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Admirável prosa panfletária

por Pedro Correia, em 15.05.19

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Portugal Contemporâneo é um monumento, equivalente naquilo que hoje se convencionou chamar escrita de “não-ficção” a esse ponto cimeiro do romance intitulado Os Maias. Não por acaso, Joaquim Pedro Oliveira Martins e Eça de Queiroz eram amigos, companheiros de geração e de múltiplas tertúlias (sob o lema Vencidos da Vida), além de cúmplices no essencial das ideias – a primeira das quais era a urgente reforma das mentalidades portuguesas, o que no entender de ambos deveria ser precedido de uma profunda alteração das instituições políticas. Sob pena de o atraso estrutural do País se tornar irrecuperável, fragilizando a própria independência nacional.

«Há ou não recursos bastantes, intelectuais, morais, sobretudo económicos, para subsistir como povo autónomo, dentro das estreitas fronteiras portuguesas?», interroga-se o autor em prefácio à terceira edição, redigido em Abril de 1894, quatro meses antes da sua morte prematura, aos 49 anos.

Oliveira Martins, que chegou a abraçar teses iberistas, temia que a resposta fosse negativa. Por isso este seu copioso livro, com mais de 600 páginas, assenta na procura incessante das causas da decadência deste povo peninsular, parafraseando a consagrada expressão de Antero de Quental, outro “vencido da vida”.

 

O “Portugal Contemporâneo” a que alude o título – com edição original de 1881, em dois volumes – estende-se da morte de D. João VI, em 1826, à revolta da Janeirinha, que pôs fim ao período da Regeneração, em 1868.

O balanço do Portugal oitocentista, na óptica do autor, não podia ser mais negativo: o País vivera sob sucessivas ocupações estrangeiras, com duas décadas de soberania militar e política inglesa na sequência das invasões francesas, e atravessou quase todo o século sob o espectro da bancarrota. Situação muito agravada pela traumática independência do Brasil, em 1822, só reconhecida três anos depois por Lisboa, e pela dilacerante guerra dinástica que se estendeu de 1828 a 1834, fracturando o reino entre absolutistas e liberais.

 

Cáusticos parágrafos

 

A obra destila pessimismo. Sobre um tempo em que, segundo OIiveira Martins, o «antigo comunismo monástico», varrido com a deposição e o banimento perpétuo de D. Miguel, dera lugar ao «comunismo burocrático» das décadas liberais.

Nesta sucessão de episódios trágicos ou burlescos, com uma peculiar liberdade de interpretação dos factos e um extraordinário poder descritivo, perpassa uma galeria de personagens sujeitas aos cáusticos parágrafos do narrador. Quase ninguém escapa ileso: D. João VI legara-nos um «calamitoso reinado». A infanta D. Isabel Maria, sua filha que exerceu como regente, «era histérica e beata». D. Miguel revelou-se «bronco, violento, brutal». D. Pedro IV era encarado pelo povo como «traidor ao pai e à Nação, ladrão da coroa brasileira». Sá da Bandeira, «fraco e virtuoso». Saldanha teve uma «triste vida de guerrilheiro liberal». Salvam-se Mouzinho da Silveira, Passos Manuel, Alexandre Herculano – poucos mais. Em muitas páginas, cada adjectivo soa a punhalada.

 

Personalidade contraditória, Oliveira Martins oscilou entre a crença no socialismo utópico e a irreprimível nostalgia do País antigo, erguido em Aljubarrota e na Restauração. Chegou a abraçar o ideal republicano mas quase no fim da vida aceitou o convite do Rei D. Carlos para ministro da Fazenda, com as finanças nacionais novamente destroçadas. Sentindo-se traído pelo liberalismo – a seu ver um regime anárquico na economia e sem raízes nacionais – conclui em admirável prosa panfletária, coim laivos maniqueístas, que «a anarquia do reino reproduzia-se na anarquia dos partidos» e «Portugal e o seu governo eram um corpo inerte».

