Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]




Acre, cobiçada por todos, pertencente a muitos

por João Pedro Pimenta, em 28.03.19

Não sendo imune ao chamamento das grandes metrópoles, tenho uma particular atracção pelas cidades médias ou pequenas, que tantas vezes fogem ao roteiro dos guias turísticos e às campanhas das agências e das companhias aéreas. E sobretudo as que têm uma amálgama de influências culturais diversas e uma historia respeitável.

Acre cumpre totalmente esses requisitos. Está ali na ponta da baía de Haifa, com essa cidade portuária do outro lado, dominada pelo monte Carmelo, e o Líbano a poucos quilómetros a norte. Vem de tempos imemoriais, e desde a Antiguidade que é um dos principais portos do Levante. Por ela passaram fenícios, persas, egípcios, judeus, gregos, macedónios, romanos, bizantinos, árabes, cruzados europeus, turcos, ingleses e de novo judeus. Sofreu inúmeros cercos e conquistas. O mais famoso terá sido o de 1291, quando era o último bastião do Reino Latino de Jerusalém, e caiu nas mãos dos mamelucos egípcios. Os vestígios cruzados nunca desapareceram totalmente, mas a arquitectura e a configuração da cidade alteraram-se bastante com os seus novos ocupantes, e sobretudo com os turcos, que se lhes seguiram. Napoleão também tentou apoderar-se daquele ponto estratégico, no seguimento da campanha no Egipto, mas o seu cerco não surtiu efeito e os otomanos resistiram. Acre passaria ainda para as mãos dos ingleses, no decorrer da Grande Guerra, que a mantiveram durante o Mandato Britânico da Palestina, e estava incluída no território palestiniano projectado com a divisão do território planeada pela ONU, mas o primeiro conflito entre os países árabes e o novo estado de Israel determinaria que ficasse no território deste.

A cidade novo de Acre, moderna e sem graça, é habitada por judeus. Ultrapassada a primeira cintura de muralhas, já do tempo dos turcos, entra-se numa cidade quase exclusivamente árabe e turca. Mas os vestígios do passado pré-muçulmano estão lá. A antiga cidadela dos Hospitalários impõe-se e recebe os visitantes no seu comprido refeitório, nas suas torres e na praça de armas desta ordem que depois de andar séculos entre ilhas do Mediterrâneo com a "casa às costas, converteu-se na actual Ordem de Malta. O edifício serviu já no século XX de prisão de rebeldes judeus que combatiam o Mandato Britânico da Palestina.

DSC_0049_5.JPG

A partir daí começa a cidade árabe, com a esplendorosa mesquita turca El Jazzar, e segue-se o miolo urbano formado por ruelas serpenteantes que se desdobram em mais ruelas, num labirinto interminável e algo espantoso numa cidade de dimensão reduzida. Ao contrário do resto do país, as placas estão quase todas em árabe, não em hebreu, nem são bilingues. Sucedem-se pequenos souks ou lojas de rua. Mas mais uma vez a herança cruzada (já) não está totalmente escondida. Nos anos noventa, um banal problema de terrenos levou à descoberta de um túnel subterrâneo, com centenas de metros de extensão, pertencente aos antigos templários, que se acolhiam do lado ocidental da cidade, quase junto ao mar. O túnel começa precisamente junto às muralhas já a tocar na água e desemboca num dos muitos becos do centro. Nalgumas extensões não ultrapassa o metro e meio de altura e naturalmente a humidade invade-o. Nas paredes de blocos graníticos, e entre os arcos de ligação, podem-se ver algumas explicações gráficas da obra, enquanto uma gravação nos tenta explicar os contornos daquela construção. Hélas, está em hebraico e os esforços são inúteis. Mas imagina-se o afã dos cavaleiros do Templo em tempo de cerco.

DSC_0059_4.JPG

Pelo bairro, pelas muralhas batidas pelas ondas, no pequeno ancoradouro, outros nomes trazem-nos as memórias de antigos detentores do burgo: praça dos genoveses, praça dos venezianos, bairro dos templários, porto pisano, etc. Os baluartes defensivos são já quase todos do tempo dos turcos, mas pode-se imaginar, até em pequenos troços do seu tempo, os cruzados a defender tenazmente o último bastião do condenado Reino Latino. Será mais fácil pensar que aqueles mesmos muros resistiram às tentativas inúteis de Bonaparte de tomar a cidade. Os canhões que ainda lá estão decerto testemunharam este episódio. Agora são testemunhas de um belíssimo pôr-do-sol, com a silhueta de Haifa do outro lado da baía.

