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Alepo, cidade-mártir

por Pedro Correia, em 20.12.16

aleppo-may[1].jpg

Foto: Karam Al-Masri / AFP

 

Enquanto escrevo estas linhas, morrem seres humanos em Alepo. A lista de mortos ultrapassou 30 mil no ano passado, não havendo mais estatísticas oficiais de então para cá.

Aquela que foi a maior cidade síria - com uma população superior a cinco milhões de habitantes antes dos primeiros disparos, em Fevereiro de 2012 - e uma das urbes mais cosmopolitas do mundo árabe sucumbe sob os escombros da guerra total que contra ela foi decretada pelas hordas assassinas do ditador Bachar Assad, acolitado por milícias xiitas financiadas pelo Irão teocrático e por essa Legião Condor dos tempos modernos representada pelos sinistros bombardeiros russos.

Vladimir Putin, principal parceiro de Assad, bloqueou nos últimos cinco anos na ONU todas as resoluções que podiam determinar um desfecho não-sangrento para o drama sírio – incluindo a abertura de um corredor humanitário com supervisão internacional e o lançamento de víveres por via aérea aos civis sob cerco. Os vetos de Moscovo no Conselho de Segurança, somados à passividade da administração Obama, provocaram o êxodo maciço da população síria, que foge para onde pode, obedecendo ao instinto de sobrevivência.

Ei-los aí, os sírios em fuga - sem tecto, sem trabalho, sem assistência médica, subitamente desenraizados, buscando a Grécia, acorrendo ao Líbano, rumando aos campos de encarceramento turcos que servem para o proto-ditador Erdogan usar essa magoada e dolorida “mercadoria humana” como alvo de chantagem junto das chancelarias europeias.

 

Enquanto escrevo, mais uns civis sucumbem em Alepo, cidade-mártir. Alvejados por franco-atiradores munidos com fuzis russos e pagos pelos aiatolás de Teerão. Morrem mulheres e crianças, vitimadas por bombas de fósforo e gás de cloro, e o mundo cala-se. Consente estas novas Guernicas, estas novas Sarajevos. Em Portugal há até quem faça coro com o tirano de Damasco, que há muito devia ter sido forçado a trocar o trono de déspota pelo banco dos réus, respondendo por crimes de lesa-Humanidade por ter permitido a utilização de armas químicas contra a população do seu país.

Putin, que recebeu como prémio por apoiar Assad a primeira base naval russa no Mediterrâneo, segue na Síria a cartilha que já mandara aplicar à Chechénia: “encurralá-los até ao fim”. Assim transformou Grozni há década e meia num mar de ruínas, indiferente aos clamores da comunidade internacional. A mesma indiferença a que vota hoje as patéticas mensagens de impotência do secretário de Estado norte-americano, John Kerry, que se limita a derramar lágrimas desvalidas perante o massacre, como se não representasse a maior potência económica, diplomática e militar do planeta.

 

Enquanto escrevo estas linhas, mata-se e morre-se nos últimos bairros sitiados de Alepo, onde todas as sombras macabras da história – da Tróia antiga à Estalinegrado do século XX – ressurgem numa demonstração evidente de como é ténue e frágil o fio que separa a civilização da barbárie, numa chocante confirmação de que o vertiginoso progresso tecnológico é incapaz de alterar um átomo da natureza humana.


54 comentários

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De Luís Lavoura a 20.12.2016 às 14:20

Pois, mas qual a solução alternativa que o Pedro proporia?
Em Alepo entricheiraram-se, tornando a população civil como refém e transformando-a em escudos humanos, uns milhares de combatentes rebeldes. Como sugeriria o Pedro que eles fossem desalojados de lá? Como se poderia libertar a cidade, e a sua população, desses facínoras - muitos deles comprovadamente associados à Al Qaeda?
É evidente que o destino de Alepo é muito triste - mas a maior culpa dele não é de Assad nem dos russos, e sim dos facínoras que lá se acoitaram.
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De Corvo a 20.12.2016 às 14:39

Sim? E quem patrocina, apoia, protege dando cobertura a esses facínoras que la se ocultam?
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De Luís Lavoura a 20.12.2016 às 16:20

