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Alarmismos e revanchismos

por João André, em 10.11.15

Quando faço os meus ataques a posições adversárias tento apresentar tanto quanto possível a minha argumentação. Quando não tenho factos concretos, apenas uma sucessão de "impressões" também o direi. Não sou perfeito (longe disso) nem infalível (honra apenas do excelentíssimo presidente). São apenas regras gerais que tento seguir.

 

Gosto por isso de ler quem faz o mesmo. Quem apresenta factos e argumentos e os defende como tal. Gosto por isso de ler determinados autores à esquerda e à direita, os quais apresentam a sua visão dos factos. Posições ideológicas opostas não invalidam esta postura. pelo contrário, clarificam-na.

 

Nas discussões sobre a formação do próximo governo temos visto pouco disso. À esquerda infelizmente sobra o triunfalismo e revanchismo, especialmente do lado da esquerda "mais à esquerda" (a direita chama isso de "extrema esquerda", eu prefiro guardar o epíteto de "extrema" para quem não aceita o jogo democrático). À direita tem-se vincado o alarmismo, uma forma de tentar assustar as massas numa acção de "avec la gauche, le déluge".

 

O Delito de Opinião é um espaço de debate político essencialmente virado para a direita. Nada contra isso. Serei dos poucos que assumem um posicionamento de esquerda ou centro-esquerda dentro do blogue. Ajudo à diversidade e, honra seja feita aos autores que já cá estavam e me acolheram, ao debate de pontos de vista diferentes. Não sou o melhor representante da esquerda, longe disso (nem sequer no blogue), mas vou fazendo o meu melhor seguindo as linhas directrizes que apontei acima.

 

Por isso mesmo não posso deixar de apontar uma falha aqui dentro desta casa neste debate. Por parte de alguns, o debate tem sido extremado com poucas considerações para com os argumentos de outros. Em alguns casos a argumentação pode ser dura, mas existe. Não me reverei nem um grama nas posições, mas consigo compreender os pontos de vista. Noutros casos tenho lido opiniões extremistas e alarmistas, quase a apontar que com um governo PS-PCP-BE Portugal será uma nova Cuba, travestidas de humor (na realidade inexistente, porque forçado).

 

Não é uma tendência necessariamente antiga, mas é algo que espero que volte a desaparecer. O debate esquerda-direita é político e é na política que deve ficar. Tem a ver com objectivos e formas de lá chegar. Tem a ver com valores. Alarmismos pertencem a manifestações e folhas de Excel a (pobres) economistas. Os argumentos devem prevalecer sempre com a perspectiva dos objectivos. A esquerda e a direita poderão não concordar em mais nada, mas se concordarem em tentar compreender os argumentos de ambos os lados a democracia será fortalecida.

 

Não posso com este (ou outros posts) fazer nada pelo debate nacional, mas internamente no blogue e com os comentadores posso fazer esse pedido. Não esqueçamos que os argumentos dos outros lados merecem ser ouvidos. No fundo, a democracia é só isto. O respeito entre maioria e minoria.

 

PS - um mau exemplo de jornalismo de opinião é dado sempre que leio os artigos de João Miguel Tavares no Público. Há dias publicou uma verborreia sobre como a esquerda só quer fazer política e a direita compreende que números são números. Alguém lhe explique para que serve a política, por favor. Hoje leio-lhe a comparação entre António Costa e Salazar. Esta é tão nojenta que não mereceria ser publicada sem levar uma grande ensaboadela de um editor. Melhor serviço tem feito José Vítor Malheiros que, apesar de resvalar ocasionalmente para o triunfalismo, apresenta argumentações. Quem me dera ler no Público de alguém à direita algo de semelhante.


19 comentários

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De Jorg a 10.11.2015 às 14:37

O Sr. Malheiros do Público andou o ano passado a enxovalhar Cavaco com a sugestão que estaria com Alzheimer.... Livra se serve como exemplo, por exemplo, e.g. para filho meu! Só se fosse para o mal-educar em jacobinismo rasteiro....
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De João André a 10.11.2015 às 21:30

Lá vamos confundir argumentos dos quais não se gosta (ou com os quais não se concorda) com a falta deles. Malheiros vai apresentando argumentos, bem mais que muitos outros comentadores que andam pelo mesmo jornal. É perfeito? Certamente que não, nem nunca o disse. Mas é muito melhor que Tavares.
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De Diogo Moreira a 10.11.2015 às 15:06

Seria bom que todas as pessoas, pelo menos as frequentadores deste espaço que é o "Delito de Opinião", lessem este 'post'.

Não interessa a posição que cada um defende, desde que essa seja bem fundamentada. Numa discussão, não tem que haver "vencedores" nem "vencidos"; apenas uma salutar troca de ideias que permita compreender melhor o mundo.
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De André Miguel a 10.11.2015 às 17:29

O problema é que a esquerda, regra geral, não gosta lá muito de trocas de ideias. Prefere impor as suas.
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De João André a 10.11.2015 às 21:31

Pois claro. E come criancinhas ao pequeno almoço e causarão o apocalipse se chegarem ao poder...

