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Agitação no pântano

por Pedro Correia, em 18.02.20

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Estádio Nacional, 18 de Maio de 1996

 

Moussa Marega, com um gesto veemente, fez agitar o pântano. Atingiu o limite da paciência, encheu o saco e disse "basta". As imagens que o mostram a abandonar o Estádio D. Afonso Henriques, em Guimarães, estão a dar justamente a volta ao mundo. Num grito de revolta contra o racismo. E contra a violência no futebol, que começa por ser violência verbal antes de resvalar para a violência física.

Que sirva de exemplo para muitos outros - tenham a cor de pele que tiverem. Inclusive para aqueles que, em certos estádios e em certos pavilhões, imitam o som do very light que matou um adepto de futebol numa bancada do Estádio Nacional, com o filho menor - então com nove anos - a presenciar tão macabra cena, em plena final da Taça de Portugal.

Jamais esqueceremos a data: 18 de Maio de 1996. Chamava-se Rui Mendes, esse malogrado adepto de futebol. Que era também adepto do Sporting.

 

Vergonhosamente, a tal final continuou a disputar-se como se nada fosse, sem que o jogo fosse interrompido.

Vergonhosamente, o som desse very light continua a ser replicado por irmãos de emblema do assassino. O que é outra forma de continuar a matar Rui Mendes, quase um quarto de século depois.

Sem que ninguém rasgue as vestes. Sem que nenhuma alma sensível solte um brado de indignação.

 

Publicado também aqui.


24 comentários

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De Anónimo a 18.02.2020 às 11:42

Uma cambada de hipócritas que continua a chocar-me tremendamente.
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De Pedro Correia a 18.02.2020 às 15:48

Lágrimas de crocodilo, indignações selectivas.
Começando por aqueles que nem uma palavra de incómodo soltaram em Maio de 2018, quando se registou a brutal agressão de membros de uma claque ao centro de formação do Sporting, em Alcochete. Apesar de alguns dos agredidos terem um tom de pele semelhante à do Marega.
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De Trigueiros a 18.02.2020 às 12:13

Infelizmente tudo ficará na mesma, tal como tudo ficou após o episódio que o Pedro, e bem, faz referência no seu post.

O futebol em Portugal é um lugar onde toda a escória se infiltra permitindo que se continue com um ambiente fora das 4 linhas que pouco dignifica o futebol.

Ouvimos toda a gente a dizer que tudo tem que mudar, mas nada muda.
- Desde os adeptos que continuam a ser tremendamente facciosos e que até nestes casos sérios como o que aconteceu em Guimarães continuam a ser
- Desde os dirigentes dos clubes, Federação, Liga etc.. que vivem do futebol e não para o futebol
- A comunicação, qual abutre, que só dá relevo a tudo o que é mau (dou como exemplos:
+ A sportv que mal termina o jogo começa logo com a análise exaustiva dos lances. Mas o pior é a maneira como aquilo é apresentado. Mete nojo
+ Os canais televisivos, sem exceção, onde os comentadores são autênticos anormais não tendo qualquer noção que eles próprios incendeiam o futebol. Discutem tudo menos futebol

No meio disto tudo a algo que me faz feliz, que é a existência do Canal 11. Um autêntico canal de desporto. Fala-se DO futebol. Daquele jogo que quando erámos miúdos ficávamos dias inteiros a jogar, quase que dormíamos com a bola.
Como se dizia ontem no Canal 11, com o Abel Xavier como convidado:
"Tu quando foste aos treinos de captação do Sporting foste pelo futebol e não pela carreira". Permitam-me acrescentar: "Foi pela magia do futebol"

Para que conste o meu clube é o Vitória de Setúbal
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De Pedro Correia a 18.02.2020 às 15:51

Merecida, a referência que faz ao canal 11. Estão de parabéns o Nuno Santos, que concebeu o canal, e o Pedro Sousa, actual director.

Um oásis na selva televisiva que se serve do futebol para subir audiências atiçando ódios tribais.
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De João Brito Levandeira Silva a 18.02.2020 às 12:13

Nem de propósito!...
É que eu tinha o propósito de exprimir algo que sequencia o post.
Já o fiz a propósito de uma daquelas intervenções policiais, alegadamente excessivas, em situações que envolvem outras etnias.
Estamos em presença de mais uma manifestação desse mundo cor de rosa que alastra em todas as frentes.
Sempre que no barulho aparecem outras etnias, os factos são de tal modo empolados que explodem com estrondo pelo mundo inteiro!
Não poderia haver melhor estatégia para eternizar e fazer crescer o fenómeno.
Será que ninguém entende que essa a melhor maneira de estigmatizar a diferença?!
Por que é que havemos de colorir os crimes?!
Por que é que desvalorizamos aqueles tsunamis de injúrias gratuitas que sistematicamente arrasam árbitros e adversários?! Será que os teremos de colorir para que haja consequências?!
Numa palvra, não bastará que sejamos todos gente?!