São patrocinados e apoiados pelos Estados Unidos e seus aliados (especialmente França e Reino Unido), que fornecem diretamente apoio "não-letal" (em particular ambulâncias e outro material para os "capacetes brancos") e indiretamente (através dos seus aliados Arábia Saudita e Qatar, e no passado também a Turquia) apoio letal.
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De tric.lebanon a 20.12.2016 às 14:30

eu gosto do Puttin e Bashar Al-Assad!! apoiar Puttin e Bashar Al-Assad é apoiar genocidas...apoiar os Daesh é defender a liberdade...Puttin e Bashar Al-Assad só tem é que reconquistar os molembeques de Allepo!!! é certo que tem muito apoiantes na comunicação social...os molembeques daquela região ja destruiram grandes comunidades cristãs naquela região e o silêncio foi total, como dizia há alguns dias um comentador no jornal do libano, " ataca-se os mollembeques e surgem logo a histórias do genocidios ".
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em 2014, quando começou mais ou menos a ofensiva dos molembeques em Allepo e silêncio europeu era conivente com avanço...agora que os mollembeques são perseguidos...
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http://www.catholicnewsagency.com/news/how-christians-in-syria-keep-the-faith-amid-a-civil-war-22835/
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De Pedro Correia a 20.12.2016 às 16:19

Você é como o coronel Kilgore, que adorava o cheiro do 'napalm' ao amanhecer. Nada como o gás de cloro para lhe incutir adrenalina.
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De tric.lebanon a 20.12.2016 às 17:10

por acaso fiquei contente com a queda dos mollembeqes em Allepo !! depois de vários anos de noticias que vinham de Allepo em que os seus "amigos" molembeques de Allepo perseguiam as comunidades cristãs, finalmente uma boa noticia que chega de Alepo ! os molembeques...
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"Aleppo, Syria, Jul 24, 2015 / 06:07 (...)
“At the time of this writing, Aleppo is undergoing a massive assault by jihadists, and bombs have been falling for hours. It is as if everything is being done to scare people and push them to leave,” Melkite Archbishop Jean-Clement Jeanbart of Aleppo wrote in a July 17 letter.
http://www.catholicnewsagency.com/news/aleppo-archbishop-working-to-provide-means-for-christians-to-stay-in-syria-51219/
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De Pedro Correia a 20.12.2016 às 17:15

Trinta mil mortos (estatística desactualizada, pois a contagem de cadáveres oficial parou em 2015) são em quantidade suficiente, creio, para o encherem de júbilo.
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De tric.lebanon a 20.12.2016 às 17:25

sim 30 mil mortos e tem um culpado...quem forneceu as armas a Al-Qaeda e destabilizou a Siria!! ou vai dizer que foram os Russos e Bashar Al-Assad que promoveram o Caos na Siria !!!???
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De Pedro Correia a 20.12.2016 às 18:47

Os russos são especialistas em "promover o caos". Basta ver o que fizeram em Grósni, em 1999-2000. A capital da Chechénia, segundo a ONU, tornou-se a "cidade mais destruída do mundo".
Uns meninos de coro, os jagunços do ditador Putin.
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De tric.lebanon a 20.12.2016 às 22:17

"Uns meninos de coro, os jagunços do ditador Putin."
.
só tenho a dizer, obrigado jagunços do Grande Czar da Russia, Putin, pela derrota que estão a infligir aos mollembeques em Allepo!!! já deu para reparar que os mollembeques europeus andam muito tristes com o que está a acontecer à sua irmandade em Alepo!!
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De Pedro Correia a 20.12.2016 às 22:27

Cuidado com as cãimbras nesse braço direito que mantém estendido.
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De tric.lebanon a 21.12.2016 às 00:26

o avanço poder dos mollembeques na Europa num espaço de...desde que foi destruido o Império Católico Português, tem sido algo de impressionante...
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De Bordalo a 21.12.2016 às 09:27

