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Achatamento da curva? Talvez, mas...

por João André, em 31.03.20

Quando falamos em números de casos e mortes da pandemia, eu normalmente sigo o site que a Johns Hopkins University criou. Ali eles colocam os números de casos e mortes por país, excepto em alguns países maiores e de maior interesse, onde dão também mortes por região ou estado. Tende a ser o site que a maior parte dos jornais que vou lendo vai usando.

Um dos gráficos mais interessantes é o de novos casos por dia. Pode ser visto globalmente, para o mundo inteiro, ou por país. O mesmo para o número cumulativo de casos. Também tem a opção de ver a evolução num gráfico (semi-)logarítmico mas vou deixar isso para outra altura.

Uma coisa que se começa a notar é o achatamento da curva quando olhamos para novos casos (o gráfico vem sob a forma de um histograma, mas não faz diferença para o caso) e parece que estamos a deixar a porção exponencial quando os vemos de forma cumulativa. Olhar para os gráficos da Coreia do Sul dá uma ideia melhor do que estou a falar.

20200331 Johns Hopkins SKO Cum.JPG20200331 Johns Hopkins SKO diario.JPG

Gráficos para a Coreia do Sul. Acima o cumulativo, abaixo o diário.

Os gráficos demonstram bem a evolução. Como existiram poucos casos a início, houve depois um rápido aumento, seguido de estabilização e depois uma dimiuição de novos casos, o número dos quais tem sido mais ou menos constante nos últimos tempos. Em parte isto mostra o aumento súbito de casos, mas também aponta para a possibilidade de esse aumento súbito ter surgido de forma mais articial, e ser resultado do aumento do número de testes feito.

Para o caso português, vemos que estaremos agora a estabilizar o número de novos casos diários (ver gráficos). Isto poderia indicar que estamos a atingir o pico de casos no nosso país.

20200331 Johns Hopkins POR Cum.JPG20200331 Johns Hopkins POR diario.JPG

Gráficos para Portugal. Acima o cumulativo, abaixo o diário.

Há contudo precauções a tomar. Da mesma forma que os casos na Coreia do Sul poderão ter reflectido a súbita disponibilidade de testes, em Portugal o número máximo de casos poderá reflectir apenas o número máximo de testes que o país é capaz de fazer por dia. Se o máximo de testes que for possível fazer em Portugal num único dia andar pelos 800 a 1.000, será esse o número máximo de casos que aparecerão nas estatísticas, mesmo que o número real de novos casos seja de 1.200, 3.000 ou até de meio milhão.

O mesmo pode ser visto para Itália, Espanha ou EUA (gráficos abaixo).

20200331 Johns Hopkins ESP Cum.JPG20200331 Johns Hopkins ESP diario.JPG

Gráficos para Espanha. Acima o cumulativo, abaixo o diário.

20200331 Johns Hopkins ITA Cum.JPG20200331 Johns Hopkins ITA diario.JPG

Gráficos para a Itália. Acima o cumulativo, abaixo o diário.

20200331 Johns Hopkins USA Cum.JPG20200331 Johns Hopkins USA diario.JPG

Gráficos para os EUA. Acima o cumulativo, abaixo o diário.

O melhor exemplo de como isto provavelmente será real é o dos EUA. Houve um aumento rápido do número de novos casos diários a início e de repente atingiu-se quase como que um patamar por volta dos 18 a 20 mil casos diários. Certamente que os EUA estarão a testar mais que 20 mil pessoas por dia, mas apenas uma parte terá contraído o vírus. Se a percentagem de pessoas com COVID-19 for mais ou menos estável, o número de novos casos poderá então estar na mesma limitado pelo número de testes administrados. Por exemplo: se 400 mil pessoas forem testadas diáriamente e apenas 5% tiverem o vírus, apenas 20 mil novos casos surgirão. Se fossem 4 milhões, poderíamos ter 200 mil casos diários.

Obviamente que isto é apenas uma hipótese, mas na ausência de outros dados (número de testes por dia, número de testes negativos, etc), é um cenário plausível e, com as notícias que há constantemente pedidos para mais testes, até mesmo provável. Não contemplo aqui as pessoas que terão contraído o vírus e estarão assimptomáticas ou com sintomas muito ligeiros e completamente indistinguíveis dos da gripe, dado que esas pessoas provavelmente não serão testadas.

Concluindo. Devemos ter cuidado com notícias que falam em achatamento da curva ou em estarmos a atingir o pico da crise. É possível (assim o desejo) mas há mais situações a considerar. Vamos vendo caso a caso.


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