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Agora vamos ao que interessa

por Sérgio de Almeida Correia, em 25.01.16

presidenciais 2016.jpeg

Se não tinha dúvidas quanto à vitória de Marcelo Rebelo de Sousa, que tanto poderia acontecer logo à primeira, como foi, ou à segunda volta, todos os demais resultados correspondem, grosso modo, à leitura que fiz. Se, como referiu o Presidente eleito, nestas eleições não houve vencidos, houve todavia bons e maus resultados.

Começando pelos primeiros, é óbvio que o resultado de Marcelo Rebelo de Sousa foi bom. Não só por ter obtido uma votação expressiva, como também pela circunstância  da sua votação representar mais do dobro do candidato que ficou no lugar imediato. Apesar destes resultados ainda não serem os oficiais, não há dúvidas quanto à clareza da escolha e à legitimidade e autoridade com que o novo Presidente sai deste sufrágio. 

Em segundo lugar, merecem destaque os resultados conseguidos por Marisa Matias e Vitorino Silva. Aquele constitui mais um sucesso do Bloco de Esquerda, sinal do apoio social alargado de que goza e susceptível de reforçar o peso político do partido no actual contexto. De qualquer modo, o BE deverá estar ciente de que a sua capacidade de crescimento não é ilimitada, que deverá estar prestes a atingir o ponto de esgotamento das fronteiras do seu eleitorado natural e que o resultado obtido também é em muito fruto das excelentes prestações televisivas da sua candidata, pelo que a eventual ilusão de querer partir deste resultado para ganhos parlamentares ou aumentar a pressão sobre o Governo poderá ser ilusório e vir a revelar-se no futuro contraproducente. Já o resultado do popular Tino de Rans é uma surpresa por se ter destacado de todos os outros "pequenos" candidatos. Repare-se que sozinho e sem uma máquina partidária no terreno ficou a pouco mais de vinte sete mil votos de Edgar Silva, o candidato apoiado pelo PCP, e obteve sozinho praticamente os mesmos votos que os restantes candidatos que ficaram atrás de si. Voto de protesto, voto de gozo, seja lá o que for, Vitorino Silva levou mais de 150.000 portugueses a votarem em si.

Todos os restantes resultados foram a meu ver negativos. Os dos candidatos Paulo Morais e Henrique Neto são sofríveis. Os de Jorge Sequeira e Cândido Ferreira são consequência da impreparação dos candidatos, da necessidade de protagonismo dos seus egos e da vacuidade das propostas. Ficaram dentro das expectativas.

A leitura que deverá ser feita dos resultados de Sampaio da Nóvoa, Maria de Belém e Edgar Silva terá de ser necessariamente diferente pelas circunstâncias que rodearam a apresentação das suas próprias candidaturas. Edgar Silva é hoje a imagem do fracasso das propostas do PCP e seus satélites. O número de votos que conseguiu é um sinal da sangria do eleitorado tradicional dos comunistas, do fraco desempenho do candidato e das argoladas nos debates. O rebanho dispersou, deixou de obedecer aos pastores e dificilmente voltará a ser reunido. O PCP é de dia para dia cada vez mais irrelevante e este resultado estará seguramente presente quando pensar em retirar a confiança política ao Governo de António Costa.

Deixei para o fim uma palavra sobre Sampaio da Nóvoa e Maria de Belém. Qualquer um deles falhou o objectivo a que se propusera em termos insofismáveis. Não há segunda volta, nem volta a dar. Os números falam por si e dispensam explicações, já que qualquer cristão vê o que aconteceu sem necessidade de intermediação divina. Não sei é se no PS todos compreenderão a necessidade que houve de se chegar até aqui. Como também não sei se o que aconteceu foi o resultado de uma estratégia propositada de falta de comparência do PS às presidenciais para resolver problemas internos ou se simples miopia política. O resultado é objectivamente medíocre para o candidato Sampaio da Nóvoa e de nada lhe serviu ser apoiado por três ex-Presidentes. Por muito boa pessoa, voluntarioso e empenhado que seja, quando um candidato é politicamente medíocre e se apresenta com um discurso epistolar, vazio e cheio de lugares comuns, o que foi de estranhar é que não tivesse havido ninguém que lhe tivesse dito que o seu empenho podia ser mais útil noutras funções. Para o PS, que veladamente o apoiou, é também um mau resultado ficando por esclarecer que estratégia esteve na razão de tão canhestro apoio. Na hora de se despedir o candidato Sampaio da Nóvoa esteve bem, merecendo por isso uma palavra de apreço.