Vá mais para trás. Veja o desmoronamento do Império Turco (IG) e do Império da Grã Bretanha. E já agora as politicas árabes apoiadas pelos nazis durante a IIGG, nomeadamente o grão mufti Mohammad Amin al-Husayni. Quanto à perda da India nem pólvora havia nas Mausers. Bem fez o "infiel" Vassalo da Silva. Só uma achega.
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De tric.lebanon a 21.12.2016 às 13:27

A Europa apoiou a destruição do Império Português e promove a o Império de Meca !!
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De Bordalo a 21.12.2016 às 09:13

Uma prenda:

https://www.youtube.com/watch?v=emNUP3EMu98

Feliz Natal!
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De Pedro Correia a 21.12.2016 às 11:11

С Рождеством!
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De tric.lebanon a 21.12.2016 às 14:03

Bom Natal !! esperando que 2017 seja o ano em que a paz regresse com a derrota dos mollembeques em Allepo!!
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https://www.youtube.com/watch?v=02VJnWWJFMo
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De Luís Lavoura a 20.12.2016 às 16:26

ja destruiram grandes comunidades cristãs naquela região e o silêncio foi total

Pois.

Ainda há pouco tempo passaram na rádio portuguesa, no programa Ecclesia da igreja católica, o testemunho de uma freira síria, a dizer que a situação do convento dela está muito melhor desde que a região ficou firmemente na posse governamental, mas que dantes, quando estava sob a posse dos rebeldes, era um inferno.

É claro que os cristãos que governam nas capitais "ocidentais" se estão bem marimbando para testemunhos como esse. Para eles o regime laico de Assad é anátema, bom bom seria ver a Síria sob um regime muçulmano sunita radical, ao gosto da Arábia Saudita e do Qatar, países que tão bem apoiam os "rebeldes".

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De tric.lebanon a 20.12.2016 às 17:20

É claro que os cristãos que governam nas capitais "ocidentais" se estão bem marimbando para testemunhos como esse. Para eles o regime laico de Assad é anátema, bom bom seria ver a Síria sob um regime muçulmano sunita radical, ao gosto da Arábia Saudita e do Qatar, países que tão bem apoiam os "rebeldes".
.
mas hoje o Ocidente, já podemos afirmar sem grande erro, que está sob domínio do Império de Meca...o Império de Meca controla os principais centros financeiros europeus...curioso foi observar a televisão publica portuguesa, quando os cristãos estavam a ser perseguidos na cidade de Alepo o silêncio total, nem um piú...agora quando os molembeques perdem terreno em Alepo...a estação publica tem que alterar o nome, de Radio Televisão Portuguesa para Radio Televisão Molembeque...
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De Salazar marxista a 21.12.2016 às 09:31

Ó Francos, de quantas maneiras Nosso Senhor vos abençoou? Vede quão férteis são vossas terras. Quão verdadeira é vossa fé. Quão indisputável é vossa coragem.

"A vós, abençoados homens de Deus, dirijo estas palavras. E que não sejam levadas levianamente, pois são expressas pela Santa Igreja, que, pelo sagrado pacto com Nosso Senhor, é sua santíssima voz na terra.

“Vós que sois justos e bons, vós que brilhais na santa fé escutai. Sabei da justa e grave causa que nos reúne hoje aqui, sob o mesmo teto, na piedade de Nosso Senhor.

“Relataremos fatos horríveis que ouvimos sobre uma raça de homens completamente afastados de Deus e desprovidos de fé.

“Turcos, Persas, Árabes, amaldiçoados, estranhos a nosso Deus, que devastam por fogo ou espada as muralhas de Constantinopla, o Braço de São Jorge.

“Até hoje, por misericórdia do Supremo, Constantinopla foi nossa pedra, nosso bastião da fé em território infiel. Agora essa sagrada cidade encontra-se desfigurada, ameaçada.

“Quantas igrejas esses inimigos de Deus conspurcaram e destruíram? Ouvimos de altares e relíquias sendo profanados por sujeira produzida por corpos Turcos.

“Ouvimos sobre verdadeiros crentes sendo circuncidados e o sangue desse ato sendo vertido em pias batismais.