DSC_0065.JPG

DSC_0072.JPG

DSC_0078_1.JPG

Se os templos são quase todos muçulmanos, avista-se também uma ou outra igreja, como a maronita encostada à muralha. E além da arquitectura militar e religiosa, há outros edifícios notáveis, como o Khan al-Umdan, o único caravançarai em território israelita que se pode arrogar desse título, uma construção imensa com um amplo terreiro rodeado de arcos, e rematada por uma torre do relógio, que domina a vizinha Praça dos Venezianos. Diz-nos a sempre prestável Wikipedia que neste edifício é que Bahá 'u`lláh, refugiado da Pérsia, começou a divulgar as suas ideias religiosas numa escola para o efeito, começando aí a pregação da fé Bahai, cujos principais templos podem ser encontrados à volta de Acre e sobretudo em Haifa. Nas redondezas há ainda os banhos turcos e a Khan al Sawarda, uma praça mercantil rectangular com uma curiosa fonte no meio, de arquitectura indiscutivelmente otomana. Tudo isto a dois passos do porto, outrora comercial e de guerra, hoje mais ligado à pesca e ao turismo, a única parte que não está rodeada de muralhas. Acre, a antiga cidade dos cruzados que pertence a Israel mas que permanece árabe/turca; a comprová-lo, a voz do muezzin ouve-se nos altifalantes das mesquitas ao fim da tarde e ecoa sobre todas aquelas memórias.

Nota: talvez o muezzin fosse novo, já que ocorreu há pouco tempo uma curiosa história: o responsável pelo chamamento dos fieis da mesquita El-Jazzar era reconhecido como tendo uma voz "que nem em Meca se encontrava uma tão bela". Mas dedicava-se também à musculação e ao bodybuilding, e tinha até representado Israel em competições internacionais da modalidade. Ora o responsável ministerial pelos assuntos religiosos considerou que tal prática não era compatível com a de muezzin, até pela exposição pública com pouca roupa, e determinou a sua demissão do posto. A decisão despoletou vários protestos entre os muçulmanos de Acre, que consideraram que as duas coisas não eram incompatíveis, e que pediam ao menos uma segunda oportunidade, mas tudo leva a crer que será em vão. Resta ao inconformado ex-muezzin dedicar-se agora em exclusivo ao seu próprio ginásio.


15 comentários

Sem imagem de perfil

De Anónimo a 28.03.2019 às 11:35

Adorei o texto, mas a frase final, "Resta ao inconformado ex-muezzin dedicar-se agora em exclusivo ao seu próprio ginásio", arrasou-me. Depois desta história de mouros, cristãos e judeus, percebi, finalmente, porque é que temos de acarinhar uma cambada de grunhos como o Vítor Catão, o César Boaventura, o Pinto da Costa e o Luís Filipe Vieira. É que, daqui a mil anos, vamos ter de reescrever essa história. Então se dirá que foi por causa desses diferendos que o país descambou para nível zero, na sequência do que o se teve de libertar o Rui Pinto para evitar que o mundo desabasse.
Imagem de perfil

De João Pedro Pimenta a 28.03.2019 às 17:17

O problema, caro anónimo, é que isto é uma resolução oficial com efeitos imperativos. O responsável ministerial tem poder para o demitir de funções, e nem com um recurso voltou atrás. Por isso o ex-muezzin teve mesmo de acatar a decisão.
Sem imagem de perfil

De O sátiro a 28.03.2019 às 11:35

Por acaso já visitei Acre numa viagem à terra Santa mas sem dúvida estes pormenores são muitíssimo importantes.
Por outro lado vem realçar o cosmopolitismo do estado de Israel que permite etnias diversas. ...e até inimigas. ..dentro das suas fronteiras algo único no médio Oriente. Isto porque essas etnias têm acesso a TODOS os direitos dos judeus como cidadania saúde ser eleito e ser eleitor.......MAIS NENHUM PAÍS DO MÉDIO ORIENTE CONCEDE ESSES DIREITOS. ...por exemplo os Emirados Koweit Bahrein Sauditas Qatar NÃO concedem cidadania a nenhum ser humano que não pertença às tribos milenares desses territórios. ...migrantes com dezenas de ANOS de trabalho e permanência nesses países serão sempre. ....imigrantes. .....mesmo muçulmanos. ...
Imagem de perfil

De João Pedro Pimenta a 28.03.2019 às 17:18

Receio que esses direitos a quem não é judeu se alterem e por isso mesmo alterem essa excepcionalidade regional israelita. Mas olhe, também ignorava que esses países do golfo não concedessem cidadania a estrangeiros, ainda para mais quando grande parte da sua população é composta por gente que veio de fora.
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 28.03.2019 às 17:51

Mesmo ao pé de Israel ficam o Líbano e a Síria, países que também têm muitas etnias e religiões dentro das suas fronteiras e que concedem iguais direitos a todos elas. Israel não é, portanto, de forma nenhuma excecional nesse aspeto, no Médio Oriente.