O resultado de Maria de Belém é a consequência da sua irrelevância política e da necessidade de protagonismo para que alguns a empurraram. Também do esforço de divisão protagonizado por esses mesmos que a apoiaram e que pensaram que com a apresentação da sua candidatura comprometeriam o partido e marcariam pontos internamente, ou nalgum outro templo. O resultado de Maria de Belém está ao nível de uma candidata a presidente de junta de freguesia e foi tão mau que só conseguiu mais quarenta mil votos que Tino de Rans. Para quem, diziam, representava a moderação e o equilíbrio contra a deriva radical do PS e tinha aspirações a participar numa segunda volta, não poderia ser pior. O que aconteceu poderá contribuir para o apaziguamento de conflitos internos do PS, dando mais espaço de manobra ao Governo e a António Costa. Quanto a Francisco Assis poderá descer à realidade de uma vez por todas, cumprir o mandato que tem para cumprir e deixar-se de alimentar sonhos próprios e de terceiros quanto à construção de um novo centrão, incolor e oportunista, proposta que foi rejeitada pelo eleitorado.

Ao não apoiar Maria de Belém, com o "segurismo" enterrado, António Costa poupou o partido a uma humilhação e pode concentrar-se daqui para a frente nas tarefas da governação. São estas as que interessam aos portugueses nos próximos quatro anos e que podem ditar a sua sorte, a dos portugueses e a do PS. E para já sabe que pode contar para o que der e vier com o novo Presidente da República. Para apresentar resultados não podia ser melhor.

Quanto ao PSD e à liderança de Passos Coelho os tempos que aí vêm não vão ser risonhos. Para o CDS/PP também não. O resultado de Marcelo Rebelo de Sousa dá-lhes jeito e o candidato por eles apoiado foi o mais votado. Mas é um resultado que de pouco lhes servirá. O Presidente da República vai descolar desses apoios com os quais, aliás, nunca se quis comprometer. PSD e CDS/PP estão a partir de hoje entregues à sua sorte. A muleta de Belém acabou.


11 comentários

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De carlos alberto a 25.01.2016 às 14:23

Caro Sérgio,gostei do artigo.O PS tem que fazer uma autocrítica de tantas asneiras.
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De Sérgio de Almeida Correia a 25.01.2016 às 18:43

Ou várias. Ultimamente não são muito populares.
Cumprimentos.
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De Vento a 25.01.2016 às 14:54

Gostaria de destacar algumas afirmações suas para poder expressar o sentido de meu comentário.

"De qualquer modo, o BE deverá estar ciente de que a sua capacidade de crescimento não é ilimitada, que deverá estar prestes a atingir o ponto de esgotamento das fronteiras do seu eleitorado natural e que o resultado obtido também é em muito fruto das excelentes prestações televisivas da sua candidata, pelo que a eventual ilusão de querer partir deste resultado para ganhos parlamentares ou aumentar a pressão sobre o Governo poderá ser ilusório e vir a revelar-se no futuro contraproducente.".
Esta sua afirmação recordou-me o que Schultz referiu a respeito da extrema-direita francesa. Refiro-me naturalmente ao suposto esgotamento do eleitorado conquistado.
Ela pode estar certa, se existir uma inversão real das condições de vida dos cidadãos europeus e na forma de fazer política na UE. Portanto, tal possibilidade só poderá ser legitima se perspectivada no aspecto condicional.

Mas a questão importante, a meu ver, fundamenta-se no facto de Marcelo ainda não ter sido vitorioso. O caminho para a vitória ou derrota inicia-se agora. Porquê?
A eleição que se concluiu revela que Marcelo vai ter de demonstrar que é capaz de gerir o novo modelo e/ou espectro social que se espelha nos resultados vindos a público, onde se incluiu os abstencionistas.
Na realidade Marcelo obteve uma vitória numérica, mas nada expressiva perante as expectativas, porque teve meios e soube usá-los para chegar onde chegou. Os restantes, onde se incluiu Sampaio da Nóvoa, revelaram a matriz social, a que deseja mudanças, que hoje se vive. Significa isto que Marcelo foi buscar aquele eleitorado previsível, isto é, 20% da população portuguesa.

Compete ainda referir que Maria de Belém foi vitima de um assassinato político com a estorieta das subvenções. Este facto levou-me a concluir a possibilidade de um segunda volta pelo voto massivo em Sampaio, o que ocorreu.