“O que podemos vos dizer? Turcos transformam solo sagrado em estábulo e chiqueiro, expelem o conteúdo de seus fétidos e putrefatos corpos em vestimentas dos emissários do Evangelho de Nosso Senhor.
Os descrentes forçam Cristãos a ajoelhar sobre essas roupas imundas, curvar as cabeças e esperar o golpe da espada.

“Essas vestes, que através da imundície e sangue são testemunhas das aberrações fruto da falta da verdadeira fé, são exibidas junto com corpos dos mártires.

“O que mais devemos lhes dizer, ó fieis? Turcos abusam de mulheres cristãs. Turcos abusam de crianças cristãs.

“Pensai nos peregrinos da fé que cruzam o mar, obrigados a pagar passagem em todos os portões e igrejas de todas as cidades.

Quão frequentemente esses irmãos no sangue de Cristo passam por humilhações e falsas acusações?

“Aqueles que viajam na pobreza, como são recebidos nesses lugares de nenhuma fé? São vasculhados em busca de moedas escondidas.

“As calosidades em seus joelhos, causadas pelo ato de fé ao Nosso Senhor, são abertas por lâminas. Aos fiéis são dadas bebidas vomitórias para que sejam vasculhadas suas emissões estomacais.

“Após isso são ainda obrigados a sorver excremento liquefeito de bodes e cabras de forma a esvaziar suas entranhas. Se nada for encontrado que satisfaça essas filhos do inferno, ó fieis, escutai.
Turcos abrem com lâmina da espada as barrigas dos verdadeiros seguidores, de Jesus Cristo em busca de peças de ouro ingeridas e assim escondidas.

“Espalham e retalham entranhas mostrando assim o que a natureza manteria secreto. Tudo a procura de riquezas ou por prazer insano.

“Turcos perfuram os umbigos dos fiéis, amarram suas tripas a estacas e afastam os cristãos, prendendo-os com cordas a outro poste, de forma a que vejam suas próprias entranhas endurecendo ao sol, apodrecendo e sendo consumidas por corvos e vermes.

“Os Turcos perfuram irmãos na fé com setas, fazem dos mais velhos alvos móveis para seus malditos arcos. Queimam os braços e pernas dos mártires até carbonizá-los e soltam cães famintos para os devorar ainda vivos.

“Ó Francos, o que dizer? O que mais deve ser dito?

“A quem, pois, deve ser dirigida a tarefa de vingança tão santa quanto a espada de São Miguel?

“A quem Nosso Senhor poderia confiar tal tarefa senão aos seus mais abençoados e fiéis filhos?

“Ó Francos, vós não sedes habilidosos cavaleiros? Poderosos guerreiros ao serviço da palavra de Deus? Próximos a São Miguel na habilidade de expurgar o mal pela espada

(Continua)

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De tric.lebanon a 20.12.2016 às 14:47

nem uma palavrinha sobre os Daesh !!?? nesta guerra são as vitimas...
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De Pedro Correia a 20.12.2016 às 16:19

Preocupa-me a população civil. Os desalojados, os indefesos. As eternas vítimas de todas as guerras.
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De tric.lebanon a 20.12.2016 às 17:12

mas pelos vistos só as de um lado...nem uma palavrinha sobre o Imperio de Meca e seu papel na guerra da Siria!!
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De Pedro Correia a 20.12.2016 às 17:17

As vítimas, todas, merecem-me respeito e solidariedade humana. De indignações selectivas está o inferno cheio.
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De tric.lebanon a 20.12.2016 às 17:28

a sua indignação para mim é muito selectiva!!!
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De Pedro Correia a 20.12.2016 às 17:33

Ainda bem que a sua opinião é essa. Detestaria que concordasse comigo.
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De tric.lebanon a 20.12.2016 às 17:51

claro que não concordo consigo...o seu humanismo é um humanismo bastante daesh...
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De Pedro Correia a 20.12.2016 às 18:50

Faz sentido que você aplauda a destruição de Alepo. Se estivéssemos em 1937 aplaudiria a destruição de Guernica e seria entusiasta da Legião Condor.
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De tric.lebanon a 20.12.2016 às 22:35

se estivéssemos em 1937 a minha posição era clarissima!!! a Espanha é um Reino Católico ponto final paragrafo ! tal e qual é a de 2017...não se alterou nada!!!
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De Pedro Correia a 20.12.2016 às 22:45

