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Algumas notas sobre música

por Alexandre Guerra, em 29.05.16

1. Depois de ter lido bastante sobre o álbum e o artista, já andava há meses para comprar o "To Pimp a Butterfly" do rapper Kendrick Lamar. Fi-lo hoje. Tinha sido considerado de forma quase unânime pela crítica como um dos melhores álbuns de 2015, o que é um feito, já que estamos a falar de hip hop agressivo e duro, vindo directamente de Compton. A cidade no sul de Los Angeles, casa dos gangues rivais Crips e Bloods e que, nos anos 80, viu nascer o "gangsta rap", por um grupo que iria ficar para a história, os N.W.A. Os Niggaz Wit Attitudes tinham, entre outros, o Dr. Dre e o Ice Cube na sua formação. A difícil conjuntura social que se vivia na altura e a vivência hostil da comunidade negra em particular naquela grande zona metropolitana, acabou por ser inspirador para a composição do primeiro e mítico álbum daqueles rappers, Straight Outta Compton (1988). Entretanto, os anos foram passando, e depois dos trágicos acontecimentos de 1992 em Los Angeles, o final dessa década e o início dos anos 2000 trouxeram alguma acalmia a Compton, mas nem por isso os problemas desapareceram e a criatividade se esvaiu. Pelo contrário, "To Pimp a Butterfly" de Kendrick Lamar espelha as várias fracturas que os Estados Unidos teimam em não sarar, mas também a sua própria visão crítica enquanto "nigga" de Compton. O racismo, a discriminação, a violência policial sobre os negros, a exclusão e a auto-exclusão social dessa comunidade, a violência e desunião entre entre os "niggas"...ouvindo as músicas de Lamar, percebe-se que a América de hoje continua a ser tão perturbadora como a dos anos 80. E também por isso, o álbum é poderoso.  

 

 

2.Há uns anos recordo que eu e dois colegas meus tivemos uma daquelas discussões (estúpidas) que não levam a lado algum sobre qual seria a banda que mais importância e impacto teria na história da música recente, se os Red Hot Chili Peppers ou os Radiohead. Naquela altura, era (e sou) um grande fã de Anthony Kiedis, Flea e companhia e embora já tivesse sido num passado longínquo que a banda californiana dera a conhecer ao mundo o genial "Blood Sugar Sex Magik (1991)", os alicerces que criaram ao nível do funk rock abriram caminho para a inspiração criativa de muitas outras bandas. É certo que o seus trabalhos posteriores entraram num caminho que se afastou dessas raízes primitivas e mais agressivas, para um estilo menos funk e mais pop. Mas mesmo assim, sempre considerei que os seus álbuns estão na generalidade sempre muito acima do que se vai fazendo por aí. Quanto aos Radiohead, com um estilo musical completamente diferente, os meus dois colegas também tinham argumentos de peso na defesa do seu caso, já que em 1997 a banda de Thom Yorke lançou um dos melhores álbuns dos últimos 20 anos: "Ok Computer". Também este disco se tornou uma referência musical, quer ao nível criativo, quer ao nível do conteúdo da sua mensagem. Os Radiohead nunca mais voltaram àquele nível (o que é normal), mas continuaram a fazer álbuns de grande qualidade e aclamados pela crítica. Por coincidência, e depois de alguns anos sem terem editado nada, os Radiohead e os Red Hot estão a lançar álbuns novos, que deverão chegar nas próximas semanas em formato físico às lojas. A banda de Thom Yorke já lançou o álbum, A "Moon Shaped Pool", nas plataformas digitais, antecipando-o com dois singles e respectivos vídeos que espelham bem a qualidade superior desta banda: o incendiário Burn the Witch e o poético Daydreaming, realizado por Paul Thomas Anderson. Os Red Hot deram apenas a conhecer uma música do novo "The Getaway", que começa com uma malha fortíssima do baixo do Flea.

 

 

3. Roberta Medina poderá dar as voltas que quiser e até dizer que o Rock in Rio é um festival "mainstream" (que efectivamente é), mas isso não poderá servir para iludir a realidade e não constatar que a edição deste ano teve um alinhamento muito débil ao nível dos cabeças de cartaz. Exceptuando a noite de Bruce Springsteen, todas as outras não tiveram nomes com o verdadeiro estatuto de cabeça de cartaz num festival deste género que pode levar até 85 mil pessoas ao recinto. Maroon 5, Hollywood Vampires, Queen com Adam Lambert ou Avicii??? Não está em causa a sua qualidade ou actuação, mas basta consultar todas as edições desde 1985 e facilmente se percebe que ao Rock in Rio 2016 faltaram aqueles grandes nomes que dão dimensão musical e até histórica ao acontecimento.

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