João de Brito
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De Pedro Correia a 18.02.2020 às 15:53

Todas as formas de violência devem ser combatidas. Incluindo a violência racista, que não pode passar impune.
Nisto não pode haver entretantos.
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De Anónimo a 18.02.2020 às 12:27

"Sem que ninguém rasgue as vestes. Sem que nenhuma alma sensível solte um brado de indignação."

Duas perguntas:
Ao longo deste quarto de século, quantas vezes é que o PC rasgou as vestes ou soltou um brado de indignação?
Porque razão, só agora (cavalgando, de forma oportunista, o "fenómeno" Marega) se lembrou de o fazer?

Usar as circunstâncias trágicas da morte de Pedro Mendes e a dor da sua família para justificar a idiotice do post sobre "urros e cânticos", nem sequer choca pela hipocrisia e falta de respeito e escrúpulos. Choca apenas pela estupidez.
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De Pedro Correia a 18.02.2020 às 13:22


Estupidez a sua.
A vários níveis.

Chama "Pedro Mendes" a Rui Mendes. O que revela bem até que ponto esta tragédia lhe passou ao lado.

Insinua que nunca escrevi antes sobre este tema, o que é falso.

Defende (por omissão, visto não condenar) os insultos racistas a Marega.

Insulta sem assinar, o que é um indício indesmentível de cobardia. Uma atitude que me dá nojo.
Se a cobardia pagasse imposto, Portugal já não teria dívida externa.

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De O sacerdote comediante a 18.02.2020 às 12:37

Pois o problema é mesmo esse. A morte de Rui Mendes foi um episódio de violência que não mereceu as manchetes nem as posições de fatalismo e de fim do mundo, como este episódio do Marega. Mas se o Rui Mendes fosse preto, nem quero imaginar.
Aquele italiano morreu atropelado e foi um episódio triste, se em vez de italiano fosse nigeriano, meu deus.
O episódio marega foi isso mesmo, um episódio como imensos outros, com a diferença de que os houve mais graves.
Fazer disto o pior momento do desporto em Portugal é que é um absurdo, alimentado por gente que só quer dar imagem de grande envergadura moral e aproveitar o tempo de antena.
Isto acontece semanalmente, com o marega e com dezenas de outros.
Quando se quer fazer chacota, ou até uma mera brincadeira, normalmente faz-se de acordo com alguma característica física do visado.
Se é grande,chamam-lhe girafa, se é pequeno, chama-lhe anão, se tens os olhos grandes chamam-lhe sapo, se tem nariz à Júlio Isidro, chamam-lhe catatua.... se é preto, o normal é chamarem-lhe macaco.
Aliás, o Fernando Madureira é conhecido por macaco, porque quando era puto parecia uma macaco... e parecia mesmo... e ele adaptou-se, cagou na cena e até adotou a alcunha.
É tipo a joacine, fazem chacota porque é preta? Não, fazem porque é gaga. Se fosse branca e gaga, levava tanga na mesma.
Quando era puto era super magro... logo conheciam-me pelo espinhas... até hoje.
Nunca fiz birra e fui embora da escola.
Mas se isto pegar moda, é ir tudo para a capital chamar monhé ao nosso pm, a ver se leva a peito o movimento je suis marega e também abandona o barco.
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De Pedro Correia a 18.02.2020 às 23:11

As injúrias são sempre inaceitáveis - e no desporto (que deve ser escola de 'fair play' até pelo seu carácter exemplar perante a socidade em geral e os mais novos em particular) tornam-se ainda mais inaceitáveis. Sem esquecer que estão tipificadas no Código Penal: ninguém pode alegar, em sua defesa, desconhecer a lei penal do País.

Mas não esqueçamos que o maior delito - o maior crime - até hoje ocorrido em cenário desportivo, em Portugal, foi precisamente o homicídio do Rui Mendes.
Por este crime, o assassino recebeu uma condenação de quatro anos de prisão, tendo no entanto desaparecido, aproveitando uma saída precária muito antes da conclusão da pena, e andou onze anos evadido.


Durante esses anos, passou impune. Mas o crime não pode ficar esquecido em ano algum. Porque a memória não prescreve.
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De Anonimus a 18.02.2020 às 13:37

Gosto quando o país"acorda" para estes assuntos
Prevejo sem problema que daqui a 10 anos uma claque qualquer faz o mesmo a um escuro adversário, e quando ele sair de campo, o país irá acordar para o racismo.
Ainda assim, duvido que quem fez aquilo seja racista. Caso fossem, fariam o mesmo ao Zé Luís, e mesmo aos da própria equipa. São estúpidos.
Já os lampiões, para além de estúpidos, são mais, porque gozam com a perda de uma vida humana. Pena o Rui Mendes não ser afro, quiçá a Catarina ou o sos racismo teriam vindo a terreiro pedir resposta. Que as entidades oficiais não podem, em termos de futebol em geral e SLB em particular, são como os três macacos.
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De Pedro Correia a 18.02.2020 às 23:03

Infelizmente as entidades responsáveis do desporto português - isto inclui o próprio Governo, através da Secretaria de Estado do Desporto - têm mesmo procedido como os três macaquinhos da fábula: não vêem, não ouvem, não falam.
Até que ocorra uma nova tragédia num recinto desportivo.
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De sampy a 18.02.2020 às 18:35

Só para lembrar a problemática entre efeito mimético e efeito catártico.