Se fosse em 1937, você mantinha o braço direito bem esticado, tal como o tem agora. E, embora desafinado, cantava 'Deutschland über alles' a plenos pulmões.
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De tric.lebanon a 21.12.2016 às 01:34

se fosse 1937 era apoiante de Salazar, sem dúvida...imagine que as forças anti-Católicas tem ganho em Espanha ...se tal tem acontecido...em 2017 já éramos um Califado !! .. basta olhar, em 2016, para Londres Anti-Católica e a Paris Anti-Católica, para chegar à mesma conclusão...
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De Bordalo a 21.12.2016 às 09:15

Tric. vim agora da Modalfa. As cotas de malha estão em promoção. E o mais espantoso é que na compra de uma oferecem-lhe uma santinha que brilha no escuro!
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De Jeremias a 20.12.2016 às 15:24

Percebo-o, Pedro! Mas antes da branca Síria, que toda a noite nos entra pela sala adentro, lembro-me do negro Sudão.

Mas talvez tudo isto seja normal. Talvez a desgraça de uns nos sirva de triste consolação - "afinal não me posso queixar. Há gente pior do que eu".

Por vezes quando ligo a TV, ou a Rádio, para ouvir a "actualidade", tenho de pôr baixinho para mais ninguém a ouvir - A Actualidade! (mais vale a ignorância, e a certeza que sempre a acompanha).
E depois também a crise, que de conjuntural, passou a estrutural - esse jargão que apenas serve para tornar a mentira verosímil - como a guerra.

Olho para muitos, e falo com os demais, e todos velada, ou não, anseiam pela velhice. Pelo fim. Pela reforma da vida. E adiam-se, pois o hoje não serve. Terás servido alguma vez? Perdem-se absurdamente. E é vê-los com 40 anos, cheios de fel, nas suas falsas partidas (a idade dos "começares de novo" ficou na berma da estrada). Esses que fazem do calendário os dias de férias.

Bem sei que isto pode parecer conversa démodé, de fanático religioso, eu que nem crente sou. Mas, julgo que no dia em que decidimos matar Deus, matámo-nos. Com ele enterrámos o medo da danação eterna e tudo passou a ser permitido, em nome da Liberdade (para quê?). Essa milagrosa liberdade que nos diz que do vicio, de cada um, nascerão virtudes colectivas. Tudo tão mais simples. Sem dor. Sem castigo. Sem arrependimento. A felicidade à distância de um clique.

Sobre a natureza humana, talvez seja bom relembrar-nos de Dostoiévski. Se Cristo voltasse provavelmente confundia-mo-lo com um Idiota.



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De Pedro Correia a 20.12.2016 às 16:22

Meu caro, no drama de Alepo sobram as palavras e escasseiam os actos. Bem basta, como mau exemplo, a patética declaração do secretário de Estado dos EUA, que chora o massacre mas nada fez para o impedir.
Agora, com a maior cidade síria quase reduzida a escombros, já pouco resta para fazer.
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De Jeremias a 20.12.2016 às 16:56

Para actos, o Mário Nunes. Quantos saberão quem foi?
Por aqui só a coragem do teclado. Da palavra. A minha.
E se Alepo está em ruínas como está Palmira? Mossul, Kabul, Saná, Mogadíscio, Adis Abeba, Porto Príncipe...Argumentum ad nauseam
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De Pedro Correia a 20.12.2016 às 17:12

É preciso abraçar a barbárie de forma convicta e abominar todos os princípios civilizacionais para destruir uma das cidades mais antigas do planeta, que albergava um número de habitantes equivalente a 55% da população total do nosso país.
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De Luís Lavoura a 20.12.2016 às 15:40