Este comentário poderia ser um exemplo do que escrevo acima.
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De André Miguel a 11.11.2015 às 00:03

Vai-me dizer que o socialismo enquanto política económica de planeamento central e redistribuição da riqueza pela coerção permite pluralidade de ideias?! Enquanto eu não tiver plena liberdade de escolha não podemos falar de pluralidade de ideias. É tão simples quanto isto.
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De João André a 11.11.2015 às 10:09

Acho que não preciso de lhe explicar a diferença entre comunismo (dentro das suas variações internas - marxismo, leninismo, maoísmo, etc), socialismo e social-democracia. Eu uso o termo esquerda para todas estas vertentes. Na direita poderíamos falar em democracia-cristã, em liberalismo, em libertarianismo (nem sei se podemos usar este termo). Em termos de nomes, Adam Smith é diferente de Hayek que é diferente de Friedman. Eu prefiro não misturar tudo.

Feito o intróito, eu prefiro uma esquerda que tem como prioridade primeiro a justiça social antes dos indicadores económicos. Sou a favor de uma economia de mercado livre que tenha no entanto certos limites impostos pelos governos. Isto não impede a liberdade, antes a proporciona a quem não parte de uma situação já de si favorável.
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De JPT a 10.11.2015 às 15:27

O problema dessa argumentação parece-me ser o seguinte. Lembro-me de, num congresso do PS, o "comentador" Pedro Adão e Silva, a propósito do enxame de suspeições sobre a idoneidade pessoal do secretário-geral do partido, e primeiro-ministro da altura, ter afirmado, na SIC, que, na política, discutir o carácter dos políticos não interessava e que só se devia discutir os seus projectos. Não foi, na altura, a única pessoa ligada ao PS a ter esse discurso, tão reiterado que, claramente, foi interiorizado pela esmagadora maioria dos seus militantes e até simpatizantes. Que a política implica uma certa dose de mentira e de cinismo é, desde sempre, uma evidência. Ninguém se apresenta a eleições a dizer "a verdade". E ninguém ignora que o financiamento dos partidos impõe ligações pouco saudáveis com inúmeros interesses. Por isso, o "moralismo integrista" no debate político é um mero recurso dos hipócritas. Ainda assim, torna-se difícil considerar meros "rivais" ou "adversários", e debater, seriamente, ideias ou programas políticos com quem verbaliza e defende, com garra, a noção de que um ladrão ou um crápula pode ser primeiro-ministro, e que qualquer meio é adequado para (sejamos simpáticos) aplicar o seu programa, inclusivamente mudá-lo do dia para a noite. Não sou "simpatizante" de nenhum partido e já votei numa meia-dúzia, mas quando olho para o actual PS vejo um bando amoral, que se aliaria ao PNR se isso lhe garantisse o exercício do poder, adaptando às circunstâncias os argumentos e os "princípios" que agora defende para se aliar ao PCP, e movido apenas pelo fim de assegurar, o mais rapidamente possível, a satisfação das suas clientelas (ou pior ainda). A responsabilidade por isso, creio, não é minha, mas do próprio PS, que se deixou (auto)definir assim e puniu e pune quem tentou (e tenta), afastá-lo dessa (auto)definição. Ora, isso torna impossível qualquer debate de ideias porque, se não acreditamos no carácter do nosso interlocutor (que ele próprio diz que não interessa), nem achamos que ele próprio acredite nas ideias que ele diz hoje que defende (e que não são as de ontem), tal torna qualquer debate num mero exercício de retórica. Terminando: se detecta rancor nas minhas palavras (recurso que já usou antes para as ignorar), tem toda a razão, mas creio que não sou eu o culpado. De 1974 a 2007, vivi três décadas sob presidentes, primeiros-ministros e autarcas do PS, gostei mais duns do que doutros, mas respeitei-os a todos (e até votei nalguns). Não fui, certamente, eu que mudei.
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De João André a 10.11.2015 às 21:34

Neste caso não lhe detecto rancor, no máximo cansaço ou mesmo nojo, mas não rancor. Eu também não tenho qualquer simpatia por esta pandilha do PS, mas para dizer a verdade tenho pouca por qualquer outro partido. Tenho ainda menos pela do PSD ou do CDS. Parafraseando salvo erro Kissinger, são os fdp, mas são os nossos fdp.
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De Justiniano a 10.11.2015 às 15:50