E para dizer: explusai a violência dos estádios e havereis de encontrá-la, onde e quando menos pensais.
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De Pedro Correia a 18.02.2020 às 23:00

Há limites para a catarse, até em estádios de futebol.
Por isso chamo a atenção para o ocorrido na final da Taça de Portugal em 1996.
Pode voltar a acontecer a qualquer momento. Só aí os sinos tocarão a rebate. Tarde de mais, como é costume.
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De Pedro Nogueira a 18.02.2020 às 19:39

É certo que os tempos eram outros, muito antes ainda das redes sociais e das notícias a 'pingar' ao momento, contudo, tivessem sido adeptos do Sporting Clube de Portugal a assassinar um qualquer biltre do Sparta de Carnide, e já tinha sido morto na prisão, para onde de imediato teria sido levado. Mais tarde sairia uma notícia que se teria enforcado.
Já foram assassinados dois adeptos do Sporting Clube de Portugal, ambos, às mãos da escumalha do polvo vermelho que controla toda a nossa sociedade, não só a desportiva, como alguns néscios crêem e muitos outros malandros querem fazer crer.
O futebol, dá e tira votos. A escumalha no poder, maioritariamente do clube do regime - daí, também o nome - não sabendo fazer mais nada, porque nunca na vida trabalhou, não se pode dar ao luxo de perder o 'tacho'.
Nada mudará.
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De Pedro Correia a 18.02.2020 às 23:04

Alguns atrevem-se até a pronunciar-se sobre estas questões relativizando os crimes de homicídio.
Como se houvesse bons e maus assassínios.
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De Anónimo a 18.02.2020 às 23:10

Afinal quem é que era do regime.
O regime proibia nomes estrangeiros, então por que o Sporting não foi obrigado a mudar? E até era fácil 'Associação Desportiva de Portugal'
Pois, mas assim acabava o elitismo dos finórios de Belas.
E, entretanto, apareceu o Sport de Lisboa com rapaziada popular oriunda das zonas de Belém e Alcântara, mais tarde com campo de jogo em Benfica.
E complicou-se tudo, e nunca mais deixaram de ser rivais, essencialmente, de classe social.
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De Pedro Correia a 18.02.2020 às 23:14

Qual regime? A monarquia? O Sporting foi fundado no reinado de D. Carlos.
E o que é isso tem a ver com aquilo que eu escrevi?
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De Anónimo a 19.02.2020 às 00:39

É sobre o clube do regime.
Quando se fala em regime, todos percebemos que é em relação ao 'regime anterior' (para ser educadinho). Quando o Sporting teve uma grande equipa de futebol o regime era sportinguista, a partir dos fins dos anos 50 quando o Benfica passou a ter uma grande equipa o regime passou a ser benfiquista.
Entretanto, o Benfica por estar durante vários anos nas finais europeias, o regime agarrou-se a ele.
Mas, a razão da principal da rivalidade é 'ancestral/genética' por causa das origens de classe social de cada clube, pese, embora, haver em ambos os clubes sócios/simpatizantes das mais variadas profissões. É interessante haver uma grande quantidade de alentejanos sportinguistas e uma grande quantidade de nortenhos benfiquistas.

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De Anónimo a 18.02.2020 às 20:37

Coluna, Matateu, Hilário, Jacinto João, o grande, enorme, Vicente,Eusébio, claro, e tantos, tantos outros - e alguma vez houve "merdas" destas?
Agradeçamos aos parasitas que na, na paróquia são conhecidos como políticos, activistas, f.d p sem ofício mas com benefício, e a uma classe profissional que , ultimamente, tem justificado a dignidade da que , dizem, é a mais velha profissão do mundo : " jornalistas".



JSP
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De Pedro Correia a 18.02.2020 às 22:59

Calma aí com as generalizações.
Ignoro qual é a sua profissão, mas há bons e maus elementos em qualquer actividade profissional.
Recuso em absoluto esse labéu sobre a minha profissão.
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De Anónimo a 19.02.2020 às 02:29

Tá bem.
Queria dizer se se tratava de um clube de elite só teria sócios de profissões de elite, nada de padeiros, varredores, e assim. Mas como o futebol é um jogo popular toda a gente ia ver e cada clube deixou de ser de determinada classe social.
Veja-se o Arsenal de Londres, inicialmente feito de arsenalistas e depois passou a ser mais abrangente.
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De Paulo Sousa a 18.02.2020 às 22:18

Pedro,
A minha reclamação perante a insalubridade e a alienação do mundo do futebol consiste simplesmente em mudar de canal.
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De Pedro Correia a 18.02.2020 às 22:45

Fazes bem, Paulo.

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