Na guerra civil síria tem havido montes de cercos a montes de cidades e aldeias. Agora, a guerra de propaganda ocidental resolveu fazer do cerco de Alepo uma coisa muito especial e trágica, esquecendo muitos outros cercos que tem havido e continua a haver. Em particular, escamoteando que a evacuação de Alepo foi recentemente boicotada pelos revoltosos - os quais impediam a população civil de Alepo de fugir - porque eles se recusaram a, em troca, permitir também a evacuação de duas aldeias xiitas que estavam a cercar na província de Idlib. Escamoteiam também que a cidade de Deir-ez-Zor permanece há longos meses em poder do exército sírio mas cercada por forças rebeldes, tendo que ser abastecida a partir do ar.
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De Maria Dulce Fernandes a 20.12.2016 às 16:37

Diplomacia... conversações... observadores...

A insustentável leveza das acções é inenarrável. Palavras ferem, mas não matam. Balas e bombas sim.
Alepo simboliza toda a ignomínia , destruição e morte que se pratica hoje em nome da aniquilação de um mal maior.
Alepo é dano colateral , a morte é dano colateral, a tragédia é dano colateral.
Enquanto as palavras forem fracas e as acções forem leves, a morte sai à rua, cai do céu, brota tóxica de mar e ar...
Panos quentes, mera oratória, ver só por ver... Valha-lhes Deus. Para desumano já bastam os homens que mandam e os que fingem não ver.

Excelente texto Pedro. Pese ser Natal época por excelência da boa vontade .
Não existe vontade e a réstia de boa nada tem.

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De Pedro Correia a 20.12.2016 às 16:43

A tragédia de Alepo ficará inscrita para sempre nos anais da ignomínia humana, Dulce.
Mas nem o facto de estarmos no Natal desarma os guerreiros de sofá, que sentem orgasmos múltiplos perante a política de terra queimada e as ordens de execução do inimigo até ao último homem, como esta caixa de comentários bem demonstra.
Estivéssemos nós em 1937 e andariam eles por aí, glorificando as bombas da Legião Condor em Guernica.
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De Anónimo a 20.12.2016 às 16:57

Em Alepo todas as noites são noites de cristal, mas a poeira que o vento levanta não é de vidro, mas de um pó fétido, húmido e barrento, feito da decomposição do carácter , da honestidade e da coragem daqueles que podem, mas não querem.
Com um mundo de almas que quer mas não pode...
Dissessem que vergonha era uma fénix, ainda poderia haver esperança onde só existem cinzas...
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De Pedro Correia a 20.12.2016 às 22:30

Sim, em Alepo todas as noites são de "cristal". Porque são de exclusão deliberada, de morticínio calculado, de crimes sem rosto contra o género humano configurado em pessoas abatidas como peças de gado num matadouro.
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De Jeremias a 20.12.2016 às 17:06

O que se passava em Auschwitz sabia-se desde 1942. E os massacres de judeus, pelos nazis, desde pelo menos 1941 (Em Dezembro de 1942, cerca de 75% das vítimas do Holocausto já tinham sido mortas ). Qual a novidade, do que se passa na Síria?
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De Pedro Correia a 20.12.2016 às 17:13

O urbicídio de Alepo é o maior e mais devastador da história moderna. Lamentavelmente, muita gente o ignora. Direi mesmo: a grande maioria.
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De Jeremias a 20.12.2016 às 17:46

E a Jugoslávia, Pedro? À Europa falta-lhe a força das convicções. Ninguém está disposto a fazer alguma coisa, pois ninguém acredita em nada. Tornamo-nos especialistas em brincar às verdades e não em acabar com as guerras. Para acabar com as guerras é necessária a força do argumento. Saber que a Razão está do nosso lado. E ela não está, desde a IIGG, desde a Jugoslávia, desde o Iraque, etc.
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De Maria Dulce Fernandes a 20.12.2016 às 17:26

O comentário acima é meu também, por isso respondo.
A novidade é que estamos no séc. XXI e estas "novidades " nunca deveriam ter saído da história do século passado, com a qual , pelo visto não aprendemos nada.
A novidade é que a consciência teve em breve ressurgimento e depois se esfumou no crematório da degradação.
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De lucklucky a 20.12.2016 às 16:51

