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Acabou a novela, mas não acabou o drama

por Diogo Noivo, em 30.10.16

RajoyCD_20minutos.jpg

 

Ouvi há dias uma frase que resume na perfeição o último ano da política espanhola: Mariano Rajoy é o único animal no planeta que avança sem se mover. O líder dos Populares não tem carisma, não tem o dom da palavra, lidera um partido com vários militantes e antigos militantes envolvidos em casos de corrupção e de branqueamento de capitais, não fez grandes cedências à oposição apesar de carecer de uma maioria absoluta, mas avança. Aliás, olhando para o percurso de Rajoy na política nacional vemos uma história quase inexplicável de sobrevivência. Uns dirão que se trata do triunfo da mediocridade, outros que é um bom exemplo da importância do sangue-frio e da estratégia em política. Seja como for, o homem resiste.
Isso deve-se, em parte, à hecatombe socialista, que analisei aqui. O desastre estratégico e eleitoral do PSOE levou o partido a um Comité Federal, realizado no passado domingo. Ao órgão máximo do PSOE competia-lhe tirar os socialistas de uma encruzilhada asfixiante: abster-se na investidura de Rajoy, permitindo que Populares formassem governo, ou votar “não” e levar o país a terceiras eleições. Esta era a escolha visível e imediata, aquela que se assume perante as câmaras. Mas, como na música, havia outra, mais importante: ganhar tempo para reconstruir o partido ou ser ultrapassado nas urnas pelo Podemos e, consequentemente, tornar-se irrelevante. Sem surpresa, o PSOE optou pela abstenção, ou seja, por manter o lugar de principal força política de esquerda.

 

O Podemos não gostou. Ainda com Pedro Sánchez no lugar de Secretário-Geral, Pablo Iglesias y sus muchach@s (assim, com arroba, à Podemos) pressionavam diária e intensamente o PSOE. Segundo o Podemos, os socialistas não podiam ceder aos apelos à responsabilidade, tinham que ser intransigentes no “não” ao PP. Para o Podemos, este era o caminho para o sucesso: as terceiras eleições fariam dele o primeiro partido de esquerda em Espanha, seguido por um PSOE de rastos e sem condições para se reafirmar no panorama político nacional. Era uma oportunidade de ouro. Decidida a abstenção socialista no passado domingo, o radicalismo e a ferocidade do Podemos atingem novos patamares. Pablo Iglesias e os seus dizem do PSOE o que Sócrates não disse de Cavaco (pelo menos em público), evidenciando um discurso típico de mau perdedor. “Traidores”, “marca branca do PP” e “casta” figuram entre os apodos mais simpáticos, ditos nos intervalos da exploração das fracturas internas que um profundamente inábil Pedro Sánchez deixou no PSOE.
Mas Iglesias também extrema posições num espaço político mais vasto. Após defender que o Podemos devia menorizar o papel das instituições e fazer política na rua, Pablo Iglesias mostrou-se favorável à ideia de um protesto que cercasse o Congreso de los Diputados, uma manifestação cujo intuito é de tal forma contrário ao espírito e aos procedimentos do Estado de Direito Democrático que dispensa comentários adicionais. Pelo meio, manifestantes de cara tapada impediram Felipe González, antigo Presidente de Governo e histórico líder socialista, de dar uma conferência na Universidade Autónoma de Madrid. É verdade que não houve um apoio formal do Podemos a estes manifestantes, mas é igualmente verdade que as palavras de ordem foram copiadas de diferentes intervenções públicas de Pablo Iglesias. É caso para evocar as brujas que não existem, mas que vão aparecendo.
No passado domingo, o PSOE optou por sobreviver, como aliás demonstra a reacção visceral do Podemos. Os socialistas têm tempo e o Governo de Mariano Rajoy nas mãos, o que é um bom ponto de partida. Mas a pressão à sua esquerda deve continuar num trajecto ascendente.