(Mas, é claro, se a política de países como a França, os Estados Unidos, e o Reino Unido tivesse tido sucesso, longe vá o agoiro, já o Estado secular da Síria teria sido substituído por uma teocracia islâmica sunita, similar às dos restantes países referidos no comentário do sátiro.)
Imagem de perfil

De João Pedro Pimenta a 28.03.2019 às 23:58

Direitos iguais é favor. No Líbano têm fazer um complicado equilíbrio dos órgãos de soberania para agradar a toda a gente, o que tendo em conta o arsenal e as milícias do Hezbollah, à margem das forças armadas oficiais, não tem sido fácil. Na Síria são sobretudo os alauitas que mandam, com apoio de alguns cristãos e sunitas, que por sua vez são a maioria e se sentem descriminados (em boa parte isso é que deu origem à revolta e à guerra).
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 29.03.2019 às 09:28

Os cidadãos têm direitos iguais perante a lei, tal como eu escrevi. O sistema político é uma coisa diferente.+
Já agora, em Israel a coisa é ainda bem pior do que no Líbano ou na Síria, com os partidos árabes a serem sistematicamente excluídos do processo político.
Imagem de perfil

De João Pedro Pimenta a 29.03.2019 às 22:41

Sim, claro, o Assad ao lado do Bibi é uma ternura. E em Israel não faltam milícias armadas como no Líbano.
Caso não saiba, em todas as eleições os árabes concorrem e por sinal nas últimas até ficaram em terceiro lugar. É a isto que chama "sistematicamente excluídos"? Excluídos da própria vida são os sírios que se opõem a Assad. Esta concorre para "Lavourada da semana".
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 28.03.2019 às 17:55

Pode-se acrescentar que agora uma moda que pegou nesses países árabes ditatoriais que o sátiro referiu, consiste em retirar a cidadania aos seus cidadãos que contestam as ditaduras sob as quais vivem. Os dissidentes tornam-se assim apátridas e desprovidos de quaisquer direitos mesmo no seu próprio país. Isso tem acontecido com frequência, por exemplo, no Bahrain.
Enfim, tudo países maravilhosos, que o Ocidente muito aprecia.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 28.03.2019 às 18:58

"O sátiro", escumalha das caixas de comentários, apoiante de escumalha como Bolsonaro ou Trump. Mente deliberadamente.
Imagem de perfil

De João Pedro Pimenta a 28.03.2019 às 23:55

Então se mente aproveite para o contradizer, sem insultos, se for possível. Até porque já deu para ver que o seu repertório de insultos não é muito alargado - é "escumalha" a torto e a direito.
Sem imagem de perfil

De Luís Lavoura a 28.03.2019 às 15:14

Não entendo a fotografia de Acre "com a silhueta de Haifa do outro lado da baía". De facto, estando o Mediterrâneo à esquerda, a fotografia deveria estar orientada para norte. Porém, Haifa fica a sul de Acre. Há qualquer coisa de errada.
Imagem de perfil

De João Pedro Pimenta a 28.03.2019 às 17:20

Não há nada de errado, caro Lavoura. Simplemente a luz não permitir distinguir Haifa assim tão bem na foto, por isso coloquei esta que está virada para oeste. Basta olhar para o mapa e ver a situação geográfica de Acre.
Sem imagem de perfil

De Anónimo a 28.03.2019 às 19:36

A falta de óculos e a ignorância de noções de fotografia e verificação de mapas,resulta na louvarada do comentário !

A.Vieira

Comentar post



O nosso livro



Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.




Links

Blogue da Semana

  •  
  • Afinidades

  •  
  • Lá fora cá dentro

  •  
  • Mais ligações

  •  
  • Informações úteis


    Arquivo

    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2019
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2018
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2017
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2016
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2015
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2014
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2013
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2012
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2011
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2010
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2009
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D