Acabou-se o recreio
(créditos: José Fonseca Fernandes/Expresso)
1. Quando ainda há poucas horas António José Seguro (AJS), o vencedor das eleições presidenciais de 2026 e próximo Presidente da República, fazia o seu discurso de vitória aos portugueses, afirmando que não será por ele que a legislatura será interrompida, muitos terão suspirado de alívio. A começar por Luís Montenegro. Porém, nem tudo nesta vida é linear, e facilmente apreensível pela generalidade dos cidadãos, pelo que convém colocar a frase do presidente eleito no seu devido lugar. Vamos por partes.
2. Qualquer que seja o prisma de análise, e por muito grande que seja a má vontade do analista, AJS conseguiu um resultado extraordinário. Extraordinário pelas circunstâncias em que o obteve, mas igualmente pelos números.
3. Começando pelos números, quando ainda faltam apurar os resultados de 20 freguesias, pertencentes a oito municípios, num total de 36.852 inscritos, num universo de 3259 freguesias, sendo por isso mesmo previsível que o vencedor venha ainda aumentar o número de votos obtidos, verifica-se que AJS conseguiu 3.482.481 sufrágios, que correspondem a 66,82% do total de votos válidos. Mais do que Mário Soares, Sampaio, Eanes, Marcelo ou Cavaco. O segundo em percentagem, logo a seguir aos históricos 70,35% de Soares em 1991. Para quem ainda há um ano era acusado de ser um candidato que nem sequer cumpria os requisitos mínimos, olhado de soslaio pela indigente burguesia política dos socialistas, ainda mais notável se torna.
4. Repare-se que AJS na 1.ª volta destas eleições presidenciais só conseguiu 1.755.764 votos. Se somarmos os votos conseguidos pelos outros candidatos de esquerda há três semanas, estes só somavam 258.829 votos (Catarina Martins, António Filipe, Jorge Pinto e André Pestana). Se somarmos estes votos aos anteriores, o resultado dá 2.014.593. Fora deste universo considerado de esquerda, AJS foi buscar mais 1.467.888 votos. E onde foi ele buscá-los? À direita, obviamente, posto que Cotrim de Figueiredo (903.201 votos), Gouveia e Melo (695.244 votos) e Marques Mendes (637.535 votos) juntos chegavam aos 2.235.970 votos. Ou seja, há quase um milhão e meio de eleitores que votaram à direita na 1.ª volta que se sentiram mais confortáveis em votar em AJS na 2.ª volta do que em AV. E isto, como veremos, tem consequências políticas profundas.
5. Mas não só. AJS consegue este resultado sem o endosso de Luís Montenegro e no silêncio de Pedro Passos Coelho. Se em relação a Montenegro, que optou pelas habituais meias-tintas, os seus eleitores poderiam ser tentados a ficar em casa, os poucos que ficaram não tiveram qualquer significado. Admitindo, o que seria impensável, que todos os eleitores de Marques Mendes, na 1.ª volta, votaram em AJS, isso significa que este ainda foi buscar mais de 830 mil votos a Gouveia e Melo e Cotrim de Figueiredo. Para Luís Montenegro e o seu clã é mais uma pesadíssima derrota. O eleitorado do PSD mostrou ao primeiro-ministro a sua falta de visão política, o seu desfasamento em relação ao eleitorado potencial do partido e o quanto errado está. Será difícil encontrar na história do país um líder mais míope e com piores conselheiros.
6. Por outro lado, se Passos Coelho nada disse para não o confundirem com AJS, e o acusarem no futuro de ter alinhado ao lado do socialista, e também não aconselhou o voto em Ventura para não dar um sinal errado aos seus apoiantes, escudando-se no silêncio, também não me parece que essa posição, muito menos este resultado, admitindo que admite um regresso à política activa, possam convidar agora a um eventual regresso. Se foi essa a sua aposta errou o alvo e, lamentando desiludir os seus admiradores, não pode vir a obter dividendos futuros. Qualquer regresso será agora mais difícil, periclitante e dependente de terceiros. A começar pelo próprio AV que numa eventualidade dessas não deixará de lhe recriminar o silêncio num momento crucial para o seu eleitorado.
7. E se AV, o derrotado, saiu logo à rua para se reclamar o “líder da direita”, agitando os seus 33,18%, será bom notar que a percentagem é enganadora e o fulano só fala nela, oportunista e chico-esperto como é, porque agora lhe dá jeito. E a desfaçatez é tão extraordinária que o número de votos que obteve ainda é inferior ao conseguido pela AD e Luís Montenegro nas últimas eleições legislativas. Em Maio de 2025, Montenegro conseguiu 1.975.558 votos (sem contarmos com mais 36.879 votos que recolheu em locais onde os partidos da AD se coligaram ao PPM). Então Ventura quer liderar a direita com menos 250 mil votos do que aqueles que Montenegro arrecadou há menos de um ano? Só se for uma direita e extrema-direita “poucochinha”. Uma direita que só venceu em Elvas e em São Vicente, e que em Lisboa e Porto, onde AJS ultrapassou os 70%, foi passada a ferro por um rolo compressor. Que direita é essa que AV quer liderar? A dos tristes, ressabiados, rufias, aldrabões e ignorantes?