Acabou a novela da investidura em Espanha porque há desde ontem um Presidente de Governo. Tal como Mariano Rajoy, o PSOE sobrevive. É o melhor cenário para ambos. Mas os problemas de um e do outro estão longe de estar resolvidos. Rajoy estará nas mãos do PSOE e o PSOE talvez esteja nas mãos do Podemos. Há drama no horizonte.


8 comentários

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De am a 30.10.2016 às 12:55

Rajoy

Apesar de tudo e de todo o mal que lhe atribui, a Espanha este ano terá um crescimento de 3%---- (onze meses sem governo)

Nós por cá, com a catadupa de Professores Doutores (as) caminhamos para o abismo gerigonçalvista!

Assim, preferia o animal o animal que não avança!
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De lucklucky a 30.10.2016 às 16:24

"Apesar de tudo e de todo o mal que lhe atribui, a Espanha este ano terá um crescimento de 3%"

Impressionante como mesmo nos casos onde não há Governo as pessoas atribuem ao Governo os resultados.

Acreditar na Política é mesmo a Religião que veio substituir o Cristianismo.
Sobre este fanatismo religioso ninguém escreve.
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De M. S. a 31.10.2016 às 09:10

loucolucky:
Parece que o (absurdamente auto-intitulado) Estado Islâmico se está a finar.
Digo absurdamente porque lá não havia Estado, muito menos Socialista (cruzes, canhoto, vade retro Satanás).
Aproveite e vá viver os últimos momentos daquele Paraíso sobre a Terra.
Como é bom estar-se reformado, a viver do Estado Social, e ter-se acesso à Internet para debitar insanidades.
E ainda por cima ter-se a liberdade que o malvado Estado, que todos esmaga com os seus tentáculos, permite.
Incoerências do dito.
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De cristof a 31.10.2016 às 04:03

Verdade. A irrelevancia dos papagaios que pomos lá fica aí bem patente.
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De Pedro Correia a 30.10.2016 às 19:10

O Camilo José Cela tem uma grande frase que resume de algum modo o percurso de Rajoy. “Em Espanha quem resiste, vence.”
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De Anónimo a 30.10.2016 às 19:12

Camarada LuKy

Desculpe-me o lapso:

A Espanha foi governada por Hajoy (11 meses) em autogestão.
....
É que:

Para ter o diploma da 4ª classe antiga, falta-me a cadeira dos Rios e Afluentes ( do Minho a Timor)

Tenha o camarada uma boa digestão.
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De cristof a 31.10.2016 às 04:13

A aprendizagem da democracia, pelos cidadãos, politicos , politologos e medias demora muito anos. Olhando para as faunas locais (comentarios, protestos da rua e posições no parlamento) entre os países bem governados do norte e os folclores da Grecia, Espanha, menos Portugal(o PREC valeu), vemos uma diferença notoria. Aqui as almas do sul são muito mais criativas, ineficientes e fantasiosas do que os pragmaticos do norte.
Há muito mais vida para alem da eficencia. A irrelevancia dos governos no sul fica bem patente no crescimento da Espanha. As paginas de palha politica que têm alimentado as mentes dos nossos politologos, bendito lero lero que nos anima os dias de fantasias.
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De Javier a 07.11.2016 às 20:50

É frontalmente errado afirmar que viabilizar o governo de Rajoy vai permitir ao PSOE sobrevivir, sindo o oposto, a sua auto-destrução. Um suicídio eleitoral.
Simolesmente temos de olhar o que ocurreu com o grego PASOK após de colocar no governo a direita da ND: ficou quase excluido do parlamento heleno, sindo ultrapassado pelo agora governante SYRIZA.
O apoio do PSOE ao PP era o sonho que Pablo Iglesias estava esperando, por enquanto os votantes do PSOE queriam qualquer coisa menos um novo governo do mais corrupto partido da Europa. Agora, a inmolação do PSOE vai permitir uma victória futura de Podemos, mentras o velho partido socialista vai ter sorte se consegue ficar em terça, e no quarta, posição no arco parlamentário.

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