O eleitorado do PCP mantém-se fiel e igual a ele mesmo, mas sabe distinguir legislativas de presidenciais.

Nenhum partido pode reclamar vitórias ou derrotas. Estou em crer que começa uma era onde o equilibirium será o mote. E ninguém pode excluir-se.
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De Sérgio de Almeida Correia a 25.01.2016 às 18:49

Caro Vento,

Agradeço o comentário.
Não há opiniões indiscutíveis, eu respeito a sua e nalguns pontos até posso compreender, embora sem concordar.
Mas quanto ao "assassinato político", deixe-me que lhe diga que para isso acontecer era preciso que a senhora tivesse alguma relevância política. Não tem. E o ter sido presidente do PS não foi suficiente para que passasse a ter.
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De Vento a 25.01.2016 às 21:06

A relevância política foi aquela que a própria comunicação lhe atribuiu. Eu opino sobre o que constatei e não sobre uma perspectiva exclusivamente pessoal.
Mas apreciei a forma consistente e aguerrida como ela fundamentou sua opinião em torno de tal questão.
Não se trata de discutir se a lei é justa ou injusta. O que está em causa é a atitude perante a lei.
Maria de Belém pode ter aceite uma injustiça, mas ninguém lhe pode atribuir a autoria de tal lei. Ela pode ter aceite tal injustiça fazendo-a reverter num benefício útil. Foi isto que depreendi da (dela) afirmação (não explicita) sobre a forma como utilizou o valor da subvenção.
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De Vento a 26.01.2016 às 23:09

Permita uma clarificação sobre a afirmação que proferi a respeito de um eleitorado previsível, os tais 20% da população portuguesa. Se comparar a soma dos resultados das legislativas da coligação, mais os votos da Madeira, mais os votos em que o CDS concorreu só e coligado com o PPM e mais uns pózinhos, verificará que nada de surpreendente ocorreu na votação em Marcelo.

Aqui:
http://www.legislativas2015.pt/resultados/

Por isto mesmo afirmei que Marcelo só a partir de agora poderá revelar se é vitorioso ou derrotado. Afinal um Presidente tem de o ser para todos os portugueses.
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De Teresa a 25.01.2016 às 15:04

Muito bom este artigo!! E a última frase, na mouche!
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De Anónimo Desconhecido a 25.01.2016 às 17:09

Isso do PCP ser cada vez mais irrelevante, é com base em quê ? Nas eleições presidenciais, onde foi realmente um desastre, ou nas Legislativas, onde aumentou a votação e um Deputado ? Ou nas Autárquicas, onde reforçou o número de Câmaras ? Eu compreendo essa ânsia histórica, hoje não há cão nem gato que não tenha essa opinião, mas parece-me que estão a ir com muita sede ao pote.Essa certidão de óbito já foi rasurada muitas vezes nos últimos 95 anos.
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De Sérgio de Almeida Correia a 25.01.2016 às 18:56

É preciso não confundir as autárquicas, onde o PCP faz normalmente um bom trabalho e costuma dar cartas nas autarquias onde manda, com legislativas, europeias ou presidenciais.
Se o PCP aumentar 1 deputado de quatro em anos talvez venha a ter uma dimensão de acordo com os seus desejos lá para a 3.ª República (a do Botas não conta). Para isso só será necessário que continue a crescer ao ritmo das última eleições.
Não sei é se a história e a projecção que o partido já teve são compatíveis com visões que ficam satisfeitas por reduzi-lo a uma sombra do que foi e se contentam em crescer um deputado de 4 em 4 anos.
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De Anónimo Desconhecido a 25.01.2016 às 19:09

Não se contentam a crescer 1 deputado de 4 em 4 anos, mas que isso contraria a teoria da irrelevância do PCP, sim, isso parece mais um desejo, do que uma análise com base em dados concretos. Como disse agora, e bem, não devemos confundir eleições , como erradamente fez na sua análise .
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De lucklucky a 26.01.2016 às 15:17

"De qualquer modo, o BE deverá estar ciente de que a sua capacidade de crescimento não é ilimitada, que deverá estar prestes a atingir o ponto de esgotamento das fronteiras do seu eleitorado natural.

Não concordo. O eleitorado natural do Bloco está em boa parte do PS na ala Costista. Se fosse hoje o PS não nasceria.
Não tenho dúvidas que quem domina a Esquerda é o Bloco - os Idiotas Úteis - e com o tempo será a sua força dominante seja por via do próprio Bloco, seja por o PS se Esquerdizar.

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