Caro João André, registo o seu tom, entre a perplexidade e a dúvida, metódica e não tão metódica.
Eu, que me estou borrifando para a esquerda da direita e a direita da esquerda, sabendo que todos os portugueses são, pelo menos 3 dias por semana, adeptos do Estado de Direito Social (eu sou sempre aos dias úteis e descanso ao fim de semana, como libertário ou fascista ou comunista ou outra coisa qualquer que me apeteça), digo-lhe que aos brocardos não assisto!!
Argumento, tirando ficção, é coisa que nunca li a Vitor Malheiros, perdoe-me a opinião sincera!! Nunca li, de Vitor Malheiros, uma ideia, opinião que, não sendo indigente, orbitasse o sol na via láctea!! A coisa, admito, já me sai por preconceito, pois que já o não leio há mais de 5 anos (duas ou três palavras e mudo de página)!!
Mas há um ponto em que não poderia estar mais em desacordo consigo. "Noutros casos tenho lido opiniões extremistas e alarmistas, quase a apontar que com um governo PS-PCP-BE Portugal será uma nova Cuba, travestidas de humor (na realidade inexistente, porque forçado)." A comédia com o sentido de profanação terrena não se confunde com a tragédia. A tragédia é que nos faz rir à séria, antes de chorar!! A queda do herói é sempre o pináculo da tragédia. É bom que nos mantenhamos pela comédia e não apressemos a tragédia!! O leve motejo nunca tirou bocado. Ou será, porventura, o tal acordo das chamadas esquerdas coisa do sagrado!?
Concluindo. Parece-me que a crispação veio para ficar, pois que até o caro João André se converteu à crispação.
Em breve terá António Costa a dirigir o governo de Portugal.
Daqui a um ano espero que cá estejamos ainda para falar sobre isso!!
Um bem haja,
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De João André a 10.11.2015 às 21:37

Daqui a um ano estaremos por cá. Pelo menos tenho a certeza que se não estivermos não será por causa de um qualquer governo de esquerda ou de direita.

Em relação ao humor, claro que apresento uma interpretação pessoal. Quem se rir que faça bom proveito, isso não é necessariamente mau por si. Apenas me parecem na maior parte dos casos piadas forçadas. Há piadas sobre a esquerda e direita que são boas. Só que existem por si mesmas, não por procurar algo para atacar o lado de que não se gosta.
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De Teresa a 10.11.2015 às 16:55

Aleluia!!!!!!Haja alguém Coerente e Democrático!!!já me tinha questionado se só havia post escritos pela Extrema-Direita!!!!
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De João Pedro a 11.11.2015 às 00:54

Tem ido assim tanto aos blogues dos apoiantes do PNR?
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De cristof a 10.11.2015 às 17:40

Só discordo do seu post num ponto: a argumentação esquerda/direita é uma falácia que já devia representar pouco para os eleitores, como se verifica , nas democracias bem organizadas(Suecia, Dinamarca...), tirando isso o seu post é excelente; se os seus pares o lerem.
Uma falacia do mesmo jaez, que só serve para a banha da cobra, é ver os sindicatos, os partidos,muitos tudologso a clamarem sobre o desemprego; gente que nuca na vida criou um emprego( os criados pelo governo sabemos o que nos tem cusatdo a pagar) e que enchem a boca dia sim dia sim a tudolar sobre o emprego: Os cidadão papam esta banha da cobra e nem se insurgem contra o não ouvirem os fazedores de empregos (os empresários), dizerem a aparecerem mais nos média(será que é só cretinice ou há agendas escondidas nos média de referencia?
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De João André a 10.11.2015 às 21:39

Não concordo consigo no que respeita a esquerda e direita. É um dos pontos que me causam dificuldades: a forma como a tecnocracia desceu à política e tentou destruir as diferenças entre esquerda e direita.

A esquerda e direita existem, mas não há dúvidas que é tempo de haver um debate de as defina de novo. Isso talvez conseguisse motivar um pouco mais os eleitores. Pelo menos saberiam no que votariam.
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De IsabelPS a 10.11.2015 às 17:55

Só não estou de acordo em relação ao humor. Tenho-me fartado de rir por estes dias porque algumas piadas estão mesmo bem esgalhadas. Como é normal em tempos de crise política.
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De João André a 10.11.2015 às 21:40

Lá está, questão de interpretação. Algumas piadas serão boas, mas a maioria das que tenho lido e que são criadas de propósito para atacar o outro lado são para mim completamente flat.
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De João Pedro a 11.11.2015 às 00:53

JMT não comparou Costa a Salazar como ditador, mas na arte maquiavélica da negociação política. Convenhamos que são coisas muito diferentes. E mesmo que por vezes pareça mais "light" ou adolescente, JMT costuma fundamentar as suas escolhas, quer critique a esquerda ou a direita.
Mas numa coisa concordo consigo: a tecnocracia (e o moralismo justicialista, diria eu) tem feito esbater as diferenças dos espectros políticos, tão necessárias para o debate e a escolha eleitoral.
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De João André a 11.11.2015 às 10:13

Obviamente que não o fez pelo lado da ditadura. É a comparação em si que eu considero execrável. É uma táctica de si antiga: usar um determinado nome para colar a comparação, mesmo que seja feita por um aspecto que nada tem de importante (usar um bigode à Hitler não significa que se vá invadir a Polónia). Só que assim que a comparação é feita (para mais logo no início) a discussão fica imediatamente inquinada porque é essa a imagem que prevalece.

JPT poderia ter usado outros exemplos se quisesse negociadores cínicos: Kissinger e Nixon, Miterrand, todos os líderes chineses desde Xiaoping. Até mesmo Soares se preferisse ficar por Portugal e pela esquerda. Foi a Salazar e essa escolha não foi inocente.

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