos de jornais, já é possível sentir a crispação, a frustração e até alguma raiva que é demonstrada por eleitores mais jovens em relação aos mais velhos. Este é um dos muitos comentários que se podem ler, neste caso publicado no Financial Times e citado pelo The Guardian. E esclarecedor: “The younger generation has lost the right to live and work in 27 other countries. We will never know the full extent of lost opportunities, friendships, marriages and experiences we will be denied. Freedom of movement was taken away by our parents, uncles and grandparents in a parting blow to a generation that was already drowning in the debts of its predecessors.”

 

3. Quanto à Escócia, era de esperar que aquele país fosse aproveitar o momento para agitar a bandeira independentista. E, neste aspecto, a primeira-ministra Nicola Sturgeon não falhou e adoptou um discurso firme, deixando bem claro que o seu país quer fazer parte da União Europeia e falou na possibilidade de um referendo independentista. Foi hábil na forma como usou a desilusão com os resultados na Inglaterra para enfatizar as diferenças entre os dois países. No fundo, o que ela está a fazer é colocar a responsabilidade de um eventual referendo da Escócia nos ombros dos ingleses. Ou seja, a Escócia tentou seguir um caminho conjunto, mas foi a Inglaterra que não quis. É assim que as coisas estão a ser apresentadas pelos escoceses. Com este resultado, deu-se uma alteração muito substancial no contexto da relação entre os dois países sob a coroa da Rainha. A partir daqui, a Escócia tem toda a legitimidade para seguir o seu caminho. E, não é por acaso, que logo a seguir ao discurso de Nicola Sturgeon, o Partido Nacionalista Escocês (SNP) e a organização Mulheres para a Independência (WFI) começaram a receber pedidos de adesão e donativos para ajudar a realizar o referendo. Nicola Sturgeon avisou ainda que vai pedir à Comissão Europeia e aos Estados-membros reuniões com carácter de urgência para manifestar a sua vontade de adesão. Entretanto, várias personalidades e empresas que se têm manifestado sempre contra a independência Escócia, admitem agora rever as suas posições.

 

4. Mas, talvez aquele que possa ser o problema mais complicado para os líderes ingleses, e que está a ser muito pouco falado, tem a ver com o futuro de Londres, uma realidade completamente à parte do resto do Reino Unido. Na “city”, tal como na Escócia, os resultados foram igualmente expressivos e claros a favor do “Remain”. Ora, isto vai criar uma questão política muito complicada, já que é a “city” o elo de ligação entre o Reino Unido e a União Europeia. Ou seja, na prática, é pela “city” e por tudo o que ela representa, e não tanto pelo “countryside” de Inglaterra, que este assunto ganha tanta relevância histórica. Aliás, Sadiq Khan, que percebeu perfeitamente isso, já passou uma mensagem de tranquilidade a todos os europeus que vivem naquela cidade, dizendo que eles são bem-vindos e que não vão sofrer consequências com o resultado deste referendo. Dirigiu-se também às empresas e investidores, num tom tranquilizador e, de certa forma, deixando a ideia de que se há-de arranjar uma solução que contorne eventuais restrições ao investimento e economia.

 

5. Perante tudo isto, é particularmente significativo que Nicola Sturgeon e Sadiq Khan tenham falado hoje, algo que poucos analistas têm mencionado, mas que é muito, mas muito importante. Sturgeon disse “que existe claramente uma causa comum” entre a Escócia e Londres. Entretanto, já começou nas redes sociais a campanha #Scotlond, onde precisamente se apela à permanência conjunta da Escócia e de Londres na União Europeia.

 

6. No que diz respeito à cena política inglesa, estamos agora na fase da mudança de lideranças. A decisão de David Cameron foi acertada, tendo o cuidado de sublinhar que não havia pressa, mas abrindo caminho para uma nova liderança. Naturalmente, que Boris Johnson se coloca na linha dianteira, no entanto, tem sido prudente nas suas declarações e, para já, não deu sinal de disputa pelo poder. Quanto a Jeremy Corby, que nunca foi propriamente um líder muito popular, poderá ter os dias contados à frente dos trabalhistas. A par de Boris Johnson, Nigel Farage, líder do UKIP, é o outro dos grandes vencedores deste referendo.

 

7. Chamo a atenção para o excelente e oportuno discurso do Governador do Banco de Inglaterra, Mark Carney. Além do conteúdo da sua mensagem, garantindo, entre outras coisas, a liquidez suficiente no sistema financeiro, foi sobretudo o seu tom pausado e firme que mais fez lembrar a estóica e heróica tradição "churchilliana". Aliás, logo a seguir, na CNN, Richard Quest dizia que não se lembrava de ver o Governador do Banco de Inglaterra a reagir desta maneira a um assunto.

 

8. A posição da União Europeia, ao dar o “recado” a Londres para sair o mais rápido possível, revela, pela primeira vez em muito tempo, alguma unidade e firmeza. Até Martin Schulz concorda que prolongar este processo é prejudicial para os interesses europeus. E perante esta firmeza da UE, que pretende “arrumar” rapidamente o assunto Reino Unido, percebe-se a posição de Boris Johnson, quando agora vem dizer que “não há pressa” neste processo. Pois claro, já que Jonhson não tem interesse que o artigo 50º do Tratado de Lisboa seja rapidamente aplicado, pelo menos enquanto não chegar a primeiro-ministro através de eleições, porque tem a noção de que o que vem aí não será o Paraíso na Terra, e quando se começarem a sentir os efeitos práticos da saída do Reino Unido da UE (hoje já se sentiram com a queda da libra e dos mercados) os adeptos do “Leave” podem esmorecer o seu entusiasmo. O jornal The Independent já referia hoje que o processo acelerado iria ser “painful” para a Inglaterra.