Quando as boas pessoas rejeitam as armas é isto que acontece.
O poder é representado por 2 lados maus.
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De Porfirio Tinto a 21.12.2016 às 09:22

Boas pessoas e armas? Uma combinação semelhante à do vinho com a melancia.
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De JSP a 20.12.2016 às 20:06

Claro que , em termos "informativos", se trata de pré - História, mas já ninguém se lembra do discurso de Obama, no Cairo, em 2009, e das subsequentes e radiosas "primaveras árabes", cujas virtudes, salvíficas e milagrosas, foram apregoadas "urbi et orbi" pela cáfila do "pulhìticamente" correcto?..
Digamos que Allepo é o triste, tristíssimo resultado de todas essas criminosas aldrabices.
E o "entertainer" ainda teve o Nobel como bónus...
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De Pedro Correia a 20.12.2016 às 22:27

É um comportamento inqualificável encorajar as revoltas democráticas e liberais no norte de África e no Médio Oriente e depois nada fazer para as auxiliar no terreno, deixando-as ser esmagadas uma a uma. Este foi talvez o maior pecado, embora não o único, de Barack Obama na condução da política externa de Washington ao longo dos últimos oito anos.
Quanto ao Nobel da Paz, foi pura demagogia totalmente destituída de fundamento. Logo na altura comentei isso aqui:
http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/1072630.html
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De JPT a 21.12.2016 às 10:53

Se, em Agosto de 2013, o poder militar de Bashar tivesse sido obliterado, imediatamente após atacar com armas químicas os rebeldes nos subúrbios de Damasco, pisando a “linha vermelha” que Obama tinha traçado um ano antes, o mundo seria um lugar mais estável: o desastre humanitário seria menor (quanto mais não seja, porque, friamente, os chiitas são seis vezes menos que os sunitas), o conflito curdo-turco não se teria reacendido (e Erdogan não o teria usado para fins políticos), Putin não teria intervindo na Síria nem invadido a Ucrânia e anexado a Crimeia. Como os eventos de 1938 e 1939 (ou 1962) deviam ter ensinado, face aos ditadores, é a fraqueza, e não a força, a causa das guerras
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De Pedro Correia a 21.12.2016 às 11:06

É a minha leitura também, JPT. Obama - munido do Nobel da Paz que lhe foi concedido escassos nove meses após assumir funções, sem nada que o recomendasse para o efeito - comportou-se no conflito sírio com a tibieza de um gigante com pés de barro.
Não agir a tempo, em política, transforma o grave em irreparável. O drama sírio - com 260 mil mortos, mais de cinco milhões de refugiados e consequências explosivas para o continente europeu - constitui uma nódoa na política externa norte-americana dos anos mais recentes.
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De JPT a 21.12.2016 às 11:31

Pior, o horror diário de Alepo encaixa com perfeição na narrativa dos extremistas islâmicos (como se viu no assassinato do embaixador russo em Ancara), que o soma à indiferença que o Ocidente revelou nas selvagens guerras da Bósnia e da Chechénia (e revela face aos indiscriminados bombardeamentos no Iémen); ao apoio ocidental aos golpes militares no Egipto e na Turquia e à repressão sectária no Bahrein (nos países muçulmanos, o respeito pela democracia faz pausa); à opção pela desistência face ao caos do Iraque e da Líbia (na sequência de intervenções Ocidentais); e, claro, à total inércia na resolução da questão palestiniana. Noto, esta não é (na sua totalidade) uma narrativa que eu partilhe, mas tenho a percepção que ela existe, e que é diariamente reforçada em Alepo, o que, pelos vistos, não preocupa nada o Ocidente. E, no entanto, dadas as limitações que sempre terão as respostas securitárias ao terrorismo - até em ditaduras, quanto mais em sociedades democráticas, liberais e globalizadas, como aquelas em que queremos viver - este seria um problema melhor abordado na sua origem, com uma política externa Ocidental coerente com os seus princípios e palavras, o que foi exactamente o oposto do que Obama fez na Síria e no restante Médio Oriente.
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De Pedro Correia a 22.12.2016 às 00:10

Muito bem. Subscrevo.

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