A Bookbuilders presta um serviço público ao relançar este marco da historiografia nacional, reunindo os dois tomos num volume, enriquecido com verbetes biográficos alusivos às figuras aqui retratadas. Nada mais útil, para apreendermos o País de hoje, do que mergulharmos nestas páginas corrosivas e vertiginosas, redigidas em prosa de qualidade intemporal.

 

............................................................... 
 
Portugal Contemporâneo, de J. P. Oliveira Martins (Bookbuilders, 2018). 694 páginas.
Classificação: *****
 
 
Publicado originalmente no jornal Dia 15


11 comentários

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De Vorph Valknut a 15.05.2019 às 10:47

Excelente artigo. E excelente livro.

É também interessante ler a critica que Oliveira Martins faz aos irmãos Cabral, mas também à sua oposição. Penso que no final ninguém se safa.
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De Pedro Correia a 15.05.2019 às 13:51

Muito boa, esta reedição. Recomendo.
"Portugal Contemporâneo" tem a marca de um verdadeiro clássico. Impossível fazer melhor.

Faltaria fazer o mesmo para o século XX português. Esperei durante anos que fosse Vasco Pulido Valente a tomar conta dessa anti-epopeia. Ele que é claramente influenciado, no seu estilo literário, por Oliveira Martins.
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De Vorph Valknut a 15.05.2019 às 16:57

Talvez o livro O Poder e o Povo associado ao De Mal a Pior.
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De Pedro Correia a 15.05.2019 às 22:01

Sim, Pedro. Duas parcelas já existentes desse imenso livro ainda por escrever.
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De Anónimo a 15.05.2019 às 14:27

Obra genial!Tanto assim que, para muitos daqueles que a leram, o Portugal de

novecentos ficou sendo aquele,e os retratos de quem nele viveu são aqueles,

sem tirar nem pôr -e, no entanto, as coisas e as pessoas não terão sido bem

como conta o autor inspiradíssimo desta obra prima da nossa literatura, em

muitos passos próxima da magia da ficção, criando um universo irreal,

fascinante,delirante por vezes, a cujo feitiço é impossível resistir.Que mais se

quer de uma obra de arte?

Por mim, gostaria apenas de deixar uma palavra de homenagem e respeito

por D:João VI,a quem, felizmente, se tem vindo a fazer justiça.E, já agora uma

outra, de apreço pela Infanta Isabel Maria.

Parabéns pelo seu texto, Pedro Correia, e muito obrigada por este blog.
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De Pedro Correia a 15.05.2019 às 14:53

É verdade. Nos anos mais recentes, a figura de D. João VI tem vindo a ser reabilitada após demasiado tempo em que se confundia investigação com anedotas e se atribuía prevalência a estas face ao rigor histórico.

Quanto à regente Isabel Maria, figura que merecia ser mais estudada, há que enaltecer a sua acção moderadora num tempo propício a extremismos de todo o género.

Grato pelas suas palavras.
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De Justiniano a 15.05.2019 às 16:40

Um personagem fascinante e controverso. Um típico homem de XIX, auto didata e filantropo, ávido do conhecimento que se produzia no seu tempo! Versado em todos os espectros das ideias políticas de XIX. Do Anarco Sindicalismo ao Nacionalismo! Uma prosa directa, de um observador atento, informado e inclemente. Contundente nos juízos de síntese.
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De Pedro Correia a 15.05.2019 às 22:00

Sim, Justiniano. E, além disso, um enorme escritor.
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De Justiniano a 16.05.2019 às 14:20

Sobressai, caro Pedro Correia, como pensador! Influente pensador do seu tempo, Oliveira Martins. E nesse tocante muito superior a Eça! Arriscaria, sem igual no seu tempo em Portugal!!
Como escritor não ousaria colocá-lo juntamente com Eça!! Quando mencionamos Eça não poderemos mencionar muitos mais escritores Portugueses. O Eça será o eucalipto da literatura portuguesa!!
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De Anónimo a 15.05.2019 às 19:41

Escrevi o comentário da 14.27.Por lapso não assinei, peço desculpa e faço-o agora - Margarida Palma
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De Pedro Correia a 15.05.2019 às 21:59

Muito obrigado, Margarida.

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