 

9. Hoje, Angela Merkel tocou no ponto essencial ao dizer que a ideia do projecto europeu é uma ideia de paz. As pessoas esquecem-se de que há setenta anos os povos europeus matavam-se uns aos outros no coração do Velho Continente. É preciso ter bem a noção de que em termos históricos, a Europa nunca conheceu tanta prosperidade e paz como no período do projecto europeu no pós-II GM. Hoje em dia, muita gente esquece essa perspectiva ampla e alargada, sobretudo os líderes europeus, que passam o dia-a-dia em discussões bizantinas, praticamente a contar números e a olhar para relatórios de Excel. Houve uma dimensão política, humanista e social que se perdeu na governança europeia, mas mesmo assim a Europa continua a ser um farol de liberdade e prosperidade.  


13 comentários

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De Anónimo a 24.06.2016 às 17:39

" Hoje, Angela Merkel tocou no ponto essencial ao dizer que a ideia do projecto europeu é uma ideia de paz. "

Paz podre.
Precisamos de uma paz que dignifique as pessoas e os países, todas as pessoas e todos os países.
Interpretamos, portanto, o brexit como mais um sinal de esperança.
E um ato de coragem contra o medo.
Muito bom!
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De lucklucky a 24.06.2016 às 18:14

A paz na União não tem nada que ver com a União. Mas sim com a Nato e os Americanos, a Guerra Fria e a própria história das guerras que ensinaram lições aos Europeus. Já o fim dos Impérios Soviético e Socialista Jugoslavo não parece ensinar às elites nada.

Acho fantástico o argumento que uma data de gente pelos vistos genéticamente predisposta a fazer a guerra se devem unir. Europeus violentos que se tiverem países se desatam a guerrear devem-se unir num país bem maior.

É muito tranquilizador...
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De lucklucky a 24.06.2016 às 18:15

Seriam boas notícias que Londres também fizesse o seu referendo de modo a reconhecer o direito de secessão a quem quer que seja.
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De Luís Lavoura a 24.06.2016 às 18:16

em termos históricos, a Europa nunca conheceu tanta prosperidade e paz como no período do projecto europeu no pós-II GM

Bem, o período desde 1815 até 1914 também foi largamente pacífico e, na sua parte final, bastante próspero. Em 1910 ninguém podia antever as duas guerras que aí vinham, tal eram a paz e a prosperidade que há 40 anos reinavam na Europa.

Não havendo contrafactual em História, é impossível provar que a União Europeia é a causa da paz que reina na Europa desde 1945.
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De Luís Lavoura a 24.06.2016 às 18:17

Eu acho que Sadiq Khan devia levar a cabo um referendo em Londres, perguntando aos londrinos se querem tornar-se independentes do Reino Unido.
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De lucklucky a 24.06.2016 às 19:56

E se um bairro de Londres quiser sair de Londres também pode ou já não?
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De lucklucky a 24.06.2016 às 18:21

Sobre os velhos e os novos.
Os velhos viveram quer na Inglaterra Independente quer na Inglaterra na União.

Parece que há qualquer coisa na ultima de que não gostam.
Querem mudar. São eles que estão colocar a sua vida mais em risco. Já não têm tanta energia para recuperar.

Os novos não.

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De Anónimo a 24.06.2016 às 19:43

Aos velhos restam-lhes uns 15 anos. (e durante 2 anos ainda vão estar na UE)
Aos novos falta-lhes a vida toda.
Vão ser os novos que vão ter de viver com a consequência do resultado do referendo. Não os velhos. Estes pouco ou nada vão ter de enfrentar.
Lixaram a vida aos filhos e aos netos.
Os novos vão ter de trabalhar e viver com o resultado do referendo.
Sim, os novos é que estão lixados.
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De lucklucky a 25.06.2016 às 00:10

Pelos vistos os coitadinhos dos jovens Ingleses da "geração mais instruída de sempre" não valem nada nem para eles próprios nem para os outros. Ficam com a vida lixada ao fazerem parte de um país e "trabalhar"!
É de facto um drama do Sec.XXI

Peter Shore:

"What is the message? Fear. Fear, because you won't have any food. Fear of unemployment. Fear that we've somehow become so reduced as a country that we can no longer go about in the world, independent as a nation.

E o mais importante:

A constant attrition of our morale; a constant attempt to tell us that what we have – and what we have is not only our own achievement, but what generations of Englishman have helped us to achieve – is not worth a damn.

"What we now have to face in Britain, what the whole argument is about, now that the fraud and the promises have been exposed, is basically the morale and the self-confidence of our people. We CAN shape our own future."

Foi em 1975.

https://www.youtube.com/watch?v=1j-Gb8Pk2Pk
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De js a 24.06.2016 às 18:35

9. Faz bem em falar em paz a senhora. Afinal as guerras em causa nem foram iniciadas por ela.
Quanto às guerras de conquista de espaço vital, actuais, perguntem, outra vez, aos gregos ... e a outros.

"peace in our time'.
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De Pedro Correia a 24.06.2016 às 23:16

Aos gregos pergunto por que não respeitam os referendos que organizam, ao contrário dos ingleses.
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De cristof a 25.06.2016 às 05:54

Todos os povos defendem os seus interesses, a difernença é se têm força para os impor; a I. não teve.
A Escocia foi bem clara quer estar na UE e fora da GB; não precia de por a responsabilidade em ninguém mais.
A City também quer a UE e não a GB. Mas Bruxelas não tem um menu a la carte, memso para os hipocritas ingleses.
As gengives já devem estar a salivar para ocuparem os lugares deixados vagos pelos ingleses; o vagar de B Johson vai ser um apr de patins de alta competição.
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De jj.amarante a 25.06.2016 às 12:03

Análise boa e sensata.

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