8. E de nada serve a AV vir falar na sua percentagem, porque qualquer pessoa com dois dedos de testa percebe que não é o mesmo obter 33,18% num universo de apenas dois candidatos ou de mais de uma dezena de outros concorrentes. Em especial se a taxa de abstenção, como foi o caso, for de 49%, e os votos nulos e brancos e abstenção não tiverem atingido os números que muitas aves de mau agoiro agitavam. Não houve nenhum abstenção histórica – a abstenção em eleições presidenciais nos anos de 2001, 2011, 2016 e 2021 foi, respectivamente, de 50%, 53,5%, 53,1 % e 60,8% – e os portugueses que foram às urnas não se revendo em nenhum dos candidatos foram uma ínfima parte – nem por isso desprezível e a exigir atenção –, cerca de 271 mil, ou seja, pouco mais do que a soma dos votos na 1.ª volta de Catarina Martins (116.413), António Filipe (92.634), Manuel João Vieira (60.266), Jorge Pinto (38.568) e André Pestana (10.896). Em relação à 1.ª volta AV só recolheu mais 400 mil votos. Isto não é nada. É menos do que os votos de Marques Mendes sozinho que ficou em 5.º lugar na 1.ª volta e ainda assim teve mais de 600 mil votos.
9. Mas a derrota maior de AV, que nem sequer conseguiu vencer na sua terra natal, bem ao contrário de AJS, foi a sua tentativa de, depois de ter dito que não via razão para se adiarem as eleições, tentar, de novo, tirar partido de uma tragédia e vir passar um atestado de “coitadinhos” aos eleitores das zonas afectadas pelas intempéries. A resposta dada nas urnas foi esmagadora, um murro no estômago de AV: não só AJS venceu em todos os concelhos afectados pelas calamidades, como a taxa de abstenção nos concelhos nesta situação foi idêntica à média nacional, inferior a 50%, havendo concelhos como Vila de Rei, Sardoal, Mação, Constância e Penamacor em que foi inferior a 35%.
10. Aqui chegados, percebe-se bem o que aí vem e volto ao princípio deste texto. Não é AJS quem vai interromper a legislatura, até porque neste momento, e depois do que prometeu, seria um suicídio político e iria romper com o contrato que estabeleceu com os portugueses. Quem vai querer interromper a legislatura e rapidamente é AV e o Chega. Porque apesar do sofrível resultado conseguido está convencido de que ainda pode “liderar a direita”. Não pode.
11. AV e o Chega atingiram o limite superior do seu potencial crescimento. Daqui para a frente, se AJS e os demais partidos políticos forem inteligentes, e Montenegro não fizer mais asneiras, começando a governar para os portugueses e não para o seu umbigo, será sempre a cair. Este cenário não convém a AV nem ao Chega, que vão continuar a apostar no caos. Porque só no caos, sem ideias, sem programa e apenas com chavões, insultos, papões e slogans, é que sabem que podem medrar. Farão tudo para que o Governo caia, votarão contra qualquer orçamento que não acolha as suas medidas populistas e alimente o seu eleitorado. E será sempre pouco.
12. Se Montenegro ceder às exigências do Chega poderá, com mais ou menos tombo, aguentar-se no poder, mas acabará com o que resta do PSD a tentar manter-se à tona, engolindo pirolito a seguir a pirolito. Se, entretanto, Poiares Maduro, Miguel Morgado, e outros como estes, não resolverem juntar os cacos que Montenegro, Hugo Soares e Leitão Amaro têm vindo a espalhar com os jarrões, uns de barro, outros de porcelana, que têm escaqueirado no recreio, reconstruirem o partido, ou criarem um novo, quem sabe se com Cotrim de Figueiredo, esvaziando o IL e acabando com a choldra que serve AV na perfeição.
13. Com AJS em Belém, imune ao clientelismo e ao compadrio – longe de socratistas, nunistas, sanguessugas e afins, incluindo uns quantos daqui da minha rua que estão sempre prontos a pendurarem-se nos vencedores –, um PSD renovado de alto a baixo por gente séria e bem formada, e um PS reformado – se é que tal coisa será alguma vez possível num Largo do Rato e numa bancada parlamentar atravancada de monos –, as presidenciais de 2026 podem ser o canto do cisne de André Ventura.
14. E o caminho para a recuperação de Portugal. Haja inteligência e capacidade dos actores políticos para compreenderem o que os portugueses querem, darem respostas aos esquecidos e descontentes que se refugiaram nas franjas do sistema e viram no arruaceirismo uma forma de se fazerem ouvir. Está na hora de mandar o sobretudo cor de camelo para a lavandaria.
15. É preciso fazer alguma coisa pelos portugueses, por nós – todos –, e por Portugal. Agora que a Primavera está a chegar, os rios voltam aos leitos, os dias se tornam mais longos, e antes que chegue a noite.
16. Precisamos todos de ter uma vida normal. Decente. De voltarmos a falar uns com os outros. Como gente civilizada, com maneiras. De falar de política e de futebol sem ser aos berros e insultando os parceiros. E de nos reproduzirmos para deixarmos de definhar enquanto nação. Só precisamos de começar a fazer uma boa cama. Dêem-nos condições em vez de palavras.

